Enquanto isso, na Venezuela…
Como eu sempre digo, ter um ditador no poder é muito bom… Se ele for meu amigo de infância, meu irmão, meu pai…
A democracia é um jogo em que as forças colidem o tempo todo e, em muitos casos, é preciso reunir suas minorias para formar uma maioria. Mas a essência do jogo é manter as instituições funcionando e respeitar as regras da legalidade. Só assim é possível manter as coisas no rumo.
Eliminar todas as forças só é desejável para quem está no topo, porque é extremamente daninho para quem está aqui embaixo.
Por que, diferente do legislativo, em que cada pessoa pode entrar com sua agenda e defender um grupo, o poder executivo precìsa governar com todos os grupos em mente. Bem, precisa pelo menos fingir que faz isso.
Eu não sou venezuelano. Não sei que dores eles sentem. Já encontrei jornalistas pró e contra Chavez. Mas o fato é que, tirada toda a gritaria da direita alucinada e dos esquerdistas que dão vivas a tudo que ele faz, o que sobra é um bufão que adora se exibir e fazer barulho enquanto seu país continua no mesmo ponto onde estava uma década atrás. A Venezuela se encontra em um nó assustador.
E, no fim, tirar uma emissora de TV do ar é algo que prova dois pontos importantes.
1. O povo não se importa. Cerca de 70% dos venezuelanos eram contra o fechamento do canal… Porque iam ficar sem suas novelas preferidas! Nada sobre liberdade de expressão, ou sobre legalidade, ou sobre representatividade ideológica. Nada.
2. Apesar de toda a reclamação, as luzes se apagaram. Se Chavez for derrotado, rola até filme pintando o dia de ontém como uma sombra na história venezuelana. Se ele esticar seu reinado, fica como uma espécie de dia do triunfo. Vai saber.
As pessoas não se importam, se não houver pelo que se importar. Para vencer é preciso mobilizar. E mobilizar é muito difícil. Os economistas escreveram centenas, milhares de livros sobre como a sociedade precisa de incentivos e interesses para se mexer. Quem não acha esses objetivos comuns, desaparece. Quem os toca com habilidade, controla as forças armadas, desliga canais e peita quem aparecer na frente.
No meio disso, a classe média, aqui como lá, continua letárgica. Não conhece seus direitos, não sabe nada e nem quer saber. Só quem se mexe são os muito pobres ou os muito ricos. Não se engane. Esse discurso não é comunista. É só a base da democracia.
Para conseguir qualquer coisa, no condomínio ou na sua cidade, é preciso se juntar a outras pessoas que pensem como você. É preciso fazer uma coisa chata e trabalhosa: conversar, argumentar. Sem isso, estamos todos sozinhos e somos presas fáceis dos Chavez da vida e de quem mais aparecer com apetite pelo poder e talento para controlar quem quer tanto ser controlado.
28/05/07 às 14:40
Hugo Chavez resgatou o que há de pior nos governos de esquerda. Não se trata apenas de implantar um modelo de justiça social; sua “revolução bolivariana” implica na utilização dos piores métodos bolchevistas de dominação, o que inclui intimidação das instituições, governo por decreto e, agora, a censura de um meio de comunicação mascarada sob a forma de “não renovação da concessão”. Sinceramente, não acompanho a política venezuelana para saber se a RCTV era ideologicamente hostil a Chavez. Também imagino que a oposição venezuelana não seja a fina flor da política mundial. Mas é incontestável que a “não renovação” da concessão de uma rede que está há 53 anos no ar e a sua substituição por uma TV Estatal (leia-se, chapa branca e servil ao presidente) é um ato de puro autoritarismo que mal disfarça seu verdadeiro propósito: calar vozes dissidentes. É sem dúvida um passo firme rumo à ditadura. E o pior, como você frisou, é que o argumento que mais pesou para a maioria da população é o fim das novelas. Pobre Venezuela!
28/05/07 às 16:51
Eu trabalhei na Venezeula por 6 meses, em 2005.
