Acabaram os tais seis primeiros episódios de Lost e o resultado é interessante e quase um estudo do quanto uma série pode encarar problemas a partir de sua premissa.
Os episódios estão muito bem escritos e dirigidos, entregam sempre novas revelações e informações interessantes e, ainda assim, a sensação de frustração é crescente. Nos Estados Unidos, a audiência caiu e os espectadores estão irritados e frustrados.
Mas como é que isso está acontecendo se os episódios são tão bons?
A resposta tem a ver com algo que Lost não consegue entregar: recompensa emocional.
Enquanto outros programas vão de rapidinhas (as séries que resolvem suas histórias dentro de cada episódio) a sexo selvagem (24 Horas, que é uma hora de emoção), Lost é uma preparação para sexo tântrico. O prazer está sempre no futuro. Não há aquele momento em que os heróis resolvem alguma coisa e você pensa: ufa!! Agora a gente descansa até a próxima ameaça.
Isso é mortal. Cansa, incomoda. Com o tempo, os espectadores sentem que nunca estão recebendo o que esperavam.
Então, se eu pudesse dar uma única recomendação a Damon Lindelof e Carlton Cuse, seria essa: recompensa emocional já!!
Eu falei aqui sobre o espetacular quarto episódio do terceiro ano de Galactica. Você ri, chora, grita, pula da poltrona. Você torce pelos heróis e os vê errando e acertando, resolvendo problemas.
Em Lost eu fiquei desesperado com o final do segundo ano. O cara que os escritores nos vendem como o herói leva os companheiros direto para uma armadilha sem ter um plano de contingência qualquer. Um absurdo na vida real e um desplante maior ainda num mundo ficcional.
O discurso de que as pessoas querem ver gente como a gente é uma balela. No mundo real, fora das expectativas quase infantis e sonhadoras das pessoas que criticam a TV, o que os espectadores querem são pessoas interessantes com as quais possam se identificar. É nesse ponto que entra o desenvolvimento de um bom personagem. É aqui que a complexidade, os defeitos e qualidades ganham sentido. Lost tinha isso e foi deixando essa vantagem se esvair na prisão dos plots complicados que nunca se resolvem.
Enquanto isso, séries como Heroes e Jericho andam rápido e se movimentam sempre. Heroes consegue manter o interesse e melhora a cada episódio, Jericho parece já estar perdendo o gás. Não há fórmula mágica.
E, bom, o episódio seis é fantástico. Mas, de novo, nos deixa naquela situação de irritação absoluta. Quem viu os promos dos seis episódios no You Tube sabe que o slogan da temporada era: planeje sua fuga!!
Nada disso aconteceu. Ficamos andando em círculos. É como eu disse: nenhuma recompensa.