Assim que…
Um homem toca apaixonado a sua guitarra nas ruas de Dublin. Ele trabalha com o pai consertando aspiradores de pó, o que significa que o ato de cantar na rua é muito mais uma forma de extravasar sua criatividade e seus sentimentos represados. O fato é que esse homem está infeliz, perdido, meio que no limbo enquanto espera o momento em que reunirá suas forças para reconquistar a mulher que perdeu.
Numa noite, no que é a primeira sequência que dá uma pista de que estamos diante de um filme acima da média, ele conhece uma menina que adora vê-lo cantar e que, a todo custo, quer se aproximar dele. O que se seguirá, depois de uma cena arrepiante numa loja de instrumentos musicais (quando é cantada a música Falling Slowly, indicada ao Oscar de canção), é um filme cheio de coração e de idéias deliciosas. Uma história romântica que não se entrega às soluções fáceis do beijinho na boca, da musiquinha mané, do velho rapaz conhece-conquista-perde-reconquista-garota.
Filmado em 17 dias, com atores amadores, muitas idéias e um coração raro até em filmes indies, Once é uma pérola. Nunca vi o filme por aqui. Está à venda na Amazon (com legendas em inglês e espanhol) e, claro, já pode ser encontrado nas redes de troca de arquivos (com legendas em português que traduzem as letras das músicas, um bom trabalho).
Você vai ver o filme e correr pra conseguir dois albuns. O primeiro é o do filme mesmo. O segundo é o disco The Swell Season, gravado pelos dois protagonistas.

Oh, sim. Quem são os tais protagonistas que derreteram o coração de pedra do Maron? Glen Hansard, da banda irlandesa The Frames, e a checa Markéta Irglová. Ele tem 37, ela, 19. São amigos que se conhecem desde quando a moça tinha 13 anos. Ela é filha de um amigo em cuja casa Glen morou por alguns meses enquanto compunha. Markéta toca piano muito bem e foi recomendada por Glen ao diretor do filme para fazer par com o então protagonista Cilian Murphy. Mas o ator pulou fora do projeto e Glen, que tinha escrito todas as músicas, foi convidado a protagonizar o filme.
Dezessete dias. O filme tem deficiências técnicas inescapáveis. Mas elas são detalhes em seqüências viscerais como o momento em que Markéta sai de uma lojinha e canta, no caminho de casa, praticamente sem cortes, a música que, no filme, acabou de compor. É uma cena noturna na qual você vai ver a sombra dos técnicos em alguns momentos e em que as pessoas param para olhar a equipe de filmagem. Mas, caramba, a garota canta, cheia de dor, para o marido que deixou na República Tcheca. Se bate um coração no seu peito, você não vai se preocupar com isso.
Na linha dos momentos lindos de morrer entram ainda a cena em que Glen compõe enquanto assiste, no notebook, a vídeos que gravou com a mulher que o deixou. Na música, ele mistura a sensação do amante desesperado que suplica à sua mulher “desacelere, por favor, por mim” ao ódio de quem a culpa por encher a relação de “mentiras, mentiras, mentiras”. Noutra, Markéta canta uma outra música para o marido, ainda não terminada. E o fato da ferida ser tão dolorosa marca a sequência.
O que há de mais delicioso nessas cenas musicais é que elas são orgânicas no filme. Os personagens se comunicam com o mundo por músicas, mais ou menos como os… músicos. Eles se afinam, se comunicam, se entendem pelas composições que trocam e que os tocam, como fica claro na tal sequência (maravilhosa) da loja de música. Eles compões, acertam suas músicas diante dos seus olhos e tudo é pura emoção do jeito que só um filme mais cru seria capaz.
Durante os 17 dias de filmagem, o diretor se recusou a mostrar a Markéta e Glen o que tinha captado. “Estou pegando no ar uma coisa que, se vocês virem, pode se perder”, disse ele. Foi quando a ficha caiu. “Eu acho que me apaixonei anos atrás, mas não conseguia aceitar, porque ela é muito mais nova do que eu”, disse o cantor à revista Entertainment Weekly. Os dois foram morar e compor juntos.
Once ganhou esse nome porque muitos músicos (eu diria artistas, em geral) ficam parados, em algum momento de suas vidas dizendo que “assim que” (”once i…”) resolverem isso ou aquilo vão escrever, vão gravar ou operar alguma mudança em suas vidas. Assim que o filme saiu, O diretor John Carney, Glen e Markéta mudaram suas vidas. Fizeram um daqueles filmes que as pessoas vêem dez vezes e comentam por anos como aquele pequeno filme que os marcou. Virei um desses. Que bom.
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24/01/08 às 8:59
“O coração de pedra do Maron”… boa piada, boa piada…
24/01/08 às 22:07
Assistimos ao filme, com a Clara cantando mais alto que os protagonistas, mas assistimos. Lindo de morrer. O estilo de música “chove lá fora” me lembrou muito o Travis.
25/01/08 às 10:15
Lost in Translation - Japão + Irlanda + Indie Pop Rock.
28/01/08 às 8:15
Excelente crítica! Assisti ao filme indicado pelo post, e não me arrependo. Sensacional!
27/02/08 às 10:21
Pois é, o Cristiano mandou bem: “coração de pedra”. Pô, meu, vc é todo coração. Então, para os desavisados acho que é legal avisar que no site da Fox Searchlight é possível fazer o download grátis de “Falling Slowly”.
28/02/08 às 2:05
Vocês estão querendo manchar minha imagem de durão!!
19/03/08 às 11:19
O post eh velho mas vou comentar aqui do mesmo jeito (vc deve receber um aviso por email, neh?). Vimos o filme ontem, em grande parte por causa dos seus elogios desbragados. Admito que vc falou tao bem dele que eu estava esperando mais.
Mas gostei. Nao gostei muito das musicas de primeira, mas elas tocam mais de uma vez no filme, e aih eu gostei. E eu acho que o grande merito do filme eh ser cru mesmo, nao precisar fazer muitas concessoes, soar sincero.
E ficar sabendo que os dois atores foram morar juntos foi o final feliz que ficou faltando!
30/03/08 às 1:21
[...] fui reler o post de Alexandre Maron sobre o filme. E não é que lá pelas tantas não é que ele fala que, ao terminar de assistir o filme você vai [...]
30/03/08 às 11:12
Alexandre,
seu post me convenceu a assistir um ótimo filme!
Agradeço!
20/04/08 às 13:17
Assim que assiti ao filme, corri para o computador para pesquisar e saber um pouco mais sobre o filme…. encontrei sua página e vc retratou relamente todos os pontos que mais me marcaram….. excelente capacidade de captar o que poucos captam…… ADOREI
1/05/08 às 23:01
Assiste o filme duas vezes, é lindo, adoraria assistir novamente.
10/05/08 às 5:19
Noor-ho-tebbe…. sensacional….