Obama já governa

A piada dos programas humorísticos é que, se pudesse, Bush deixava a Casa Branca semana que vem. Nem tão fáci, claro. Mas Obama já é o presidente na cabeça das pessoas e Bush é só o cara que está lá, atrapalhando. ELe começou a governar com a simples e eficaz idéia do Change.gov, em que qualquer pessoa pode acompanhar os preparativos antes da posse, no dia 20 de janeiro. E faz até um pronunciamento nacional semanal. E essa parte é verdadeiramente genial. É só uma cabeça falante, numa sala, comentando algum acontecimento da semana e dando sua opinião, tornando públicas suas posturas a respeito de algum assunto importante. Essa semana, ele fala da reunião do G8+12 em Washington. Pede providências e avisa que, se o congresso não agira, ele vai tomar as rédeas no dia 20 de janeiro.

Esse governo Obama, se ele sobreviver à tradição dos americanos malucos de matarem seus presidentes, promete ser muito interessante.

Mais Watchmen

Peraí. Antes de tudo, veja o trailer.

Voltou? Então posso começar a falar. Obviamente, ainda falta muito, o filme não está pronto e ver cenas aos pedaços é uma armadilha. Mas o fato é que as três sequências que eu vi hoje de Watchmen me impresionaram bastante. Ao mesmo tempo, vi alguns defeitos preocupantes. Vou tentar sintetizar.

Bom, para começar, todo mundo se reuniu em um cinema no centro de Londres. Uma multidão de jornalistas provavelmente de toda a Europa que lotou um saguão enorme em que foi servido um café da manhã. Num canto, um monte de cupcakes com o indefectível smiley marcado de “sangue”.

O diretor Zack Snyder (com Dave Gibbons, o desenhista de Watchmen ao seu lado. Alan Moore, claro, ausente. Ele odeia as versões cinematográficas de seus quadrinhos) apresentou as cenas e comentou cada uma delas, encaixando no contexto. Ele começou pelo… início.

Cena 1:

O comediante está em casa vendo TV quando alguém invade o apartamento e o ataca. Segue uma cena de luta em que a dupla destrói o apartamento até o momento em que o personagem é jogado pela janela.

Funciona: Atualmente, ninguém filma cenas de luta como Snyder. Ele consegue mostrar cada golpe sem o estilo câmera tremida que alguns diretores adoram porque, afinal, “fights are messy” (“lutas são momentos bagunçados”). Com o controle perfeito do tempo de cada movimento, ele faz você segurar o fôlego e soltar na hora mais cinética do golpe. Ele desenvolveu esse estilo no histérico 300 e agora leva a um novo nível em Watchmen.

Faiô: A maquiagem é ruim. Não tem jeito. ELes querem que Jeffrey Dean Morgan pareça ter quase 60 anos e colocam uma maquiagem que não convence. Além disso, a cena de luta é longa demais. Eu não sou purista, não me incomodo com mudanças de narrativa, mas o fato é que no original, entrecortado como se fossem flashes que sugerem como foi que o Comediante morreu, ficou melhor. (atualizado: me ocorreu que umas manchas toscas que eu vi sejam marcas sobre as quais eles vão colocar a verdadeira cicatriz feiosa do Comediante. Mas mesmo assim, a maquiagem ficou falsa no geral)

O Comediante cai para a morte, sangue no chão (que é digital e, nesse preview, estava muito fake, só posso imaginar que o final vai ser melhor), o smiley cai também e começam os créditos de abertura. Esses sim, sen-sa-cio-nais. Ao som de The Times They Are A-Changin’, do Bob Dylan, começa uma montagem que vai nos mostrando o que aconteceu nas décadas anteriores. Não vou contar tudo, mas passa pela morte do Kennedy (adivinha quem assassina ele?), Ozzymandias cumprimentando o David Bowie na época do Ziggy Stardust, mostra o homem chegando à lua… filmado pelo Dr. Manhattan e vai nos levando aos anos oitenta, quando a ação do filme acontece. Tem mais, muito mais. É uma montagem riquíssima, cheia de detalhes de tirar o fôlego, vai ser vista, revista e comentada por um bom tempo.

