Meu cérebro não está em greve!

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Greve dos roteiristas. você já deve ter ouvido falar. Eles querem receber um dinheiro justo pelo trabalho, os figurões não querem pagar e a indústria está parada. O Globo de Ouro foi cancelado, várias novas potenciais séries foram jogadas no lixo, as temporadas dos seriados foram reduzidas à metade. Caos, prejuízo, sindrome de abstinência de séries boas…

As primeiras vítimas, logo nas primeiras semanas da greve, foram os talkshows diários de David Letterman, Jay Leno, Conan O’Brien, Jon Stewart e o sensacional Stephen Colbert. Esses caras usam a inteligência de dezenas de escritores para entrarem no ar com piadas e sacadas geniais. Por força de contratos milionários foram obrigados a voltar e, ao mesmo tempo, não queriam se indispor com o sindicato. A solução foi fazer programas sem roteiro. Não podem usar teleprompters, nem papéis. Tudo tem que ser ensaiado alguns momentos antes e sair na raça. A saída óbvia é usar o ponto eletrônico… e rezar, claro.

Eu acompanho quase que diariamente The Daily Show with John Stewart e The Colbert Report e posso dizer que esse período da greve me deixou ainda mais fã dos caras. David Letterman e Jay Leno se viram fácil sem texto, justamente porque seus programas são mais soltos. Mas Stewart e Colbert estão fazendo comédia, sátira política, comentários que dependem de muito preparo. E estão matando a pau. Nessas horas a gente lembra por que eles são tão geniais e admirados. Eles são melhores com os roteiristas ajudando, claro. Mas são geniais sozinhos.

Ok, não tão sozinhos. Como eu disse antes, há obviamente um staff enorme por trás dando um jeito de deixar o show o melhor possível durante esses tempos. Aliás, durante a greve, Jon avisa que o nome do programa muda de The Daily Show para A Daily Show (de O Show Diário para Um Show Diário). Ele diz que fez isso porque sem os roteiristas o programa não é o mesmo.

A cobertura da disputa presidencial já tinha marcado época na disputa entre Kerry e Bush. Agora, ele analisa como os telejornais noticiam cada passo dos candidatos e o resultado nunca é menos do que fantástico. ELe pega fácil os exageros dos locutores que dizem que Mitt Romney “entrou em erupção” contra jornalistas. Surge o vídeo da entrevista e ROmney apenas, com tranqulidade, faz um jogo semântico típico dos políticos ensaboados durante uma entrevista. No outro dia, ele mostrou em câmera lenta Hillary CLinton “quase explodindo em lágrimas” e perguntou: jura? EXPLODINDO?

As entrevistas são sempre um negócio de outro mundo. Stewart recebe jornalistas e comentaristas políticos e discute com eles o que está acontecendo no país. São algumas das melhores análises disponíveis na TV. Mundial. Diante do rosto perplexo de um entrevistado quando Stewart faz alguma pergunta inesperada, ele manda: “Meu cérebro não está em greve, amigo!”

Esse olhar cético, sacana, questionador acaba sendo uma lição para nós jornalistas. Estamos, como meios de comunicação, mesmo que inadvertidamente, impondo uma narrativa? Caímos na armadilha de “bombar” tudo, de transformar tudo numa ciranda de exageros?

Logo depois, entra Colbert. Eu achei que ele ia se ferrar com essa limitação da falta de texto, mas parece que ele arrebentou mais ainda. Sem a ajuda dos roteiristas, ele incorpora o personagem do ultradireitista maluco de uma forma ainda mais alucinada. Brinca com a falta do que dizer, com os tempos mortos e questiona o valor da briga dos roteiristas. “Eles querem mais dinheiro? E eu com isso? Esse sindicatos não servem para nada!!!” Ao se alinhar com o “inimigo” ele destaca ainda mais os argumentos absurdos e o egoísmo em ação.

Então, se seu inglês está em dia, vale dar uma olhada no encontro de Colbert com seu grande inspirador, Bill O’Reilly. É não menos que sensacional, com O’Reilly atacando e Colbert se esquivando com piadas mais e mais malucas. Não temos nada parecido por aqui. Que pena. Jon e Stephen fariam bem ao Brasil. E os nossos personagems políticos e da mídia dariam um material inesquecível.

Assim que…

Um homem toca apaixonado a sua guitarra nas ruas de Dublin. Ele trabalha com o pai consertando aspiradores de pó, o que significa que o ato de cantar na rua é muito mais uma forma de extravasar sua criatividade e seus sentimentos represados. O fato é que esse homem está infeliz, perdido, meio que no limbo enquanto espera o momento em que reunirá suas forças para reconquistar a mulher que perdeu.

