Meninos e meninas-sanduíche
Quanto mais passa o tempo, mais a realidade parece um romance vagabundo e clichêzão de ficção científica.
Se uns anos atrás eu dissesse pra alguém que um dia as crianças das escolas públicas iriam usar uniformes patrocinados por empresas privadas, provavelmente iriam rir da minha cara.
Digamos que, no mínimo, a gente faz pior, usando roupas pelas quais pagamos fortunas e que servem para expor as marcas dos fabricantes. Mas isso não é a mesma coisa que transformar a molecada em meninos e meninas-sanduíche, né? Daqui a pouco vai rolar estudante com “compro ouro” escrito nas costas…
Não há limites para os abusos aos quais a gente expõe as crianças, né?
Agora o o município de São Paulo resolveu que, em vez de pagar pelos uniformes nas escolas públicas, vai pedir que as empresas paguem e, em troca, coloquem seu logo nas roupitchas da molecada. (leia em Serra libera anúncio em uniforme escolar )
“O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), decidiu permitir que os uniformes escolares da rede pública municipal de ensino tenham propagandas.
Segundo a proposta, em troca da publicidade, as empresas vão bancar a compra das roupas dos 900 mil alunos beneficiados. O kit escolar incluirá agasalho, calça, meias e até roupa íntima, num total de nove peças.
A medida será viabilizada por meio de um acordo com a Abravest (Associação Brasileira do Vestuário), que irá procurar patrocinadores para os kits.
O coordenador da ONG Ação Educativa, Sérgio Haddad, afirmou que considera a idéia uma “invasão do setor privado no espaço público”.
‘A melhor maneira de as empresas ajudarem é pagando os seus impostos. Ou financiando projetos específicos. Alguém perguntou para as crianças?’”
Provavelmente, algum espertinho vai dizer que a escola não sei qual, em algum estado dos EUA, fez a mesma coisa. É o de sempre, a gente pega o que interessa e esconde o que não presta. Em “Stupid White Men” há fartas histórias de como as escolas entregaram suas cantinas a empresas privadas e logo havia uma profusão de crianças cercadas de coca-cola, hamburguers e pizzas por todos os lados. Eu me irrito quando aplicam a lógica do mercado a coisas que, não adianta, não podem usar esses parâmetros.
Mas quando a gente nasce com o tal mínimo que se espera pra ter uma vida decente, costuma esquecer de quem não teve a mesma sorte. Aí, vai escrever no Mídia Sem Máscara ou em alguma outra excrescência do tipo.
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