Funciona: Tudo.
Faiô: Nada.

Cena 2: Caramba. Só vou resumir em: origem do Dr. Manhattan. Saca o clima desse capítulo? Então você pode imaginar a cena, porque o Snyder transferiu essa sensação. Ele está em Marte e repassa sua vida. O acidente, a aliança com o governo, o momento em que se apaixonou pela Silk Spectre, o castelo se montando em Marte… Está tudo, tudo lá. Em movimento e em cores. (Atualização: Como a sequência não está completa, não deu para ver se ele vai conseguir alcançar aquele ritmo perfeito da HQ, em que o personagem “salta” no tempo, mostrando que tudo está acontecendo agora para ele)

Funciona: Ô. Dr. Manhattan. Azul. Desmontando e remontando. Pulando no tempo. Sendo adorado pelos vitetcongues. Incrível (dá-lhe adjetivos. Objetividade zero, deu para notar?)
Faiô: Como assim?

Cena 3: Nite Owl tem simplesmente a Silk Spectre na cama e não consegue dar conta. Está com, errr…, problemas de ereção e, puxa, estamos a alguns anos da chegada do Viagra ao mercado. Então, para conseguir recuperar seu mojo (acredite, parte dessa explicação foi dada pelo próprio Snyder, arrancando gargalhadas do público) ele e a Silk Spectre resolvem ir resgatar o Rorschach da penitenciária. O que segue é uma sequência de luta naquele estilo Zack-Fu. Cinética, dramática, exagerada e muito legal. Eles encontram o Rorschach, que está se vingando de um desafeto…

Funciona: Zack-Fu sempre é legal. É dramático, é maior do que a vida. É uma cascata só. Silk Spectre é, fácil, a mulher mais gostosa do ano que vem. Aquele corpo, naquelas roupas, porrando um monte de caras é um negócio de louco.

Faiô: Rorschach é sempre fake e exagerado, com umas falas que soam forçadas. Outra coisa que me incomoda muito é o fato de que o Nite Owl não parece ter engordado, como aconteceu nos quadrinhos.

O resultado geral é promissor. Na única pergunta que eu consegui fazer durante a confereência, o Zack disse que o filme do cinema terá 2h30min mais ou menos e que o DVD contará com uma versão extendida de cerca de três horas e meia. Com direito aos desejados e esperados piratas de Contos do Cargueiro Negro e a um documentário sobre Hollis Mason, o primeiro Nite Owl, entre outras coisas bacanas que estão reservadas.

E, sim, ele mudou o final, mas não entrou em detalhes. Vamos ter que esperar pra ver o que vai rolar. Da minha parte, posso dizer que o final, pra mim, a criatura da quinta dimensão, sempre foi o lado bobo. Eu nunca gostei daquilo, que é meio que uma brincadeira do Moore com Além da Imaginação.

Bom, se eu lembrar de mais alguma coisa legal, conto depois.

Agora vou dormir que o dia foi cheio.

I love this city

Encontrei hoje, nas prateleiras da Zavvi, essa caixa de O Prisioneiro com um megadesconto porque estava com um rasguinho na luva. Vem com a série completa e um livro que conta os bastidores da produção. Se você gosta de Lost, devia tentar ver. Se você gosta de coisa boa, inovadora, diferente, TEM que ver.

Watchmen promete ser sensacional

Acabei de sair de uma exibição prévia para a imprensa de 30 minutos de Watchmen.

O diretor Zack Snyder apresentou o novo trailer, três sequências e uma montagem final.

Fiquei honestamente impressionado. Promete…

Entertainer of the Year

Robert Downey Jr. foi eleito pela Entertainment Weekly o entertainer of the year. Muito bom. Mas é engraçado como eu achei que eles iam vir com Tina Fey e nem por um segundo pensei no Bob Downey. Fey, aliás, ficou em segundo lugar. Merecido também. Ela me fez rir muito esse ano. Seja com sua Sarah Palin (que eu insisto em chamar de Sarah Appaling, eeheheh) ou com sua turma de lesados em 30 Rock. Ontem, eu estava andando no metrô e assistindo o episódio da quinta passada no meu Archos quando vem uma cena completamente imbecil: Tracy Jordan, o comediante enlouquecido que Liz Lemon tem que pajear, é pego por um monte de seguranças dentro de uma piscina de bolinhas (!) aos gritos de “você sabe quem eu sou? Sabem quem eu sou?”. Aí ele segue: “por favor, algum me diga quem sou eu!”. Mico no trem. Comecei a rir descontrolado com algo tão bobo. E nem era o tema do episódio.