Numa noite, no que é a primeira sequência que dá uma pista de que estamos diante de um filme acima da média, ele conhece uma menina que adora vê-lo cantar e que, a todo custo, quer se aproximar dele. O que se seguirá, depois de uma cena arrepiante numa loja de instrumentos musicais (quando é cantada a música Falling Slowly, indicada ao Oscar de canção), é um filme cheio de coração e de idéias deliciosas. Uma história romântica que não se entrega às soluções fáceis do beijinho na boca, da musiquinha mané, do velho rapaz conhece-conquista-perde-reconquista-garota.

Filmado em 17 dias, com atores amadores, muitas idéias e um coração raro até em filmes indies, Once é uma pérola. Nunca vi o filme por aqui. Está à venda na Amazon (com legendas em inglês e espanhol) e, claro, já pode ser encontrado nas redes de troca de arquivos (com legendas em português que traduzem as letras das músicas, um bom trabalho).

Você vai ver o filme e correr pra conseguir dois albuns. O primeiro é o do filme mesmo. O segundo é o disco The Swell Season, gravado pelos dois protagonistas.

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Oh, sim. Quem são os tais protagonistas que derreteram o coração de pedra do Maron? Glen Hansard, da banda irlandesa The Frames, e a checa Markéta Irglová. Ele tem 37, ela, 19. São amigos que se conhecem desde quando a moça tinha 13 anos. Ela é filha de um amigo em cuja casa Glen morou por alguns meses enquanto compunha. Markéta toca piano muito bem e foi recomendada por Glen ao diretor do filme para fazer par com o então protagonista Cilian Murphy. Mas o ator pulou fora do projeto e Glen, que tinha escrito todas as músicas, foi convidado a protagonizar o filme.

Dezessete dias. O filme tem deficiências técnicas inescapáveis. Mas elas são detalhes em seqüências viscerais como o momento em que Markéta sai de uma lojinha e canta, no caminho de casa, praticamente sem cortes, a música que, no filme, acabou de compor. É uma cena noturna na qual você vai ver a sombra dos técnicos em alguns momentos e em que as pessoas param para olhar a equipe de filmagem. Mas, caramba, a garota canta, cheia de dor, para o marido que deixou na República Tcheca. Se bate um coração no seu peito, você não vai se preocupar com isso.

Na linha dos momentos lindos de morrer entram ainda a cena em que Glen compõe enquanto assiste, no notebook, a vídeos que gravou com a mulher que o deixou. Na música, ele mistura a sensação do amante desesperado que suplica à sua mulher “desacelere, por favor, por mim” ao ódio de quem a culpa por encher a relação de “mentiras, mentiras, mentiras”. Noutra, Markéta canta uma outra música para o marido, ainda não terminada. E o fato da ferida ser tão dolorosa marca a sequência.

O que há de mais delicioso nessas cenas musicais é que elas são orgânicas no filme. Os personagens se comunicam com o mundo por músicas, mais ou menos como os… músicos. Eles se afinam, se comunicam, se entendem pelas composições que trocam e que os tocam, como fica claro na tal sequência (maravilhosa) da loja de música. Eles compões, acertam suas músicas diante dos seus olhos e tudo é pura emoção do jeito que só um filme mais cru seria capaz.

Durante os 17 dias de filmagem, o diretor se recusou a mostrar a Markéta e Glen o que tinha captado. “Estou pegando no ar uma coisa que, se vocês virem, pode se perder”, disse ele. Foi quando a ficha caiu. “Eu acho que me apaixonei anos atrás, mas não conseguia aceitar, porque ela é muito mais nova do que eu”, disse o cantor à revista Entertainment Weekly. Os dois foram morar e compor juntos.

Once ganhou esse nome porque muitos músicos (eu diria artistas, em geral) ficam parados, em algum momento de suas vidas dizendo que “assim que” (“once i…”) resolverem isso ou aquilo vão escrever, vão gravar ou operar alguma mudança em suas vidas. Assim que o filme saiu, O diretor John Carney, Glen e Markéta mudaram suas vidas. Fizeram um daqueles filmes que as pessoas vêem dez vezes e comentam por anos como aquele pequeno filme que os marcou. Virei um desses. Que bom.

Não teve graça

Nunca escrevi sobre Heath Ledger aqui. Triste que ele surja porque morreu, quando havia tantas coisas legais que o ator fez em vida sobre as quais não falei. Vi Brokeback, Coração de Cavaleiro, 10 Coisas que Eu Odeio em Você, Casanova, Ned Kelly e esperava ansiosamente pelo seu Curinga no novo Batman.

O achava um ator de primeira. Um desses acidentes que acontecem no mundo pop. Escolheram ele porque tinha uma beleza selvagem, coisa que o Hollywood resolveu associar aos australianos. Por acidente, ele era bom de verdade, intuitivo, apaixonado. Com um histórico de grandes e poucos papéis, periga virar mito.

Mas ainda temos a curiosidade mórbida de vê-lo enlouquecido, furioso, apaixonado (quem sabe), genial em Batman. Um grande vilão tem potencial para ser um último papel inesquecível.

