Lost, ano 5

Lost voltou nos Estados Unidos pela ABC, na Inglaterra pelo Sky One… e no resto do mundo em um programa de troca de arquivos que lhe aprouver.

Spoilers a seguir…

Os autores embarcaram fundo na ficção científica. Para mim, que adoro o gênero, é sensacional. Estou curtindo, porque eles realmente entendem do assunto. Lost é, sim, bem amarrado.

Mas enquanto eu via o rosto confuso de Sawyer e o aparvalhado Faraday incapaz (ou proibido pelos roteiristas) de explicar o que estava acontecendo, dava quase para ouvir o barulho de dedos engordurados (sabe como é, americanos, fast food) apertando os botões de controles remotos e trocando de canal, desligando seus televisores. A audiência baixando, baixando…

Quando Lost começou, era tão misterioso que qualquer crença cabia na história dos sobreviventes que caem numa ilha cheia de perigos. Era aventura, era drama, era budismo, cristianismo, espiritismo, tudo junto. Eles estavam mortos. Tinham sido abduzidos. Estavam no purgatório! Mas a cada revelação, teorias vão sendo jogadas de lado e esses grupos que curtiam tal e tal possibilidade de história que não vingou vão se desinteressando. Viagem no tempo? Física quântica? Sai pra lá!! Eu quero é Two and a Half Men!!!

Voltando ao que aconteceu nos dois primeiros episódios. Depois de muita preparação do terreno, em que a história se movia a passo de cágado, parece agora que todo episódio é cheio de informações e que a história se move a 120 por hora. O motivo é simples. Nos primeiros anos, a série se baseou no formato de concentrar cada episódio num personagem e, assim, parar tudo ao seu redor. Então, num episódio do Hurley, por exemplo, você podia nem ver alguns dos outros protagonistas. Isso num DVD é tranquilo. Mas quando você esperava um mês por um único episódio e seu personagem predileto não dava as caras, era profundamente irritante.

Aí, a partir da metade do terceiro ano, eles foram abandonando essa regra de concentração no personagem da semana e começaram a investir nas multiplas tramas evoluindo simultaneamente num mesmo episódio. É uma narrativa mais convencional, é verdade, mas fez toda a diferença do mundo. E sempre há a chance de disparar um truque narrativo aqui ou ali.

De qualquer modo, está estabelecido e definido pro grande público, que não acompanha os ARGs na internet, que no cerne das maluquices de Lost está uma trama complexa de ficção científica. Sim, porque os fãs mais alucinados já tinham entendido isso a mais tempo, pescando as pistas na internet. Imagino que nos próximos poucos episódios nossos heróis vão ser reunidos, com dificuldades, claro, e voltarão para a Ilha. Alguns amigos meus se incomodaram com a intensa e cada vez mais exagerada carga de momentos “não dá pra falar agora” e de personagens chegando na última hora e falando uma frase de efeito dramático. São truques baixos dos dramas aventurescos, mas depois de um certo ponto viram convenções narrativas desta ou daquela série. Pra mim, quando uma série vai chegando ao seu quinto ano, minha relação vira algo muito mais pessoal com os personagens. De saber o que vai acontecer a seguir. É quando muitas séries dramáticas mais convencionais, conseguem fazer episódios inteiros sem plot. Narrativa pura. Aconteceu isso, aquilo e aquilo e outro. A vida transcorrendo diante dos olhos do espectador. Com Lost, isso não pode acontecer. Ali rola uma fantástica e bem urdida (pelo menos depois da tal recauchutada no terceiro ano) interação de plot com personagem. A plot é a estrutura dramática que provoca o personagem e o mantém em movimento.

Em resumo, gostei muito dos dois primeiros episódios. Os pequenos defeitos, soam até engraçados. E as qualidades sao indiscutíveis. Até aqui, foi uma espécie de colocação das peças pro conflito que vai rolar nas próximas semanas. Os seis têm que se reunir, mas Kate quer fugir, Sun quer matar Ben, Hurley está preso, Jack mal se aguenta sem as drogas, Ben sabe que o tempo se esgota para… para… Alguma coisa muito ruim! Desmond precisa achar a mãe de Faraday em Oxford, Sawyer quer um sapato, Juliet tem que tomar um banho, já. E nossos personagens preferidos continuam com déficit de atenção. Eles fazem uma pergunta, qualquer uma, a mais importante do mundo, e basta o interlocutor dar uma enroladinha pra eles mudarem de assunto e deixarem pra lá. Parecem a Dori, do Procurando Nemo.

Mas eu adoro. E ainda tem muito chão, galera.

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