Você está mesmo prestando atenção?

Finalmente vi “O Grande Golpe”, nome ridículo do fantástico “The Prestige”. É o melhor trabalho de Christopher Nolan fácil. “Memento” (como era mesmo o nome aqui? Ah, sim. “Amnésia”, apesar do personagem repetir que o que ele tinha não era… amnésia) era um filme-conceito. “Insônia”, bem… Depois vem “Batman Begins”, que eu não curto muito. Acho o filme correto, apenas.
Mas “The Prestige”, nossa, que filmaço. É um filme-enigma, um filme-truque, mas, antes de tudo, um filme-filme. Conta, em linhas gerais, a história da rivalidade entre dois mágicos. Um tenta passar a perna no outro por conta de um evento nefasto em seu passado. O que se segue são duas das melhores interpretações de Hugh Jackman e Christian Bale. Ambos compõem personagens cheios de detalhes e sutilezas. Para um bocó como eu, que adora shows de mágica, o filme fica ainda mais legal.
O filme descreve com perfeição um “sense of wonder” (com o perdão do termo em inglês, alguém tem um correspondente para isso em portugês?) de uma era diferente, a virada do século. E esse cenário funciona com perfeição para que Nolan coloque em prática sua obsessão por contar histórias sobre segredos e identidades perdidas e trocadas. Ele vai e volta no tempo, cruza fato e ficção, realismo com fantasia e constrói um filme cheio de níveis e camadas. É coisa para gente grande ver mais de uma vez e pegar as sutilezas.
Aliás, acho que é isso que me incomoda tanto em “Batman”. Não é um filme para ser revisto. Nolan costumeiramente exige muito de seu espectador e esse estilo se perde em um blockbuster que mira numa audiência com disturbio de atenção.
A melhor coisa do filme do Homem-Morcego foi o fato de colocar Nolan em contato com Bale e Michael Caine, que simplesmente arrasam aqui. Bale traz aquela mistura de intensidade interior misturada com uma certa frieza e distância do mundo. Seu personagem é um mágico sem carisma nem jeito pro espetáculo, mas profundamente apaixonado pela idéia de criar novos truques que avancem a ciência do ilusionismo.
Jackman é o oposto. Um verdadeiro showman, fica obcecado em saber como seu oponente faz um truque fantástico de teleporte. Ele não tem a mesma capacidade de criar truques, precisa de um engenheiro (Caine), mas sabe fazê-los no palco como ninguém. Uma ótima forma de ilustrar a história está no momento em que ele rouba o truque do teleporte. Sua encenação é muito superior.
Por fim, há ainda uma aparição de David Bowie que é fantástica nem tanto pela sua interpretação, que está correta, mas pela idéia de colocá-lo ali, interpretando aquele personagem. Casting genial.
“The Prestige” é um filme tão cheio de camadas e bifurcações que fica difícil seguir em frente sem estragar. Só faça uma coisa, por favor: não deixe de ver.
26/03/07 às 12:57
Finalmente alguém pensa que como eu, que “Batman Begins” é um filme bom, mas nada muito além disso. Dos citados o meu preferido ainda é “Amnésia”.