Padrão: cachorros vendem

Não precisamos falar de Marley e Eu de novo, por favor. Mas do fato de que Hollywood sempre ganhou bastante dinheiro com cachorros. Marley e Eu apenas modula essa tendência. Outro enorme sucesso esse ano foi o tal Beverly Hills Chihuahua. Fez 114 milhões mundialmente. Vai daí que eu ando pelos metrôs de londres e começo a notar uma coisa curiosa: cachorros surgem em cartazes de filmes o tempo todo. Vejamos, por exemplo, esse filme de Robert De Niro, What Just Happened. Cartaz americano:

Agora a versão inglesa, que eu vi no metrô:

Hummmm. Curioso, né? Veja bem. O filme não é sobre cachorros. É sobre um produtor que enfrenta dificuldades para fazer seu filme.

E esse aqui, com Peter Otoole? O nome é Dean Spanley. O tema é o do reencontro emocional entre pai e filho.

Mas o cartaz…

Engraçado, né? E olhe que eu puxei isso de memória. Deve haver mais por aí e a tendência não é nem nova. Mas não estamos falando de colocar cachorros como coadjuvantes, como em Melhor Impossível, por exemplo, em que o cachorrinho efetivamente tem um papel na mudança emocional do personagem de Jack Nicholson. Aqui os cães nem isso parecem ser. São chamarizes espertos da era Marley.

Meu Chapa: a história é boa, o narrador é que atrapalha

O fenômeno da Au-Auto Ajuda (termo genial cunhado, acho que pelo Giron, em Época) não é recente nos Estados Unidos. John Grogan acertou em cheio ao criar um livro universal em Marley e Eu. Mas por lá, há outros escritores dedicados a falar da relação entre cães e donos. O mais regular e conhecido é John Katz, que tem uma obra delicada e diversificada.

Por aqui, rolou uma corrida desesperada para arrumar um Marley e Eu brasileiro. No meio disso, recebi no ano passado um livro chamado Meu Chapa. É a história de um homem que, ao terminar um namoro, resolve sair pelo país e adota como companheiro de aventuras um labrador preto. Veja bem, eu tenho um pretinho lindo. Fiquei interessado imediatamente e fui ler. Não consegui passar das primeiras páginas. Mas minha vida estava tão bagunçada na época que deixei isso pra lá. De volta pra casa no fim de ano, resolvi dar uma outra olhada no livro e agora ficou claro porque não consigo seguir em frente.

Escritores inexperientes (ou ruins mesmo) não sabem a hora de parar de falar. E ficam andando em círculos com diálogos canhestros e prosa derivativa. Falam em 20 palavras coisas que podiam ser ditas com cinco. Meu Chapa é um caso clássico dessa falta de edição, de uma auto-indulgência que beira o irritante. O autor tem cacoetes de linguagem irritantes que poderiam ser resolvidos com boa edição. Não acontece isso, claro. E dá-lhe “ser vivente” e outros clichês malas que só revelam falta de um arsenal de linguagem para envolver de verdade o leitor.

E dói o coração dizer tudo isso, porque ele tem uma história deliciosa pra contar. O labrador é comprado na Bahia e vai seguir com ele pra Chapada Diamantina. No meio do caminho, ele conhecerá a mulher por quem se apaixonou. Tinha tudo para ser bom. Era só o autor saber a hora de sair da frente, parar de me contar suas digressões chatas e me dizer o que acontece em seguida. Bom. Parei o livro na página 50 e não planejo voltar. Nunca vou saber como a coisa toda vai terminar.

Para saber mais, leia essa entrevista do autor.

Duas descobertas deliciosas

O fim do ano tem uma coisa muito boa. Listas em todos os cantos do que de melhor se exibiu e produziu nos últimos tempos. Considero uma ótima oportunidade de revisar minha lista de filmes, livros, séries e músicas bacanas. Foi nessa toada que acabei vendo duas pérolas:

Son of Rambow – Delicioso. Nem sei porque demorei semanas para falar desse filme aqui. Ah, lembrei. Um dia antes de vir pro Brasil passar o fim de ano. Um menino sonhador de família ligada a uma religião cristã conservadora (Plymouth Bethren) que abomina tecnologia, nunca viu TV e, um dia, descobre os filmes ao ver Rambo. ELe se junta a um típico garoto-problema (que nunca vê a mãe ou o pai e cujo irmão é um relapso) que sonha virar diretor de cinema para fazer um filme que vai descarregar a genialidade dos dois e exorcizar alguns dos seus demônios pessoais. Os personagens são fantásticos e coloridos. Quem viveu os anos 80 vai curtir o filme ainda mais.

