Capitalismo até a página 3

Perdi bastante dinheiro na bolsa nas últimas semanas. Não. Não estou dizendo que não quero mais brincar. Mas fico pensando em como nosso sistema sócio-econômico é engraçado. Quando um empresário quer defendê-lo, arrota as vantagens: competitividade, risco, lucro.

Acontece que o lado complicado, o risco, só é bonito enquanto é isso: risco. Quando ele deixa de ser uma coisa neutra que pode ou pode não se concretizar e vira a efetivação do erro, da perda, a coisa muda imediatamente de figura e todo mundo vira um bando de carpideiras.

Quando eu faço uma aposta no mercado de derivativos. É isso que eu estou fazendo: uma aposta. Posso ganhar, posso perder. Se eu vou a um cassino, onde isso é muito claro, mas tem jeito de recreação. Quando aposto 30 reais no preto e perco, eu não fico implorando pro cara da banca me devolver meu dinheiro. Mas o pau vai comer:

Bancos renegociam perdas de empresas

Objetivo das instituições financeiras é evitar avalanche de processos na Justiça contestando as operações cambiais

Calcula-se que mais de 200 empresas tenham feito apostas pesadas na valorização do real e agora amargam perdas

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

Para aliviar o impacto das perdas das empresas com as operações de alto risco no mercado futuro de câmbio, os bancos brasileiros e estrangeiros deram partida a um processo de renegociação desses débitos. Os bancos devem conceder novos empréstimos em reais e a prazos mais longos.
Muitas empresas no Brasil, calcula-se que mais de 200, fizeram apostas pesadas de altíssimo risco na manutenção do dólar baixo até o final deste ano. Essas apostas foram feitas em sofisticadas operações no mercado de derivativos aqui e fora do país.
Com a crise global, o dólar subiu abruptamente de R$ 1,60 para quase R$ 2,50, e as empresas amargaram elevados prejuízos. Até agora, só três declararam ter tido perdas grandes nessas operações: Sadia (R$ 760 milhões), Aracruz (R$ 1,95 bilhão) e Votorantim (R$ 2,2 bilhões). As perdas totais são estimadas em R$ 40 bilhões. São esses prejuízos que estão sendo renegociados agora.
O objetivo dos bancos, ao renegociar esses débitos, é o de evitar que as empresas entrem com ações na Justiça contestando essas operações.

O texto continua no site da Folha.

Essa notícia é só um pedacinho da choradeira que está rolando. E isso não é uma característica brasileira. É mundial. É porque, os defensores de um sistema sempre fazem sua argumentação com base nas qualidades mais destacadas. Assim, o comunismo é legal porque dá um mínimo de condições para todo mundo. Ah, dane-se que permite uma estagnação incômoda. O capitalismo promove quem empreende. O que é uma meia-verdade. Além do fato de ser um regime que só valoriza o sucesso e abandona quem falhou. Seja no sistema A ou no B, o que me incomoda é o vício de assinar um acordo (social, econômico…) e, depois, quando algo não te favorece, correr para pedir uma exceção. Isso me deixa maluco.

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