Mas voltando ao Robert Downey Jr…. Merecido mesmo. Quando ele é o protagonista, você fica hipnotizado. Quando ele é o coadjuvante (como em Trovão Tropical), rouba a cena. Só vamos torcer pra ele conseguir se manter sóbrio e sobreviver a esse momento de renascimento. Porque, sinceramente, ele é beem crazy.

Van-Damme voltou

Eu não vejo um filme de Jean Claude Van-Damme desde… Bem, desde sei lá quantos anos, mais de dez. Sim, isso significa que eu via filmes de Jean Claude Van-Damme. Ah, os anos 80. Artes marciais. Muitos quilos a menos. Tudo parecia possível.

Pois eu vou ver JCVD, o novo filme. A Time diz que é fantástico. Mesmo. De primeira.

O primeiro ensaio

Terça-feira é o deadline pro primeiro trabalho, um ensaio de cerca de 15 mil toques, ou 2500 palavras. Todos estão apavorados, sem dormir, correndo pra todo lado. Eu também, claro. Sei que é menos complicado do que parece, mas é sempre muito trabalhoso. Mesmo sendo um texto relativamente curto, exige uma tonelada de pesquisa. Você é julgado pelo mix de fontes básicas das primeiras semanas (palestras, livros e artigos em que tivemos uma boa noção de ferramentas de administração) e de novas informações que traga para a pesquisa. O artigo tem que ser entregue até terça, 17h, por um sistema de upload do texto. Depois disso, o sistema faz uma espécie de busca para evitar plagiarismo.

Essas primeiras semanas são, primordialmente, uma espécie de nivelamento. Eu sou um jornalista de mídia impressa e encontro aqui gente de rádio, TV, filme, livros, internet, games e ainda designers, atores ou administradores que estão procurando focar em mídia. Todo mundo sai dessa primeira parte entendendo um pouco de business models, value chains, resources and capabilities etc. Aí, esses conhecimentos vão servir para o duro trabalho de desenvolvimento do projeto de pesquisa, uma dissertação enorme que tem que ser entregue no final de agosto do ano que vem. Parece muito tempo, mas não é. Diante do que eu estou planejando fazer, o tempo vai ser muito, muito curto.

A principal dificuldade, pra mim, não é a pesquisa, é o referenciamento. Num artigo jornalístico, você faz também uma tonelada de pesquisa, mas não precisa ficar dizendo de onde tirou cada coisa. Assume-se que não é sua genialidade que gerou aquilo, que você tirou aquelas informações de algum lugar. Aliás, digamos que, se jornalistas tivessem que referenciar todos os seus artigos aconteceriam duas coisas: casos como o da fraude do New York Times (do jornalista que criava reportagens como peças de ficção) nunca aconteceriam, e os jornais teriam que ser mensais.

Brincadeira com fundo de verdade, claro. Se jornalistas mostrassem suas referências, nem que fosse num sistema interno do jornal, suas reportagens teriam mais credibilidade e o leitor teria a garantia de que está lendo algo que realmente foi pesquisado e apurado com retidão. O que acontece é que os grandes órgãos constróem reputação e o leitor acredita no que está sendo dito com base nessa crença de que “seu” jornal (ou revista, ou canal de rádio e de tv) tem um compromisso com a verdade.

Bom, parei aqui pra dar uma desanuviada e estou tão enrolado que acabei escrevendo sobre o que estou fazendo. Oh, dia! :)

Obama: o album da noite da vitória

Minha primeira idéia é rejeitar essas coisas, porque me parecem tãaao montadinhas. Mas a verdade é que a campanha de Obama foi feita dessa forma, funciona dessa forma e é assim o jogo. Assim como milhões de pessoas se expõem na internet, o candidato entrou no jogo. Claro que a diferença é que tudo é feito por profissionais de primeira linha. As fotos no Flckr são muito bem tiradas. Coisa fina mesmo. E, de um jeito ou de outro, são o retrato, posado ou não, dos bastidores de uma noite histórica.

