Filmaço dispensável

Ao mesmo tempo que gostei de Miami Vice, ficou claro porque o filme fracassou nos cinemas…
Michael Mann não faz concessões. Seus personagens são amigos de unha e carne e isso só é dito em duas ou três frases em todo o filme. Não há espaço para brincadeiras, sorrisos, felicidade. Os heróis vivem sob uma enorme tensão. Em outros filmes, os roteiristas inserem aquelas ceninhas feitas só pro espectador recuperar o fôlego. Um risadinha, uma piadinha. Amigos fazendo piadas e o espectador rindo junto. Os heróis de Miami Vice são soturnos mesmo. Confiam um no outro e pronto.
Outro ponto que deixa o público furioso é que Mann não gosta de frescura nem na hora de resolver as situações. Quando, no climax, Rico vai atrás do homem de quem quer se vingar, não há uma lutinha inútil (Harrison Ford não entendeu isso e se meteu a brigar no final de Firewall, arruinando o filme…), um diálogo com frases de efeito, aquela frasesinha ridícula que o povo adora. Rico mata sem dó nem piedade. É só.
Eu gosto disso tudo. Só não gosto mesmo de Colin Farrell. Um canastrão, cheio de excessos que, por algum motivo, Mann não controla. Ele exagera na hora errada, não consegue dizer com os olhos o que tem que ser dito, faz vozinha de macho que acaba soando ridículo. Fica ainda pior porque Jamie Foxx está matando a pau logo ali do lado. Ensinando que, para fazer personagem macho não é preciso engrossar a voz. Mas é engraçado que, na mão de um bom diretor, Farrell pode render. Ele tem essa energia, uma chama e um tesão que podem ser mágicos nas mãos corretas.
OU não. Talvez ele não tenha salvação mesmo. Dane-se. Não gosto do cara.
Pena que Mann não achou a conexão com o público e o filme naufragou feio nos Estados Unidos e no resto do mundo. Mas vai fazer sucesso em DVD. E, ah, a trilha é supimpa. Só irrita porque algumas músicas marcantes do filme não estão no disco.
O diretor adora falar desses personagens obcecados por seu trabalho, pela perfeição de suas ações. E a entrada das câmeras digitais deu a ele uma nova paleta para usar com inteligência. As imagens com pixels estourados, granuladas e sujas, que definem uma cena mal iluminada em qualquer gravação digital, são um problema só nos filmes dos outros. Nos dele, dão a sensação de legitimidade, de que aquilo está acontecendo agora, de verdade. São pontos cuidadosamente estourados, se me permite dizer.
Com dinheiro pra gastar, o diretor fica mais perigoso, porque faz cenas corriqueiras ficarem fantásticas. Quando terá sido a última vez que você viu alguém filmar cenas de um avião passando na tela do cinema de forma tão bela, tão estética? Isso é Michael Mann: o simples feito com a perfeição de um maníaco. Aqueles personagens tinham que vir de algum lugar.
7/01/07 às 12:06
Eu achei o filme mais ou menos, apenar de ter achado o visual ótimo (e o som das armas, no mínimo correto). Mas também não gostei do Colin Farrel. O problema é que ele não é o Sonny Crocket. É o Collin Farrel lá.