Caminhos do Coração não tem rumo nem sentido

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Novela é ruim por definição. É corrida, mal dirigida, mal iluminada, com diálogos repetitivos e tudo mais. A gente diz que as novelas da Rede Globo são boas… Claro. Comparadas com as novelas de outros países, as da Globo são sensacionais.

Aí entra a Record com milhões de dólares dizendo que vai fazer e acontecer e… Cria Caminhos do Coração, uma novela incrivelmente, inapelavelmente ruim.

Eu cubro entretenimento e escrevi sobre TV aberta intensamente três anos, incluindo, claro, novelas. Então, tenho o hábito de ver pelo menos alguns capítulos. Tenho um hábito ainda pior… Ver TV ruim só por ver, só para comentar, para me impressionar com como é possível descer tão fundo.

E daí que vi o primeiro e parte do segundo capítulos da novela da Record. Fiquei impressionado com a ruindade do texto. É tão primário que fica difícil entender como entregaram para esse autor, Tiago Santiago, um projeto tão ambicioso e caro. Os diálogos são expositivos e irreais, as situações são mal encenadas e mal dirigidas. Os atores estão completamente perdidos.

O que é um diálogo expositivo? É quando o autor explica a trama para o espectador através dos diálogos por absoluta incapacidade de fazer isso de uma forma mais sutil e bem bolada. É preguiça criativa pura, ou incompetência.

Pior. Nos dois horrorosos primeiro capítulos da trama, o que se viu foi uma trama que andava em círculos. Claramente, os roteiristas da Record não sabem como colocar a trama em movimento e, em novela, a trama, o plot são tudo. Nas novelas, os personagens são mais rasos inicialmente e se baseiam em arquétipos: a mocinha, o mocinho, o safado, o espertinho, o vilão… O que importa é o movimento, a forma como você fica esperando que isso ou aquilo aconteça. Os autores de Casminhos não sabem nada e os personagens simplesmente caminham em calçadas temporais diferentes. Isso significa que, enquanto um monte de coisas acontecem para um personagem, os outros continuam atolados em alguma trama que não vai a lugar nenhum.

Foi assim que o assassinato do magnata “interpretado” por Walmor Chagas, que deveria ter acontecido na primeira semana saiu no jornal de um núcleo de personagens no capítulo de hoje. Mas um dos personagens desse núcleo, “interpretado” por Leonardo Vieira, já está até em Miami investigando uma pista da morte de sua mulher, que aconteceu na mesma noite da suposta morte do magnata. Captou a confusão? E, caramba, o capítulo de hoje se passa duas semanas depois do início da novela. COmo é que pode só ter se passado um par de dias entre o primeiro capítulo e o de hoje, na terceira semana da novela?

Essa cena, por exemplo, é uma aula de como ninguém sabe nada nessa novela. Dois personagens conversam, um deles pergunta: “você viu o jornal?”, vai até a porta e pega o jornal do dia. Em seguida, abre o jornal e lê a tal manchete da morte do magnata. Tudo é anunciado. Os personagens avisam o que vão fazer como se isso fosse necessário para que algo seja feito. É primário, coisa de primeira semana de curso de roteiro. Talvez nem isso. Inacreditável.

Outra cena inacreditável é uma em que duas personagens encontram um menino lobo (sim, é uma trama, errr… fantástica, ai, ai) no parque e ficam por intermináveis segundos estarrecidas com os dentes de, hum, cão dele. Ele fica mostrando os dentes de forma completamente ridícula enquanto as duas meninas conversam em voz alta, dizendo barbaridades. Depois, segue-se um diálogo risível em que ele conta sua história de forma completamente sem noção. O impressionante é que ninguém se salva. O texto pode ser uma porcaria sem tamanho, e a direção e os atores também não ajudam em nada. Todo mundo sabe que Fernanda Montenegro, se quiser, faz um espetáculo em cima da leitura de uma lista telefônica. Ator bom pode até dar alguma credibilidade a diálogo ruim. Mas quando tudo é de quinta, a coisa fica impraticável. Azar o do espectador que está sendo chamado de imbecil. Essa novela é um fracasso anunciado e merecido.

Enquanto isso, a novela das nove da Globo, Paraíso Tropical, abraçou uma obsessão antiga de Gilberto Braga, as tramas dos filmes americanos, e anda a 100 Km por hora. O resultado é a sensação de que todo dia acontece alguma coisa. As idéias continuam sendo recicladas de novelas anteriores de Braga e de filmes e seriados, mas o nível da direção de Denis Carvalho é muito bom (para uma novela, claro). Você percebe o cuidado nas composições de cenas e até nas interpretações.

Apesar das críticas, Alessandra Negrini fez um trabalho detalhista na hora de compor Taís e Paula. Houve mais do que uma troca de sotaque e de roupas no trabalho da atriz. As duas gêmeas se movem de jeitos diferentes, falam diferente e o espectador mais atento pode perceber isso. Mas, e tem sempre um mas, televisão anda rápido demais. Em alguns momentos, fica claro que Negrini não sabia mais que personagem estava interpretando. Numa obra mais bem cuidada, fosse um seriado ou um filme, seria o caso de parar, respirar e refazer. Em novela, o negócio é cortar e partir para a próxima cena.

A Record não tem o monopólio das tramas ruins, claro. A novela das sete da Globo colocou Claudia Raia numa enrascada enorme, com uma personagem ridícula que fica entoando diálogos horrorosos e se levando a sério quando ali não há salvação. É um daqueles casos em que a novela pode até funcionar, mas no qual o ator sabe que se meteu em furada e aguenta tudo com resignação, à espera do próximo bom personagem, por favor.

Se alguém na Record tem alguma noção de como se faz novela, Caminhos do Coração vai acabar sofrendo de algo parecido com o que aconteceu com a novela das seis da Globo, Eterna Magia. A novela falava de bruxas e, quando não deu certo, a idéia foi abandonada rapidamente. É bom que a Record siga os passos de quem realmente entende de novelas…

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