O discurso de posse: nota oito com louvor

O discurso de posse do presidente Obama decepcionou muita gente por ter sido menos emocionante do que os dos grandes momentos da campanha (o G1 tem a versão original e uma tradução).

Ainda bem. É nota oito. Com louvor.

Foi um discurso lúcido, inteligente e que tentou mostrar que a América se coloca em uma posição tolerante e multilateral, humanista e olhando pro futuro. Obama falou de força exercida com humildade (é possível?) de um país que não tem vergonha de seu modo de vida, mas sabe que precisa estar consciente do mal que esses estilo de vida pode causar das nações ao seu redor. Muito, muito lúcido.

É tanto cuidado na retórica que dá até medo de que ele acabe hesitante e, infelizmente, fraco como Jimmy Carter. Bush, por seu lado, usava uma retórica medíocre, sem nenhum cuidado para justificar seus passos. Ele ia em frente, quebrando todos os vasos da loja. Um paquiderme desajeitado conduzido por um treinador mal intencionado, seu vice-presidente.

O que me agrada na lucidez é que fica clara a real intenção de Obama de desescalar a retórica. De sair dos exageros de campanha. Achei bem estruturada a forma como ele diz tudo que vai fazer, mas que nada funciona se o país não estiver interessado em se unir. Se as pessoas não se juntarem em torno de seus princípios.

Num momento em que todos esperavam um triunfalismo, figuras coloridas de linguagem. ELe teve a coragem de fazer um discurso mais frio. De economizar nos crowd pleasers. Entenda o funcionamento dos discursos. Os presidente dá sua mensagem e sempre prepara alguma frase para levantar a platéia e angariar aplausos em alguns pontos. Como quando ele lista os desafios que o país tem pela frente, fala, fala, e fala e termina com: América, vamos vencer esses desafios! Aplausos!! Ou quando ele fala aos terroristas e às nações inimigas e avisa: vamos vencer vocês! Aplausos, aplausos. Ele cuidadosamente vai além desses truques e se dá ao luxo de dizer coisas difíceis.

Como por exemplo, avisar que essa nação é dos cristão, muçulmanos, judeus… e ateus (non-believers) também. Provavelmente deve ser a primeira vez que um presidente americano faz isso em um grande discurso. Note como ele é recebido com silêncio quando fala das qualidades da humildade e auto-controle. Silêncio. Mas ele diz o que tem que ser dito, mesmo sabendo que não é exatamente o que vai fazer o povo americano pular de alegria. Um dos sinais da grandeza de um líder está em saber exercer seu poder de forma civilizada, com grandeza.

Existe uma razão para o fato de que o mundo todo assistiu à posse de Barack Obama. Ontem, na faculdade, estávamos fazendo um trabalho de grupo simulando uma consultoria para mudar a estrutura de um jornal e havia momentos de troca de salas e reuniões. Numa sala onde havia um iraniano, dois chineses, uma egípcia, um sul-africano e uma Islandesa (entre os que me lembro), havia também três computadores conectados no live feed da CNN, de olho na posse e no discurso. Nos corredores da faculdade, os telões, que estão sempre sintonizados na BBC News, mostravam a posse, claro. Sendo o líder da nação mais poderosa economica e militarment falando, cada passo da América nos influencia. Temos que nos interessar, claro.

Pois me agradou esse humanismo, essa clareza, essa intenção de dar o exemplo. Será que isso vai se materializar em um bom governo? Que ele vai ficar só na retórica e se perder? Não sei. Mas a gente dá um passo depois do outro. Não há nenhuma razão para achar que ele vai ser fraco porque quer ser justo. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Essa retórica de que fazer a coisa certa, gera sempre ações negativas e até impopulares só serve a quem precisa disso pra ir dormir tranquilo enquanto invade países livres e ignora deliberadamente a própria constituição.

Algumas pessoas acham que é só um discurso. Não. Um discurso é, sim, uma carta de intenções clara. Se um discurso fosse sempre algo vazio, os de Bush poderiam ser sempre bacanas e cheios de palavras bonitas. Não eram. Eram peças com a função de justificar seus atos absurdos. Um discurso de um estadista é algo importantíssimo para nos dizer o que ele quer fazer. A realidade se instala e um monte de intenções ficam no caminho. Mas o rumo está lá, nas palavras cuidadosamente escolhidas. Pavimentar um futuro com novas fontes de energia, exercer a força com justiça, trabalhar, reformar as escolas não porque elas precisam de giz, mas porque elas carecem de idéias. São princípios sólidos que mostram que ele sabe os problemas. Se vai conseguir enfrentá-los é que é a grande questão. É o drama que veremos se desenrolar pelos próximos quatro ou oito anos.

Conte para os amigos!

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