O desdém a Buffy (e a outras criações a cultura pop) me dá sono

É engraçado. Eu não sou fanático. Aprecio vários tipos de entretenimento, sou um consumidor contumaz de filmes, livros, música e gosto de alguma coisa, desgosto de outras. Fora momentos em que brinco com meu interesse por esse ou outro produto cultural, sou uma pessoa razoável.

Então me canso um pouco quando vejo as pessoas falando bobagens a respeito de certas obras culturais. Você pode ver isso quando alguém desdenha de Jornada nas Estrelas, ignorando que foi um dos mais infulentes seriados de ficção científica da história. Como qualquer produto feito em série para uma indústria, tem altos e baixos. Mas seu conjunto da obra é relevante a despeito de implicâncias e opiniões pessoais.

Dos meus seriados queridos, o que eu mais vejo ser sacaneado é Buffy – A Caça Vampiros. E em 99% das vezes só ouço simplificações sem sentido. As pessoas que dizem que a série é uma bobagem na enorme maioria das vezes, viram um episódio. Fora de contexto. Quando viram. Humm. Dizem isso da série que entra sempre nas listas de melhores da história da TV de nove entre dez críticos.

Em geral, dizem isso por causa do nome. Buffy. Caça. Vampiros. Buuuuu! Diz-se esse tipo de bobagem ignorando, claro, que o nome é exatamente uma piada com o gênero dos filmes B de terror. Buffy é a clássica mocinha loira que, invertendo as expectativas, revida os ataques dos monstros. É a vítima clássica que vira algoz. Ao fazer isso, desmembra e discute os arquétipos da adolescência, da entrada na idade adulta e do papel da mulher na sociedade. Não diz isso em um único episódio. Diz tudo isso no conjunto da obra, na união dos temas explorados ao longo de seus sete anos. É a natureza das séries, e das boas séries de TV fazer isso. É assim que elas vão além e que se tornam relevantes.

Aliás, na cultura pop, serializada, fragmentada, essa pulverização do sentido ao longo do corpo total da obra é muito comum. Da mesma forma, certas franquias que vão longe demais correm o risco de se perder, de não saber mais do que estão falando. Mas o fato é que, não importa que Jornada nas Estrelas, ou Homem-Aranha, ou Super-Homem tenham ido longe demais. Eles não perdem seu lugar na história por isso. E ainda, podem ser refinados e ajustados para novos tempos.

Buffy foi objeto de livros e teses acadêmicas. Mas, bom, vamos dizer que isso não é o suficiente para provar sua relevância. Provavelmente, há teses e livros sobre seriados ruins. Deve haver alguma coisa falando de Baywatch (SOS Malibu). Mas, bem, a crítica especializada sempre categorizou Baywatch como lixo. Ainda assim, podemos encontrar sentido lá. Mesmo que seja o sentido da imbecilidade e do lixo.

Provavelmente, a maioria dos fãs nem percebe o que está acontecendo e por que Buffy se tornou icônica para eles. Está na missão da crítica (oh, sim, a crítica tem essa missão. A crítica tem uma missão, sabia?) entender esses processos, acusá-los e identiíficá-los. Hoje eu estava lendo mais uma crítica de cinema sobre Crepúsculo, na Folha. Nem sei se o filme é bom, porque ainda não vi. Lá no meio, estava um comentário sobre Buffy. Como de costume, completamente equivocado. Fora de contexto. Me deu sono. Dormi na frente do monitor. Um pouquinho mais de esforço da próxima vez, por favor.

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