O discurso


(Crédito: Shawn Thew, EPA)

EU sempre adorei ler discursos. Ainda no Rio, eu consegui um livro-CD com discursos históricos do congresso brasileiro que se perdeu. Azar o meu. Virei a noite para ver o discurso de Obama ao vivo (no G1, traduzido). Valeu a espera.

Mas os americanos têm uma habilidade que me impessiona de embutir entretenimento em tudo. De fazer o que poderia ser duro de engolir virar algo interessante e inspirador. E, bem, os grandes discursos sempre foram interessantes de se ver (ou ler) porque, afinal, o que os fez grandes foi justamente sua capacidade de capturar a atenção, os corações e as mentes. Os discursos de Obama, desde o início, foram inspiradores. Tem uma técnica clara ali. Ele usa personagens para ilustrar suas metáforas, ele conclama o povo para a mudança e sempre, sempre, faz o expectador sentir que está vivendo a história.

Parte do triunfo de Obama é ter conseguido convencer as pessoas de que elegê-lo é isso: fazer história. Simples assim. O que ele conseguiu fazer de forma única na minha geração foi entrar na cabeça das pessoas como uma espécie de agente irresistível da história. Ele parecia inevitável. O maior medo das pessoas não era ele não ganhar. Era ele gahar e não levar por alguma trapaça. Mais ou menos como em 2000.

Nunca subestime as palavras. QUando ditas de forma tão hábil por uma pessoa obstinada e muito capaz, a coisa vira uma verdadeira onda.

Algumas pessoas dizem que a festa acabou e que agora é a hora de governar. Como se isso não fosse um ato midiático. O que é impressionante nos americanos é que os fogos de artifício estão sempre presentes. Obama vai contar com essa habilidade de comunicação nos próximos anos para governar. Enquanto Bush era um pateta, ele sempre parece… presidencial. Enquanto Clinton parecia, em alguns momentos, engraçadinho demais, Obama parece estar acima do bem e do mal. Flutuar acima dos mortais comuns. Reagan era simpático, engraçado. Obama soa sério, pomposo.

Então, de certa forma, é uma volta aos mitos do passado. Antes, quando não tínhamos uma mídia onipresente, os líderes construíam sua imagem de forma hábil. COntrolavam a escassez e se faziam maiores do que realmente eram. Bush pareceu incapaz de fazer isso. Obama navega com absoluta confiança nesse mundo. Sabe, como poucos, usar o mundo midiático a seu favor e construir essa imagem de predestinado, de home que cavalga as forças históricas. Seus discursos sempre foram ótimos. O de ontem é impressionante e, se você não for tão cínico, vai até se emocionar.

“Serei seu presidente também”

Depois do discurso de McCain, foi a vez de Obama falar. Seu discurso seguiu o padrão inspirador, aspiratório de sempre. Yes we Can. Pegou um personagem e o usou como exemplo. No caso, uma senhora de 106 anos que votou. Obama fez um passeio pelos momentos históricos do século 20 e chegou ao atual: sua eleição.

Eu lembro que, dois anos atrás, eu achei bizarro um senador negro chamado Barack HUSSEIN Obama querer disputar a presidencia tendo que, antes, derrotar Hillary Clinton. Eu pensei: os americanos nunca vão eleger um negro com o que eles vão enxergar como “nome de terrorista”.

Michael Moore disse em seu site que a América se formou hoje. Aludindo à idéia que seu país de gente simples e inocente (ele adora dizer isso) finalmente foi capaz de olhar além de preconceitos de cor ou de etnia. Foram capazes de eleger um homem cujo nome do meio é Hussein justamente num momento em que o país mais perseguiu cidadãos do oriente médio e ter um “nome arábe” virou um problema enorme.

A vitória de Obama é um triunfo do quê? De uma estratégia brilhante de comunicação? De embalagem? Ou simplesmente de um político obstinado, inteligente, hábil e com o olho no zeitgeist? Eu não tenho a resposta final.