Sobre as deportações espanholas, posso dividir minha experiência com a imigração e oferecer até dicas de sobrevivência. Não é novidade para alguns velhos leitores deste blog, mas já fui mandado de volta dos Estados Unidos uma vez…
Em 1998, eu tirei um visto B1-B2 (business e turismo) no consulado americano de São Paulo. Fui lá com uma carta da Folha de São Paulo, meu empregador na época, e eles me deram esse visto. Alguns dias depois, viajei para lá e, na imigração de Atlanta, fui parado sob a alegação de que estava com os papéis incorretos. Note que eu tinha ido ao consulado com uma carta especificando exatamente o tipo de viagem que ia fazer aos EUA. Ainda assim, o critério do consulado não foi o mesmo da imigração, que pegou no meu pé. Só que nessa época, pré-11 de setembro, os americanos eram mais elásticos e, mesmo batendo cabeça, facilitaram a minha vida.
Em 2003, estava indo a Los Angeles, de novo a trabalho, ainda com aquele mesmo visto, e fui barrado, carimbado, avaliado e deportado, junto com o colega Luis Giron, da Época. Veja só. Entre aquele evento em 1998 e o de 2003, eu tinha entrado e saído do país, me declarando jornalista, por umas 10 ou 15 vezes. Talvez mais. Naquele dia, eles resolveram que eu estava todo errado e me enviaram de volta. “As regras mudam o tempo todo”, vociferou uma oficial de imigração.
Não fui algemado, mas achei que ia ser. FIquei em uma cela com um banheiro. Fui destratado verbalmente (sem palavrões) por uma oficial da imigração americana (a que vociferou, mais acima), mas mantive a calma, respondi a todas as perguntas porque, por viajar bastante, sei que qualquer destempero pode ser usado contra você. O negócio é demonstrar tranquilidade e indignação na medida certa (ok, e aqui estou eu falando de ser ferrado por oficiais de fronteira como se fosse um expert no assunto, a ironia não se perde). Meu amigo durante as horas de espera foi um megagibi do Homem-Aranha que eu carreguei para ler no avião.
No final, fui informado de que deveria voltar ao país por problemas com meus papéis, mas como tinha cooperado e meu depoimento era sólido, não teria nenhuma carência nem restrição para tirar um novo visto. Desde então, fui aos Estados Unidos mais umas 30 vezes sem ser importunado. Na última, em novembro do ano passado, fui parado de novo pela imigração e fiquei meia hora a mais do que o normal tendo meus papéis checados. O oficial que me atendeu avisou que eu seria incomodado assim sempre, por causa do episódio da deportação. Eu disse que não havia nada que eu pudesse fazer, já que este era meu trabalho e aquele era o trabalho dele. Eu iria continuar viajando e eles iriam continuar me importunando.
Sinceramente, espero que o governo brasileiro se imponha frente à Espanha. A verdade é que os brasileiros se sentem meio abandonados pelo mundo afora. Não sabemos se podemos contar com nossas embaixadas e consulados quando estamos em situação constrangedora frente a um oficial de imigração. Lembrando que há tipos diferentes de situação. Há o caso em que um brasileiro está realmente irregular e é deportado. Como brasileiro, merece toda assistência da embaixada, mas não há muito o que fazer além de exigir condições humanas de tratamento e legalidade total em todos os procedimentos. Mas há também o brasileiro que se vê em alguma enrascada por tecnicalidade pura. Por uma brecha idiota de uma legislação. E daí que eu não carrego uma tonelada de euros comigo? Com o cartão do banco, desde que eu peça ao gerente para liberar o saque internacional, posso tirar dinheiro em qualquer caixa eletrônico. E daí que eu não tenho o voucher do hotel? Hoje em dia isso se resolve por e-mail. Uma viagem, que muitas vezes é um investimento profissional, emocional não pode ser jogada no lixo por causa de um pedaço de papel que você esqueceu na cabeceira da sua cama, na impressora. Isso, é claro, se o papel não for seu passaporte.
Disto isso tudo, há certas medidas básicas a se tomar quando viaja. Vamos lá?
1. Imprima todos os comprovantes necessários. Reserva de hotel, e itinerário de ida e volta da sua passagem são um must. Está viajando a trabalho? Leve ainda impressões de e-mails, cartas, agenda de eventos.
2. Carregue cartões de crédito (válidos, por favor) e do banco. Nesse último caso, basta ligar pro seu gerente e avisá-lo de que você está indo pro exterior e que deseja fazer retiradas. A senha, geralmente, é a mesma. Você deverá observar o limite do seu banco. Exemplo: Se o Bradesco limita o saque a R$ 600 por dia, no caixa eletrônico, esse será seu limite. Hoje, isso dá uns 300 e poucos dólares por dia. Assim que o dia virar no Brasil, você pode tirar mais. Essa virada se dá por volta de uma da manhã, quando os bancos fecham e reabrem seus caixas.
3. Essa pouca gente se toca de fazer. Guarde no seu e-mail, ou qualquer outra forma de armazenagem digital, cópias escaneadas dos seus documentos importantes. Deixe ali também, anotações de todos os contatos e endereços imprescindíveis. É uma medida simples, fácil de executar e que pode salvar sua pele em momentos críticos. Basta ir a uma lan house e imprimir tudo. Você corre pro consulado do Brasil com pelo menos alguma identificação e facilita a vida de todo mundo.