A situação é absolutamente rumo a ditadura, não há sombra de dúvida qnto a isso. Nem vou comentar o absurdo que é tirarem do ar o RCTV. Só respondendo ao dawalibi: se ideologicamente é oposição, não posso dizer (aliás nem sei se acredito em ideologias tão fortes assim), mas o fato é que era o único canal a questionar Chavez. O único onde vi entrevistas com pessoas claramente de oposição, questionando (as vezes de forma inteligente, as vezes não) o governo. O resto é Chavez pregando seu discurso bolivariano. Aliás ele tem um programa ao vivo no seu canal, que dura todo o dia de domingo. 8h de lavagem cerebral com direito a transmissão simultânea em praças públicas.
Mas vim escrever pra falar de outra coisa. Trabalhei pra CanTV (agora também estatal de novo), e convivi com muita gente de classe média. Não acho nem de longe que a classe média deles seja tão apática qnto a nossa. Vários de meus colegas de trabalho eram ex-funcionários da PDVSA, demitidos juntamente com outros 19000 por terem assinado o abaixo-assinado que deu origem ao último plesbicito. Foram demitidos, não podem trabalhar em orgãos públicos, e tem vários problemas para conseguir qq coisa q dependa do governo, como por exemplo um passaporte. Os que estavam na CanTv, correm o sério risco de perderem seus empregos novamente daqui a pouco - com o governo assumindo totalmente a empresa por agora (fim de maio). A não ser que Chavez se dê conta que daqui a pouco não sobra mão de obra qualificada, e dê uma colher de chá a eles. É gente que sai as ruas pra protestar sim. Ok, tvz não seja toda a classe média. Mas sinceramente, eu nunca trabalhei com alguém no Brasil que realmente protestasse contra algo. Sempre senti um clima de protesto MUITO maior lá, em época que no Brasil estouravam escandalos de mensalao e Zé Dirceu, no governo do Lula.
A verdade é que eles estão mais que abafados, mas há resistência na classe média sim. A classe baixa é que, de fato, não protesta contra nada, e adora Chavéz e seu populismo. E classe baixa é o que não falta naquele país, onde a única cidade com cara de cidade “grande” é Caracas mesmo. O resto, com exceção de Maracaibo que é um pouquinho melhor, é terra de ninguém, pobreza pra todos os lados.
Enfim, só um ponto de vista de quem esteve lá.
Beijos!!
28/05/07 às 17:01
Deise, obrigado pelo relato.
Pra mim, a desmobilização está muito clara quando só quem reage é quem perde o emprego, por exemplo.
Mas, também o que eu queria? Que as pessoas se mexessem sem que nada as ameaçasse? Viajei total.
Eu mesmo falei que as pessoas precisam de algum incentivo. O fato é que, de alguma forma, os grupos anti-Chavez devem ser tão imbecis que simplesmente não conseguiram se unir e se mobilizar para apresentar alguma alternativa viável a ele.
Isso vai dar em golpe, em ruptura em algo muito ruim.
28/05/07 às 17:35
só uma correção: quem perdeu o emprego, perdeu pq protestou. Pq assinou um abaixo-assinado para que ocorresse um plesbiscito que decidiria o prosseguimento ou não do governo. Plesbiscito em que Chavez saiu vitorioso, e que metade do país diz que foi fraudado. Esse povo do abaixo-assinado é o mesmo que fez greve por 3 meses na PDVSA, tudo para viabilizar o plesbiscito.
Tvz a forma de protesto não tenha sido das melhores. Que protestam sem representatividade e sem organização, também é verdade.
Concordo contigo em quase tudo. Só acho que, apesar de tudo, eles são muito menos apáticos que nós. E isso dá no que pensar.
28/05/07 às 17:37
Olha, eu vi a algum tempo, um documentario sobre o golpe que a emissora que saiu do ar armou contra o Chaves, incluindo a criação de um general falso (era um ator) que ‘comandou’ o golpe. O documentario é de uma emissora australiana, se não me engano. Então, dentro do raciocinio de um cara como o Chaves, cancelar a concessão foi uma atitude esperada, que estava caindo de maduro.
