A fogueira e a biografia

Os dias passaram e eu nem falei do absurdo da história da biografia de Roberto Carlos.

É engraçado, porque defendo até o fim o direito do cantor de defender sua honra e imagem, seja lá o que isso queira dizer. Mas é impressionante como a Justiça brasileira é incapaz de lidar com casos em que a privacidade e a liberdade de expressão entram em choque. Eu tenho certeza de que há momentos em que a imprensa especializada na vida de celebridades exagera na dose. Mas isso precisa ser decidido do jeito certo. Calúnias precisam ser tratadas como calúnias. E a privacidade de figuras públicas precisa ser tratada do jeito certo.
O fato é que as biografias de pessoas públicas, principalmente as não-autorizadas, têm um valor histórico inestimável. E quem somos nós, eu ou você, para definir o que é relevante no grande contexto das coisas. Eu nem li o livro. Não me interessei por ele. Mas fico imaginando o que se faria se as biografias de Churchill, Hitler, Getulio Vargas, John Lennon fossem proibidas. No Brasil, até a fantástica biografia do Garrincha, escrita com carinho pelo Ruy Castro, teve problemas. Fala sério, esse país não sai do nível da província nunca?
Figura pública tem uma forma completamente diferente de abordar sua privacidade. Quanto mais relevante for a pessoa, menos privada fica a sua vida. Menos controle sobre isso a pessoa terá. A gente pode passar dias, semanas, anos discutindo os limites disso. OU pelo menos era o que a Justiça devia fazer.

Em vez disso, quanto mais são revelados detalhes da tenebrosa e patética audiência que decidiu a questão, mais se vê que o buraco é mais embaixo. Teve juiz tietando o cantor, dando CD musical para ele e até editora abandonando seu autor completamente e deixando de lutar pelo que é certo. Casos como esse precisam ir até o fim, para que existam precedentes e jurisprudência a respeito. Decididos assim, desse jeito patético e vexaminoso, só causam vergonha.

Será que Roberto Carlos acha mesmo que vai controlar tudo que é publicado sobre ele? Seu verbete na wikipedia? Os PDFs piratas do livro que já trafegam nas redes de troca de arquivos? O que será que o cantor vai fazer com os quase 11 mil livros que a editora DEU pra ele? São 11 mil volumes, pessoal. Quantos quilos tem isso? Será que dá uma fogueira bonita?

SERÁ QUE ELE VAI QUEIMAR LIVROS? Como é que isso fica na biografia dele? Aquela que passa de boca em boca, que vai ser escrita por aí e que ele não vai controlar? A biografia que vai contar como uma estrela solitária, em sua fase outonal, ajudou a apagar os registros que, pelo menos por alguns meses, lhe conferiram uma relevância que ele já não tinha há tempos. Afinal, o livro foi lançado apenas alguns dias antes de RC lançar não um disco inédito, mas uma coletânea de grandes momentos do passado. Já que um grande disco dele é coisa que não se vê há décadas. Apenas história.

Agora, cá entre nós… Alguém precisa lançar uma campanha “Roberto, leia um dos seus 11 mil livros”.

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