The King of Kong – Um documentário que, inesperadamente, te envolve na absolutamente irrelevante disputa entre dois homens em torno do recorde mundial de… Donkey Kong. Isso. Em pleno ano de 2005, eles disputam quem vai quebrar o recorde. A banalidade do tema gera um documentário divertido, engraçado mesmo. Afinal, não tem como não rir daqueles marmanjos brigando, trapaceando e conspirando por conta do recorde em um jogo de máquina de flipper (os populares arcades, aquelas máquinas nas quais a gente depositava fichinhas para jogar e que, hoje, funciona com cartões magnéticos). É tudo muito bem editado e encaixadinho de um jeito que vc começa a desconfiar da integridade do documentário. A história é a seguinte. Um desempregado da Boeing resolve ocupar suas horas vagas jogando Dokey Kong e, depois de saber qual era o recorde mundial daquele jogo, decide que vai estudar o video-game e alcançar um escore ainda maior. Mas ele não imaginava a máfia formada em torno desse mundinho. E a coisa toda logo vira uma espécie de Rocky Balboa, de Karatê Kid. Tem até música desses filmes embalando o treinamento e os desafios que o “protagonista” enfrenta. Falta agora ver outro filme, chamado Chasing Ghosts, com a mesma turma.

Curto ou longo? Isso importa?

Twitter ou blog? Curto ou longo? Eu tenho visto várias pessoas argumentarem a favor do twitter com a justificativa de que dá menos trabalho, é mais curto e coisa e tal.

Isso é uma questão legítima? Jura? O que me impede de blogar textos curtos? Nada.

Não é essa a questão, né? O que me parece genial no Twitter é essa sensação de conversa, de sala de chat virtual 24 horas, não linear, atemporal. Aí, o limite de 140 toques virou uma espécie de play factor, de limite que te desafia e te faz ser mais sucinto. Te obriga a quebrar seu pensamento em pedacinhos quando necessário. Eu tenho o hábito de, nos instant messengers da vida, ir teclando, dando enter e teclando mais e dando enter. Assim, eu mantenho uma velocidade maior na conversa, embora tudo fique mais fragmentado.

Dizer que o Twitter é mais fácil porque é mais curto me parece uma simplificação grosseira. É diferente de blogar, embora tenha pontos de contato. Da mesma forma que limitar o blog a “diário” é uma bobagem atroz. É confundir meio com gênero, ferramenta com o produto do trabalho dela, lápis com texto. Se o blog ameaça morrer como principal canal de comunicação pessoal isso tem mais a ver com a invasão do profissionalismo do que qualquer outra coisa. Em algum ponto, a coisa fica tão séria que as pessoas se intimidam. Uma pena.

O Twitter é um outro bicho, com outras possibilidades deliciosas. Mais uma das ferramentas que foi criada antes de se saber a utilidade e que quem descobriu o que fazer com ela foi o usuário.

As piadas sobre a cobertura das TVs locais são verdadeiras…

Em séries e filmes, a gente sempre vê piadinhas sobre como a cobertura jornalística de jornais locais é uma bobagem atroz. Pois tá aí um exemplo ótimo de falta de assunto. Um bafafá em cima do fato de que um cachorro foi filmado roubando um osso de um supermercado.

Ele não estava salvando ninguem, não estava fugindo de lugar nenhum. Fez o que vários cachorros adoram fazer: roubou um osso do mercado. Óhhhhhh!

Não satisfeitos em mostrar o video da… da… façanha, eles entrevistaram um monte de gente, fizeram takes dentro do mercado e chamaram um especialista pra dizer que, puxa, cachorros têm um faro poderoso. Uau!!

Talvez seja o efeito Marley e Eu. Talvez seja só o fato de que cachorrinhos, bichinhos em geral, dão audiência. Mas não tem outra forma de classificar lixo. É lixo.

Eu quero apareceeeer

To olhando a home da Globo.com e dou de cara com um vídeo sobre presentes indesejados. O vídeo começa com algumas histórias engraçadas e folclóricas, como a do tio que dava o mesmo presente todos os anos. Aí, chega um momento (aos 2min19seg) em que uma moça mostra o presente que ela não gostou e ainda dz que é brega. Bom, vamos imaginar que ela ganhou esse presente de alguém que ela odeia muito. Porque fora desse contexto é uma enorme, gigantesca falta de educação o que ela fez. Expor um presente em rede nacional e avisar que odiou aquilo só pode ser coisa de quem quer muito aparecer…

Marley e…

Acabei de ver Marley e Eu, baseado no livro homônimo. Filme feito pra família. Engraçado, divertido, tocante. Vou apanhar por isso, mas o filme supera o livro ao usar o pior cachorro do mundo como uma forma de discutir a família, as escolhas o envelhecimento, a felicidade escondida numa vida mais simples, medíocre até. Ao fazer isso, tornou a história ainda mais universal. A gente pode dizer que esses temas estavam também no livro. Mas ficavam escondidos atrás de todos os relatos de como Marley fez isso e aquilo. No meio dessas narrativas, os questionamentos de Grogan sobre suas opções ficavam meio que perdidos.

