Para Bonner, o brasileiro não é o Homer, é o Eremildo
Homer Simpson o pai abobalhado do desenho “Os Simpsons”, é um ícone pop criado por Matt Groening, que o define como um perfeito idiota. Uma besta de bom coração, um imbecil adorável. Mas sempre um idiota.
No jornalismo brasileiro, há um personagem parecido com Homer, chamado Eremildo, criado pelo colunista Elio Gaspari. Ele é aquele que sempre cai nas falcatruas, é ludibriado e entende tudo errado.
Aí, veio William Bonner (não diga que você precisa que eu te explique que ele é o editor-chefe e apresentador do “Jornal Nacional”), e, durante a reunião de pauta do JN, afirmou (com base em dados de uma pesquisa) que o brasileiro é o Homer Simpson e quer que a gente acredite que a qualificação não tem nada de pejorativa (a história completa está no artigo da Carta Capital que relata as impressões do professor Laurindo Lalo Leal Filho, em visita aos bastidores do telejornal).
Ele quer que eu e você acreditemos que sua comparação com o brasileiro foi feita com a melhor das intenções. É como chamar um amigo gordo de Rei Momo e dizer que fez a comparação porque você acha que seu amigo é rei. Ou como comparar uma conhecida a uma cobra e afirmar que disse isso porque essa amiga é magrinha.
Se eu definisse Homer como um cara boa-praça, divertido, gente-fina, você sinceramente acha que minha definição estaria sendo precisa? O Homer? Aquele personagem que virou o símbolo da imbecilidade, ignorância e preguiça?
Menos, galera, menos. A justificativa simplesmente não cola. Bonner fez o que todo mundo faz: comparou e qualificou um grupo que ele julga inferior intelectualmente. Foi preconceituoso como todos somos em algum momento. Pego no flagra, inventou uma desculpa esfarrapada. A emenda soou pior do que o soneto, afinal.
Agora, faça-se justiça. O artigo é profundamente enviesado. Há um mau-humor flagrante em tudo que se relaciona ao apresentador e editor do “Jornal Nacional”. A ironia permeia todo o texto, sugerindo uma pré-disposição a criticar impiedosamente o jornalista. No artigo, o professor se revolta porque Bonner não achou importante contar no JN que a Venezuela vende óleo barato para famílias americanas pobres. Se isso não é um viés chavista do educador, nem sei o que mais seria.
O que sobra é o texto de um professor mau humorado que presenciou um momento de ouro seguido pela carta desesperada de um cara tido como infalível só porque apresenta o telejornal mais visto da TV brasileira, e que, no fundo, é gente como eu e você.
Mas, se você cair no engodo da argumentação fraquinha, fraquinha de Bonner, azar. Em vez de Homer, que é um cara espertíssimo, afinal, você vai acabar sendo chamado de Eremildo.
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7/12/05 às 16:39
Alexandre, olá. Sem dúvida que sim. Mas o que dói mesmo é William (Lineu-Homer) Bonner dizer “jamais tive informaçao de que alguém guardasse imagem tao preconceituosa, tao negativa do personagem do desenho” e querer que eu e você acreditemos nisso. Aliás, o que dói de verdade é ver que milhões que têm no JN a única fonte de informação são tratados como imbecis desde o momento em que se escolhe o que será ou não notícia às 20h. O ciclo se fecha: Bonner me acha um imbecil - eu assisto Bonner que me trata como imbecil - continuo imbecil.
8/12/05 às 0:55
Acho que o negócio aí é aquele velho lance de “vamos nivelar por baixo” que existe na TV aberta brasileira há tantos anos.
E é por essas e por outras que temos 15 minutos de matérias do “curíntia e do mengão” e 1 minuto de matérias de política internacional.
9/12/05 às 18:19
Sim, a matéria da Carta Capital é ridícula. O cara chegou na tal reunião de pauta disposto a pegar no pé do editor-gatinho-engraçadinho do jornal. O articulista só faltou chamar Bonner de chato-bobo-feio.
Agora, uma pergunta: alguém acha que fazer a pauta de um jornal que é visto por quase toda a população do Brasil é fácil?
O que as pessoas querem? Que ele nivele por cima e faça um Jornal Nacional que só a gente (que fez faculdade e lê mais de três livros por ano) entenda?
A gente aqui pode comprar jornais e revistas, ler notícias na internet. O JN é para o povão mesmo, e tem que ser feito na língua do povão.
E essa história do Homer é tão velha… O Bonner fala isso há séculos. Não é lá muito elegante, mas será que está tão longe assim da verdade? E quantas pessoas aqui chamam o próprio pai de Homer de vez em quando? ;o)
16/12/05 às 11:28
Tá… pode até ter uma certa semelhança, mas é humilhante. Está custando à nós brasileiros descobrirmos que televisão só serve mesmo pra dar risada.