A profecia concretizada

pauloautran.jpgPouco menos de um ano atrás, em um almoço de trabalho, Hector Babenco falou de seu filme, depois de mostrar algumas cenas, e fez uma observação que me incomodou profundamente: “Este pode ser o último filme de Paulo Autran, porque ele está tão velhinho. Eu fiz tudo pra trabalhar com ele. Era um sonho.”

É óbvio que Babenco queria falar de seu carinho pelo ator e da sensação que tinha de ter trabalhado com ele. Mas soou tão, sei lá, seco, deselegante profetizar a morte de uma outra pessoa que fiquei com uma impressão ruim por meses. Quando Autran morreu ontem, confesso que tive uma raiva meio irracional de Babenco, como se ele fosse culpado do câncer do ator. Mas é que aquela afirmação, aquela sentença, ficou martelando no meu cérebro.

De Paulo Autran só tive a sorte de ver duas peças: Visitando o Sr. Green e O Avarento, seu último trabalho. Adorei a primeira e fiquei um pouco entediado com a segunda. Já vi montagens mais inspiradas de Moliére por aí e, afinal, não era o ator na potência máxima. Mas mesmo claramento cansado e sem mobilidade, aos 85 anos, era por ele que estavam todos naquela sala

Por fim, uma referência que ele provavelmente jamais aprovaria. Uma das coisas que eu adoro no John Constantine dos quadrinhos é aquela prática de rir da morte e de aproveitar tudo que a vida lhe dava. Constantine recebe um novo pulmão e, nos quadrinhos, aproveita a deixa para fumar. Afinal, se o grande motivo pra não fumar seria ficar doente, não precisava se preocupar, zerou tudo. No filme, feito pela Hollywood antitabagista, larga o cigarro. Autran fez pontes de safena e, no último ano, lutou contra um câncer de pulmão. Diante da proximidade da morte, se recusou a abandonar o prazer que, provavelmente, o matou. Fumou e fumou, porque a vida é curta. Mesmo para um gênio de 85 anos.

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