Da mesma forma, no filme alguns momentos marcantes a respeito de como Marley se comportava se perdem, não têm a mesma força. Por exemplo, o dia em que ele fica quietinho consolando Jenny (Jennifer Aniston). No livro, com o poder e o tempo da prosa, Grogan pode sublinhar o fato de que Marley, que nunca parava, ficou completamente diferente naquele segundo. Ou ainda o dia em que uma vizinha é esfaqueada e Marley age como um cão de guarda, ficando de peito estufado a vigiar a entrada da casa. Tudo isso se dilui na fluência do filme. O diretor David Frankel (de O Diabo Veste Prada) se recusa a usar o recurso deselegante do narrador além do necessário. No fim, achei uma decisão acertada.

Para isso, o roteirista Don Roos (que escreveu e dirigiu filmes bacanas como O Oposto do Sexo) usou alguns truques que podem incomodar quem leu o livro. Criou um personagem que faz as opções opostas às do protagonista. Um solteirão convicto, bem sucedido profissionalmente, que é tudo que Grogan (Owen Wilson) queria ser. Além disso, temos menos cachorros e mais seres humanos na história. Mas não deixa de ter labradores fofinhos. E também tem um fim triste. Não sobrou nenhum olho seco no cinema.

JCVD: Van Damme, sem cortes

EU falei de JCVD aqui algumas semanas atrás. Comecei a ver no outro dia, terminei hoje. Bom filme. Idéia interessante, mas o que mata a pau mesmo é o desempenho de Jean Claude Van Damme. Na abertura, ele faz uma cena de luta longa, sem cortes, cheia de golpes, explosões e dublês pulando e caindo por todos os lados. Depois do que parece durar uns três minutos, ele começa a perder a força e a precisão. É isso mesmo. ELe termina a cena e reclama com o diretor: esse take é muito longo. Eu não consigo fazê-lo de uma vez. Não tenho mesmo fôlego, não sou mais um menino.

O que segue é Van Damme enfrentando uma disputa judicial pela guarda da filha e, financeiramente quebrado, tendo que aceitar um papel numa continuação porcaria. Em Bruxelas, na Bélgica, ele entra num banco para tentar tirar algum dinheiro e acaba no meio de um assalto com reféns.

Se fosse um típico filme de Van Damme, ele desceria o braço em todo mundo e resolveria a parada. Mas estamos no terreno da metalinguagem, da autorreferência, no pós-reality show. Esse é o Jean Claude Van Damme de verdade, que tem medo de morrer. Que não sabe como resolver essa situação.

No terceiro ato do filme, ele entrega uma cena mais densa, mais complexa do que aquela do início. Não tem luta. Ele está sentado. Parece teatro. É um monólogo de cortar o coração, olhando para a câmera. Falando sobre seus erros, as drogas, amor e a fantasia dos filmes. Genial. Vale o filme. Se falhou na abertura, essa cena ele entrega lindamente. Em um longo e doloroso take.

Constituição? Ora, temos os termos de uso!

EU sou louco. Passo dias sem blogar e, então, quebrando as regras do bom senso, mando logo uns cinco posts em sequência. Aí, fico mais uns dias sem tocar no bloguinho.

Estava quase fechando a lojinha quando dei de cara com esse artigo interessante do Dan Kennedy, do Guardian. Ele fala sobre como estamos confiando nossa liberdade de expressão a uma única empresa e que o modelo liberal do Google, que, quando pressionado pela justiça local em vários países do mundo, entrega o que for necessário. O Google é muito mais liberal do que certos governos de alguns países nos quais é usado.

Mas não é só isso. Até um jornal que usa, por exemplo, o You Tube, pode se ver em apuros se a empresa considerar que o tal vídeo fere seus termos de uso. E você sabe. Dane-se a constituição. Você abriu mão de ser cidadão, virou consumidor, amigo (eu, de novo, bato nessa tecla). Termos de uso bate fácil na constituição a não ser que você tenha muita determinação e faça um enorme barulho.

É uma questão de modelo de negócio. Eles são bacanas e liberais enquanto isso não lhes cria problemas. E, cá entre nós, eles são uma empresa. Lucro, lembra? O que não podemos é esperar que eles sempre façam a coisa certa.