Agora, se a Venezuela é o que é, com uma população pra lá de miseravel e um vão social tão grande quanto o nosso, é bem claro de quem é a paternidade de um ‘bicho-papão’ como Chavés.
De qualquer forma, Alexandre, o que vc escreveu foi a coisa mais razoável que eu li até agora sobre o fato. Agora, só recorrendo aos blogs para ouvir opinião consistente.
28/05/07 às 18:33
Sem contar, Fernanda, que antes desse golpe a que você se referiu (em 2002), ele próprio, Hugo Chavez, havia comandado um golpe militar em 1992. Em outras palavras, é aquilo que já disse anteriormente: nem a situação e nem a oposição na Venezuela respeitam a democracia. Mas o que impressiona nesse episódio da RCTV é a utlização de métodos stalinistas por Chavez para calar a voz da dissidência. Uma oposição, ainda que seja como a venezuelana, tem de ter voz e canais de expressão. Ou acreditamos nisso, ou não acreditamos em democracia. Um país que só tem canais de Tv privados que elogiam o presidente (como relatou a Deise Lima) ou que são estatais (totalmente subservientes ao governante, portanto) caminha a passos largos para o totalitarismo.
28/05/07 às 18:40
Ou, quando tem petróleo e nenhum poderio militar, para um golpe, uma invasão. É só escolher.
28/05/07 às 19:15
Bem lembrado, Alexandre, pois o golpe de 2002 teve as impressões digitais dos EUA. Daí surgiu a célebre frase do arauto do liberalismo Jeffrey Sachs, que na época disse estar “maravilhado” com a queda de Chavez. Maravilhado é linguagem de miss, e não de economista, lembrou bem Clóvis Rossi. Mas a coisa não parou por aí. Assumindo um país claramente dividido, Chavez optou não pela conciliação, mas pelo aprofundamento dessa divisão. Não pode se queixar da oposição. Eles se merecem. Só lamento que nessa briga a primeira vítima seja a liberdade de expressão.
28/05/07 às 21:30
Isto por que vocês ainda não viram a Escolinha do Requião! Toda terça-feira ele reune o seu staff e desfila a falar a la Chavez, na tv educativa, aqui do Paraná. Isto é entristecedor, mas foi a quase maioria da população paranaense que o recolocou lá. No fundo sempre temos uma parcela de culpa por votarmos de forma inadequada. Claro que aqui não houve nenhum golpe, como na Venezuela, mas o comportamento do nosso governador segue a mesma linha de atuação: populismo. E neste quesito estamos péssimos, aqui na América Latina. Qual o remédio para isto?
29/05/07 às 9:21
Não está ajudando em nada nessa confusão toda essa emissora ter sido a responsável por aquela papagaiada de 2002, dando munição para todos os radicais de esquerda que adoram dizer que a mídia distorce tudo para tirar “o polvo” do poder.
Os caras distorceram mesmo, fazer o quê? E o Chavez é um bosta aproveitador, fazer o quê?
30/05/07 às 15:58
Cris;
Não fazer que nem eles: ouvir a midia ciente que ela é parcial e tentando separar a opinião/ideologia do fato. Assim como também não cair nos discursos simplistas/populistas/paternalistas/neoliberais/etc. Estar ciente de que não existe solução mágica para os problemas e nem uma pessoa só é capaz disso… Não existem heróis,,,não, pelo menos, na política.
E, apesar de tudo, acho que o povo brasileiro já vota melhor do que votava antes. Não é nenhuma maravilha, mas levando em conta os anos que passamos sem poder votar, acho que até temos nos saido bem, o problema são as opções que não são boas o suficiente, ou se estragam antes do tempo.
30/05/07 às 17:10
Li pouco ou quase nada sobre o assunto., O que vi foi pela tv, ou seja, pouco ou quase nada tb…obviamente.
Mas , a principio, me preocupa qq tipo de restrição de informação, qq tipo de limitação na liberdade de expressão.