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Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

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Trabalho no Carnaval

Eu não sou folião. Nunca fui. Quando era adolescente, via os bailes como um local a mais para “ficar” com alguma daquelas garotas genéricas que a gente conhece nessa fase da vida. Hoje em dia, é uma época pra curtir mais a minha mulher e meus cachorros, enquanto os filhos não vêm. Isso quando eu não tenho que viajar a trabalho, claro.
As pessoas acham que a gente reclama de barriga cheia. Mas viajar sozinho no Carnaval é dose.  Além disso, a viagem é destruidora. São cerca de 20 horas de porta a porta, de São Paulo a Los Angeles. Já fiz viagens de mais de 30 horas de suplício de um hotel em Roma até a porta da minha casinha querida.

Estou fazendo uma bateria de entrevistas em Los Angeles que vão gerar um monte de reportagens nos próximos meses. Pode parecer besteira, mas, como você tem cerca de dez minutos e os divide com gente que tem interesses (e revistas) muito diferentes, é preciso concentração e empenho pra arrancar certas informações. E há toda a estrutura completamente artificial montada pelo estúdio para que nada saia de seu controle. A estrutura é bem profissa e os estúdios tem até um estenógrafo transcrevendo as entrevistas. Mas, claro, você precisa e deve estar atento. Alguns anos atrás, um dos meus entrevistados fez uma declaração pesada sobre o governo Bush que não apareceu nas trasncrições oficiais. Mas estava na minha fita e foi publicada. Quando eu vejo jornalistas que vêm aqui (de todos os cantos do mundo), não fazem nenhuma pergunta e nem gravam, entendo porque existe tanta revista porcaria por aí. Sério. Há três tipos de entrevistas neste eventos:

1. a um-a-um, em que você tem cerca de dez a 15 minutos a sós com o entrevistado

2. round-table - Uma mesa com cinco a oito jornalistas de todo o mundo (sempre de países diferentes, para garantir uma relativa exclusividade daquele material)

3. conferência - todo mundo junto numa sala se estapeando para fazer uma pergunta

No primeiro tipo, você precisa se preparar, ter um roteiro, fazer pesquisa sobre o entrevistado etc. Nos outros dois, você só precisa segurar um gravador e apertar a tecla “rec”. O resto do mundo faz o trabalho para você. Tem pelo menos três pessoas na minha mesa que não abriram a boca para fazer nenhuma pergunta nos últimos três dias. Sinto uma certa indignação misturada com alívio. Se eles não falam nada, pelo menos sobra mais tempo pra eu fazer mais perguntas que me interessam. Mas se eu e mais dois jornalistas faltarmos por algum motivo, eles estão perdidos.
O lado bom é ter a chance de falar com gente que você admira. Alguns decepcionam, outros são muito interessantes, articulados e inteligentes. Um deles é o Matt Groening, o criador dos Simpsons. É minha terceira entrevista com ele e o cara sempre tem coisas interessantes a dizer.  Nesta viagem, conheci os criadores de The Unit (Shawn Ryan, também criador de The Shield, que eu adoro), My Name is Earl (Greg Garcia, que é muito engraçado) e ainda falta conhecer as mentes por trás de Shark, Bones e 24 Horas (que eu conheci em uma outra viagem, quatro anos atrás).

Essa é a parte boa do trabalho. Eu assisto a esses programas, adoro alguns deles e tenho a chance de fazer certas perguntas para seus criadores. É muito legal.

Agora, por favor, não ache que a gente tira foto com os caras, pede autógrafos e coisas do tipo. No way. Isso destrói a relação de respeito e até de igualdade que é necessária de se construir para uma entrevista funcionar. Quando você vira fã, pode arruinar uma entrevista. Além de irritar os outros jornalistas (os sérios, pelo menos) e queimar seu filme com todo mundo ao redor.

Eu já vi jornalistas (por algum motivo que me escapa, são geralmente coreanos, indonésios e japoneses) pedindo autógrafos de forma acintosa. Uma vez, um deles colocou um boné na cabeça de Bruce Willis e pediu que ele autografasse. Willis, mal-humorado, devolveu o boné. O engraçado é que, se um fã fizesse isso com ele na rua, provavelmente ele daria o autógrafo. É que uma conferência de imprensa é lugar de trabalho. Errar a dose de admiração é um erro imperdoável.


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5 respostas para 'Trabalho no Carnaval'

  1. Baxt Diz:

    Adorei o texto. Deviam imprimir e distribuir nas faculdades de jornalismo, porque é melhor (e mais prático) do que muita aula que eu tive ;)

  2. Alexandre Inagaki Diz:

    Ótimo artigo. Em tempo: também passei o Carnaval inteiro trabalhando. :P

  3. Nicole Diz:

    O engraçado é que, pela minha experiência aqui, os jornalistas brasileiros são mais pró-ativos do que os de outras partes do mundo. E como tem repórter mal preparado no mundo, isso nunca pára de me impressionar. :)

  4. henrique Diz:

    No mundo da tecnologia é a mesma coisa. Já fui a diversos eventos e as roundtables viraram quase exclusivas pela falta de inteligência dos jornalistas - na maioria, latino-americanos. Na última que fiz, os três brasileiros tiveram que ouvir “nossa, esse povo só trabalha” duns mexicanos que só queriam fazer compras em Las Vegas… Resultado: brasileiros cheios de matérias distintas (afinal, era a CES), latinos só com o material da empresa pela qual foram convidados!

  5. Jorge Diz:

    Eu li justamente isso no livro do Zeca Camargo (De A-Ha a U2). Ele fala sobre esse “falso glamour” de se entrevistar artistas.

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