Ficar viajando seguidamente te dá uma sensação estranhíssima de não estar mais em lugar nenhum direito. Em fevereiro, eu viajei 18 dos 28 dias. Mudei de hotel cinco vezes e fiz 9 vôos de pelo menos cinco horas cada, os mais curtos, e de 9 horas, os mais longos. Tem quem viaje mais, claro. Mas o fato é que isso me deixa meio fora de foco.
Quando o fuso horário entra na equação, sua vida sai do controle completamente. Como Los Angeles chegou a ficar com seis horas de fuso durante o nosso horário de verão, o efeito foi devastador em hábitos alimentares e no sono. Até porque eu fui, voltei, fui, voltei. Um saco.
E tem a saudade da minha mulher, da minha casa, da minha vida, das minhas coisas. O fato é que eu viajo de novo na semana que vem. Mais 18 horas de viagem pra lá, depois pra cá e tudo num intervalo de dois dias. Sinceramente, eu tenho calafrios.
Quando eu vim morar em SP, quase dez anos atrás, aluguei um quarto e praticamente não tinha vida fora do trabalho. Então, qualquer viagem significava dormir em um lugar melhor do que a minha, errrr, casa. Hoje é diferente, claro. Então, quando eu começo a ir e vir, essas coisas vão se juntando e devastando o prazer de fazer uma boa entrevista, uma reportagem bacana. E atrapalham, sim, minha vida pessoal.
Só que, como é que um jornalista que quer falar de entretenimento e cultura pode viver sem fazer essas viagens? Elas são o feijão com arroz, o pão com manteiga. A gente briga pela chance de entrevistar esse ou aquele ator, diretor, escritor, cantor, compositor, produtor. Um jornalista que não quer viajar está limitando suas possibilidades.
Mas dói, viu? Chega um momento em que você quer agarrar um telefone e falar com as pessoas que você ama. Chega a hora em que você vê uma coisa legal, faz algo divertido e fica puto porque não tem aquela pessoa por perto. Porque a virtude e a maldição do jornalista é que ele é o “olho”. Ele é pago justamente pela sua perspectiva especial. Então, sua vida será marcada por experiências que ele não vai poder partilhar com as pessoas de que mais gosta. Ele vai contar pra elas de algum jeito especial. Mas, na essência, elas vão ser apenas espectadoras, ou leitoras ou ouvintes privilegiadas de uma história narrada.
E eu juro que houve momentos em que, depois de entrevistar essa ou aquela pessoa, a ficha caiu que eu tinha falado com AQUELA pessoa bacana e que eu ia adorar que a Mônica estivesse do meu lado. Ou o Cris, ou a Anna, ou o Bruno ou minha mãe. Sabe como é? Um exemplo seria ter meu primo, um flamenguista doente, ao meu lado num dia em que eu fosse entrevistar o Zico, por exemplo. O ou Bruno por perto num encontro com o Arthur C. Clarke. E por aí vai.
Eu pude ver isso no dia em que minha mãe me matou de vergonha ao encontrar o Leão Lobo (Mas como esse cara veio parar aqui nesse texto?!) e pular no pescoço dele. Poxa, eu cobri TV aberta um tempão e viajei com ele algumas vezes em algumas còberturas. Achava ele ridículo na TV, mas uma simpatia pessoalmente. Nem sabia que minha mãe gostava do cara e fiquei completamente estupefato quando a vi alucinada tascando um beijo na figura. Meu primeiro impulso foi dar um esporro nela por assistir programas de TV tão ruins. Mas eu entendi o que tinha acontecido e fiquei, confesso, com um sorriso bocó no rosto.
É. Definitivamente estou escrevendo sem rumo hoje.