4. É caro, mas pode salvar sua pele. Mesmo que você não pretenda utilizar seu celular, entre em contato com sua operadora e libere o roaming internacional. E daí que a sua ligação de emergência vai custar R$4 o minuto? Você se preocupa com isso quando chegar ao Brasil. Só não vá ficar atendento telefonemas aleatórios, porque você paga uma tarifa cheia. Geralmente, você consegue fazer ligações locais pagando tarifa local. Para seu telefone funcionar em quase todo lugar, precisa ser, pelo menos, tri-band. Preste atenção nisso quando for comprar. Lembre-se que hoje há Gmail e Google Maps para quase todos os modelos mais parrudinhos. Vários telefones lêem arquivos de texto. Isso significa que aqueles contatos impresscindíveis que você mandou pro seu e-mail podem estar também no celular. Se você tem um smartphone, então, aí é até fácil demais. Tenha, na memória do celular, cópias de tudo que for importante, menos senha de banco e do e-mail, por favor. E, se por um azar supremo, você perder seu celular, corra para um telefone e bloqueie seu celular imediatamente.
Acho que é só. Alguém sugere alguma outra medida?

faltou falar pra levar uma muda de roupa extra na bagagem de mão… e um desodorante!
O mais impressionante é que ouvi até mesmo de autoridades diplomáticas brasileiras que essas restrições decorrem de uma “cota” de brasileiros em países da CEE. Deixa eu ver se entendi: eu programo e pago uma viagem com uns 6 meses de antecedência. Levo todos os documentos necessários (passaporte, dinheiro, cartões, passagem de retorno, voucher do hotel etc) e entro no país sem infringir nenhuma lei. Mas aí, se eu der o azar de ser o 100º brasileiro a entrar na europa naquele dia, e a cota de brasucas for de 99, eu sou detido, fico 2 dias numa masmorra e não posso ingressar no país. Tudo porque sou o homem certo no lugar errado e na hora errada.
eu sugeriria, ao invés das cópias de documentos no seu e-mail, levar sempre junto uma USB key com todos os seus documentos, cartas e o escambau prontamente armazenados. no caso de perrengues, basta mencionar e eles podem verificar tudo ali mesmo, sempre tem um computador com porta USB à disposição. e uma USB key é pequeníssima, barata, e você carrega no bolso!
Alguém sugere alguma outra medida?
Pagar um bom advogado e tirar uma segunda cidadania européia.
Outra sugestão (pelo menos no que se trata de Estados Unidos e Inglaterra): nascer branco num país de maioria branca e protestante, tipo Finlândia, Alemanha ou Nova Zelândia (tem um sobrenome de origem anglo-saxônica ou germânica ajuda mais ainda).
Aí eles não vão pedir nem visto…:-/
Como eu (infelizmente) viajo pouco, as dicas foram excelentes. Gostei tanto que vou adotar na próxima viagem.
Como já foi comentado, no fim nosso problema é sermos latinos. Não importa se você está entrando no país estrangeiro dentro da legalidade, com todos os documentos exigidos. Nós pagamos por nossa nacionalidade.
Giron e Maron não pensaram ainda se vão tomar providência. “A única coisa que vou fazer por enquanto é escrever sobre o assunto”, diz Giron.
Vi o artigo sobre sua viagem aos EUA quando estava revoltada porque minha filha Natália de 22 anos (“idade de risco” não é assim que dizem?)
com autorização/visto OK tirado em 05/05/08, passagem de ida/volta para uma semana em NY foi barrada e tratada como criminosa e com ironia pela imigraçào americana e deportada em sua viagem em 20/05 passado.
Pergunto: sabe como podemos fazer para reclamar ao menos o custo da passagem (ela voltou com a própria passagem) e despesa com o visto, que foi cancelado pela imigração (que não é barato, inclusive é um absurdo o preço para passarmos por aquela fila igual a do INPS), já que o choro dela e desespero que passou sozinha no aerporto de NY sei que não tem preço e nem solução?
Sei que é jornalista e não advogado, se puder me dar essa dica, vou buscar essa indenização.
Obrigada,
Joanita
Caro jornalista, vc se engana no ponto relativo aos limites de saque no exterior. Eles nao sao iguais aos limites de saque no Brasil, limite ridículo condicionado pela violéncia (assaltos nos caixas, sequestros relampagos, etc).
Por exemplo, com meu cartao BB, consigo sacar 2.000 dólares por dia no Uruguai, mil da corrente e mil da poupança. Na Argentina neste momento nao sei, mas em 2003 saquei 2.500 dolares da conta corrente no mesmo dia e caixa. Na Europa o limite diario e similar e em alguns países ainda maior, nunca menos de 1.000 euros (R$ 2.600) por dia. Outros bancos, nao sei ao certo mas é muito provável que seja mais do que o limitezinho diario dos caixas brasileiros .
Espero ter contribuído.
Abraços.
Oi, Gustavo
No caso da minha conta no Bradesco, funciona exatamente como eu falei. Cada banco impõe suas regras. Por isso que eu sugiro uma conversa com o gerente para descobrir limites, taxas e especificações.
Abraço