Começou a mudança

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Estou no limbo desde o início de dezembro. Moro num apartamento temporário enquanto espero o novo ficar pronto, estou sem mesa há algumas semanas (e sem ramal, computador…) e agora, finalmente, as coisas começam a se restabelecer. A vista não é das melhores, mas a turminha é legal.

O país da febre amarela

Sete pessoas morreram de febre amarela nas últimas semanas. Mais uma prova do nosso subdesenvolvimento, do nosso atraso.

E o país que não consegue nem controlar a febre amarela não podia saber fazer coisas simples como ter juízes que soubessem julgar. A todo momento surge um juiz posando de educador, de médico e querendo impor decisões a respeito de assuntos sobre os quais claramente não estudaram nada.

Agora é essa história de proibir o Counter Strike e o EverQuest… É uma decisão tão ridícula que publicá-la apenas expõe a ignorância de quem decide nossos destinos. Para eles, o EQ, que é jogado por milhões de pessoas em todo o mundo, desvirtua a juventude. Ou ainda, o CS se resume ao CS_Rio, aquele mapa da favela. É patético, humilhante, de me dar vergonha alheia.

O CS já tem sua venda limitada a maiores de 18 anos e o EVerQuest nem é vendido no Brasil. Depois perguntam por que esses grandes fabricantes nem querem se meter por aqui, o país da febre amarela.

Saco de ferro

Me falaram muito bem das coleiras e guias Iron Dogs. Daí, eu mandei umas mensagens para eles, pedi um catálogo (que veio bem tosquinho, um jpg), escolhi os modelos, paguei e… nada. Nenhuma mensagem, nenhuma entrega. Nada.

Eu confesso que fui inocente. Embalado nas recomendações de amigos, na comunidade do Orkut e no charme de um produto de qualidade feito na raça (sem trocadilhos) paguei e pronto. Foram R$ 114,50, custos do produto mais o frete.

Pode ser que, dada a situação de certa informalidade da empresa, eles estejam de férias e retomem o contato em alguns dias. Mas, sinceramente, é imperdoável que não respondam e não dêem satisfação por duas semanas. Mesmo que tudo se resolva daqui para a frente, falharam feio comigo.

Atualização: Continuo sem resposta. Então coloco minha posição atual em NÃO COMPRE PRODUTOS IRON DOGS. E visto meu chapéu de burro, claro.

Atualização, no dia 01/02/08: Depois de semanas de silêncio, o dono da Iron Dogs me mandou um scrap pelo Orkut na terça-feira. Disse que teve problemas com o bordado do nome dos meus cachorros nas coleiras. Pedi meu dinheiro de volta e ele depositou a quantia sem maiores dores de cabeça. Depois desse fracasso, comprei uma coleira pro Darwin na Bitcão. Fiz o pedido na segunda-feira e recebi a encomenda na quarta. Sem nenhuma dor de cabeça.

Dos Zumbis à Ação

Em Shaun of the Dead (Todo Mundo Quase Morto, por aqui) Simon Pegg e Nick Frost, sob a direção de Edgar Wright, avisaram ao mundo que havia no universo pop um trio de criadores de comédia de primeira linha.

Antes, eles tinham trabalhado juntos em um programa inglês chamado Spaced. A delícia do trabalho do trio está no fato de que fazem comédia, sim, mas sempre com um comentário interessante sobre o que está acontecendo. Assim, em Shaun, o mundo está em transe antes mesmo dos zumbis surgirem. Os heróis, e nós, estão tão anestesiados que mal conseguem notar os monstros assassinos que tomam conta de Londres.

No ano passado, eles lançaram o genial Hot Fuzz. De novo, por trás da ótima comédia, há um sarro enorme tirado em cima do conservadorismo e da hipocrisia do politicamente correto. O herói (Pegg) é um tira nota 10 com louvor que, justamente por ser tão bom, começa a incomodar os outros policiais londrinos. Acaba enviado para uma pequena cidade onde nada acontece. Imediatamente ele começa a notar que algo está errado por ali. Seria um delírio de um homem paranóico? No processo de contar essa história, o filme enfileira um milhão de referências. E, de novo, diferente da obviedade das paródias americanas, que só faltam colocar uma legenda embaixo de cada referência, está tudo diluído. Há ecos de diversas cenas icônicas de filmes de ação dos últimos 25 anos. E, pelo menos pra mim, uma cena remeteu instantaneamente aquelas séries japonesas: Ultraman, Ulraseven, Spectreman etc.

É um caso interessante em que os ingleses dão uma espécie de choque em seu próprio estilo de fazer rir. Pegam um pouco do exagero americano, sem perder a personalidade. Apenas o suficiente para que ninguém diga que é “um humor britânico”, aquela desculpa básica que todo mundo usa quando não entende as piadas.