Meu Chapa: a história é boa, o narrador é que atrapalha

O fenômeno da Au-Auto Ajuda (termo genial cunhado, acho que pelo Giron, em Época) não é recente nos Estados Unidos. John Grogan acertou em cheio ao criar um livro universal em Marley e Eu. Mas por lá, há outros escritores dedicados a falar da relação entre cães e donos. O mais regular e conhecido é John Katz, que tem uma obra delicada e diversificada.

Por aqui, rolou uma corrida desesperada para arrumar um Marley e Eu brasileiro. No meio disso, recebi no ano passado um livro chamado Meu Chapa. É a história de um homem que, ao terminar um namoro, resolve sair pelo país e adota como companheiro de aventuras um labrador preto. Veja bem, eu tenho um pretinho lindo. Fiquei interessado imediatamente e fui ler. Não consegui passar das primeiras páginas. Mas minha vida estava tão bagunçada na época que deixei isso pra lá. De volta pra casa no fim de ano, resolvi dar uma outra olhada no livro e agora ficou claro porque não consigo seguir em frente.

Escritores inexperientes (ou ruins mesmo) não sabem a hora de parar de falar. E ficam andando em círculos com diálogos canhestros e prosa derivativa. Falam em 20 palavras coisas que podiam ser ditas com cinco. Meu Chapa é um caso clássico dessa falta de edição, de uma auto-indulgência que beira o irritante. O autor tem cacoetes de linguagem irritantes que poderiam ser resolvidos com boa edição. Não acontece isso, claro. E dá-lhe “ser vivente” e outros clichês malas que só revelam falta de um arsenal de linguagem para envolver de verdade o leitor.

E dói o coração dizer tudo isso, porque ele tem uma história deliciosa pra contar. O labrador é comprado na Bahia e vai seguir com ele pra Chapada Diamantina. No meio do caminho, ele conhecerá a mulher por quem se apaixonou. Tinha tudo para ser bom. Era só o autor saber a hora de sair da frente, parar de me contar suas digressões chatas e me dizer o que acontece em seguida. Bom. Parei o livro na página 50 e não planejo voltar. Nunca vou saber como a coisa toda vai terminar.

Para saber mais, leia essa entrevista do autor.

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