Dores da (nova) paternidade

Pouco mais de seis anos atrás, eu e Mônica íamos ao cinema em um shopping de São Paulo quando ela passou em frente a uma loja de mascotes, viu um maltesinho minúsculo e se apaixonou pelo bichinho. O filme ficou pra outro dia e voltamos pra casa com um cachorrinho.

Tinha tudo para dar errado. Compra de impulso, donos inexperientes que não estudaram a raça… Mas o que se seguiu foi que a gente foi conquistado pelo Carl Sagan.

Só que eu sempre me ressenti de que o Sagan é o cão da Mônica e tem a personalidade parecida com a dela. Ele é temperamental, mimado, tem mau humor pela manhã, vai dormir e gosta que todo mundo durma junto, escolhe comida e come pouco, reclama de tudo e quer atenção exclusiva e total. Eu sou completamente diferente.

Eu sou um labrador.

Ela sacou isso e me surpreendeu pouco mais de dois meses atrás com um lab preto, lindo, que chamamos Charles Darwin. Claro que, como ela é uma maltesa, passou a reclamar de tudo e o assunto “vamos dar esse cachorro” passou a povoar as conversas toda vez que ele fazia uma das milhares de besteiras que um filhote pode e deve fazer. Cocô e xixi fora do lugar, choro, latidos fora de hora, objetos roubados. Além disso, muita agitação, com direito àquele hábito que aterroriza as mulheres: o momento em que eles, animados, ficam de pé e sujam sua roupa com as patas dianteiras.

São hábitos malas, sim. Mas totalmente controláveis se você tiver calma e ensinar o animal o que é certo (no convívio com humanos) e o que é errado. Ele vai fazer coisas erradas por muuuuuuuito tempo, mas já começa a entender que lugar de cocô e xixi é no jornal ou na rua. Em casa, basta monitorar ele quando estiver nas áreas de risco e avisar o que ele pode e o que ele não pode fazer. Em alguns meses, ele começa a respeitar os limites.

E, claro, vai sempre errar. É um cachorro e não um robô.

A cada progresso, uma festa. Quando fomos ao Rio, ficamos apavorados com a perspectiva dele dormir uma noite na área de serviço da casa da minha mãe. Ela é obcecada por limpeza e arrumação e, por exemplo, lava a louça de madrugada. A gente costumava dizer que havia passagens secretas pela casa, porque deixava uma meia fora do lugar e, quando lembrava e ia recolher, não estava mais lá. Era como se fosse mágica.

Pois bem. Neste contexto, fiquei apavorado com a idéia de ver o Darwin morando por uma noite na área de serviço da minha mãe. Era grande demais e nem tínhamos jornal o suficiente. Arriscamos e cobrimos apenas cerca de um metro quadrado. E o bichinho fez xixi ali direitinho.

Diabos. Eu fiquei feliz porque meu cachorro acertou xixi num pedaço de jornal de um metro quadrado. Isso é coisa de maluco.

Outra coisa que me aconteceu foi o hábito de acordar mais cedo e sair de manhã pra passear. Durante anos, eu tentei fazer isso e não conseguia motivação. Agora, no máximo sete da manhã o Darwin começa a pedir pra sair. Eu levanto, dou comida e saio pra passear. São uns 40 minutos de caminhada com ele. Mais uma meia hora quando chego do trabalho e uma última caminhada antes de dormir. Essa última, tem uma extensa sessão de arremesso de bolinhas na garagem, para garantir que ele está cansado o suficiente.

Antes, ele ficava a maior parte do dia em uma gradinha e só saía dali pra passear. A gente foi deixando ele dentro de casa (e fora do quarto de dormir) progressivamente e agora ele passa praticamente todo o tempo que estamos em casa na áre interna. Quando estamos fora, fica no cantinho dele. Mas isso não é suficiente para um labrador. Terças, quintas e sábados ele fica em uma creche onde brinca e se cansa bastante. Sendo que no sábado, eu vou junto e fico brincando com ele.

Outra coisa engraçada é que, quando o Darwin chegou, pensamos que a Anunciadora, nossa babá de plantão, ia ficar apavorada. Acabou que ela gostou mais dele do que do Sagan, o maltês. É que labradores, embora dêem um trabalhão, são amáveis ao quadrado. Ela chega em casa e pede pra levar ele pra passear. Volta sempre com histórias de como ele brincou com todo mundo e fez amigos e sempre exclama: “como ele é sabido!”. Eu não usava essa palavra deliciosa desde nem sei quando: sabido. Passei a repetir comigo: “como é sabido”.

Viu? Cachorros dão trabalho, mas são uma delícia. O meu até me tirou do sedentarismo de anos e agora me faz acordar cedo e caminhar pelo menos duas vezes por dia.

Conte para os amigos!