Sensacional a enevista de hoje na Folha com o vice-presidente José Alencar. Mostro trechos abaixo, mas leia na íntegra no site da Folha.
Folha – O sr. sonha em chegar à Presidência da República?
José Alencar – Seria desonesto de minha parte dizer que não. Todo homem público tem o ideal de chegar à Presidência. Mas eu gostaria de fazer isso desde que disputasse [uma eleição] e não mexeria uma palha para prejudicar o presidente Lula. Sou vice-presidente da República graças à eleição dele, portanto a minha posição é de apoio a ele, de lealdade a ele, para que ele recupere o seu prestígio nacional e conclua o seu governo.
Folha – Há muita pressão, ou pelo menos muita conversa, para que o sr. apóie o impeachment ou a renúncia?
Alencar – Sim, é claro que há. Eu, como vice, obviamente sou alvo dessas perguntas. Muitas pessoas pensam que eu estou ansioso para que haja um impeachment do Lula. Sinceramente, não há isso. O que não significa que eu não queira ser presidente. Gostaria de sê-lo, com legitimidade, não assim. É claro que é legítima a substituição do presidente pelo vice, mas não mexerei uma palha para prejudicar o Lula.
Folha – E se acontecer?
Alencar – Se acontecer, independentemente da minha vontade, eu não abro mão do cumprimento do meu dever e não abro mão também dos meus direitos.
Folha – O sr. está pronto para assumir a Presidência?
Alencar – Claro, completamente.
(…)
Folha – Se chegar alguma prova ao presidente, o sr. é favorável ao impeachment?
Alencar – Não, veja bem, eu não preciso ser a favor nem contra. A rigor, sou contra o impeachment do Lula. Se for inevitável, é outra coisa, isso não é pelo fato de eu ser a favor ou contra.
(…)
Folha – Vítima desse processo?
Alencar – Eu acho que é ele é vítima de todo esse despreparo da administração do seu partido. É só conhecer a agenda do presidente, não só interna como externamente, porque viaja muito, para saber que ele não teria espaço para estar cuidando da administração partidária.
(…)
Folha – Há uso evidentemente político dessa crise por parte da oposição, do PSDB e do PFL principalmente?
Alencar – Se estiver havendo, isto não é novidade, considerando tratar-se de um critério eminentemente político. O grande problema disso é que acabou afetando, queiramos ou não, todo o campo político e todos nós que militamos na política. Essa foi uma das grandes razões pelas quais eu me desfiliei. A contrariedade, o desconforto com que eu fiquei é justamente porque nós todos fomos atingidos, nunca podíamos imaginar que houvesse tanta coisa, é um absurdo.
Folha – O sr. está contrariado com a política em geral ou com o PL em particular?
Alencar – Eu estava muito contrariado com tudo. Não é apenas com o partido, não, é com o quadro. Tanto que eu não me filiei nem estou preocupado em filiação. Para mim é absolutamente indiferente ter condições ou não de disputar uma eleição no ano que vem.
(…)
Folha – O sr. tem disposição para disputar a Presidência em 2006?
Alencar – Nesse mundo, ninguém sabe o que vai acontecer daqui para a frente. Tudo muda, mas a política muda mais ainda. Tudo pode acontecer.
Folha – E a saúde, como está?
Alencar – Boa como nunca. Fiz uma angioplastia com aplicação de um “stent” [mola que impede a obstrução das artérias], e eles me disseram que estou zerado.
(…)
Folha – O sr. é ou não um risco?
Alencar – Devo ser, uai! Não dizem que a voz do povo é a voz de Deus? Eu me orgulho muito de ser um risco pelo que me atribuem, porque esse é um risco santo. Não há ninguém que pugne mais pelo desenvolvimento do meu país do que eu. Eu não me conformo com a estagnação, senão eu continuaria como bom vendedor, bom comerciante, na melhor hipótese. Você não pode aceitar de maneira nenhuma que um país como o Brasil arque com uma taxa de juros dez vezes superior à média internacional. É um despropósito, um desperdício. Cada um dos 180 milhões de brasileiros está pagando essa conta. Ela está errada.
Folha – Na eventualidade de ter de assumir a Presidência, o sr. mudaria a política econômica?
Alencar – Mudo essa política monetária, assessorado pelos economistas mais brilhantes e mais experientes do meu país. Imediatamente, os convidaria.
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Folha – Quem?
Alencar – Nem o próprio presidente. Ele está consciente de que essa política está correta, e é claro que discordo dele. Não posso concordar com uma coisa dessas, que é jogar dinheiro pela janela.
Folha – O sr. tem boas relações na área empresarial, na mídia, no Congresso e, agora, na área militar. Se assumir e imediatamente baixar os juros, há quem veja o “risco” de o sr. virar um candidato imbatível em 2006.
Alencar – Esse é mais um motivo para que ninguém me queira. Mas, voltando, eu sugeri para o presidente que reunisse economistas de um lado e de outro, durante o tempo necessário, até fazer um juízo. Tem alguma coisa de errado nisso?
(…)
Folha – O presidente acha que o desempenho da economia será suficiente para reelegê-lo, mas a popularidade vem caindo. Quais são as chances de reeleição dele?
Alencar – As chances dele são muito grandes. A popularidade está caindo, mas, mesmo assim, é muito alta. Essas quedas são naturais em momentos mais difíceis, mas ele poderá sair vitorioso de tudo isso. Acredito, sinceramente. E não só acredito, como torço, porque o Lula é um homem de bem. Essas coisas todas não alcançam a autoridade moral do Lula perante a Nação. O Lula é correto. O Lula e a família. Dona Marisa é uma mãe de família exemplar. Estarei leal a eles até o fim.
Folha – O sr. também é ministro da Defesa. Como os militares acompanham tudo isso?
Alencar – Não temos conversado sobre esses assuntos, mas, como brasileiros, eles estão tão preocupados como qualquer pessoa de bem. Eles são homens de elevado interesse nacional e é claro que tudo isso preocupa.
Ele se diz fiel ao presidene Lula, mas avisa que assume o cargo se algo acontecer ao petista e que mudaria a política econômica.
Entenderam a mensagem? Ele está no jogo e tem até plataforma. Sua saúde está boa (afirmação básica de quem quer assumir um cargo público) e ele, apesar de não desejar que nada de ruim aconteça a Lula, não abre mão de seus direitos… Até porque o homem que poderia suceder Alencar diretamente em um caso de, bom, você sabe, se chama Severino Cavalcante e já esté de malas prontas. No jogo de xadrez que essa situação se tornou, o PT tenta desesperadamente colocar um petista na presidência da Câmara.
Será que o genial estrategista vai morder a isca e responder a essas declarações de seu sucessor direto ao poder?
Que os órgãos de comunicação brasileiros estão eufóricos, todo mundo já notou. Mas é importante notar que a entrevista é irretocável, faz todas as perguntas que um jornalista deveria fazer ao vice-presidente nesta situação. Talvez digam que há até empenho demais. Eu digo que o que aconteceu foi de o repórter ter a sua frente alguém que estava extremamente disposto a responder…
Teorias conspiratórias, venham com tudo agora.