Saquearam ou recolheram?


Fac-símile da imagem montada pelo usuário do Flickr

A escolha de palavras é algo importantíssimo em qualquer situação, mas no jornalismo devria ser algo para chegar às raias da paranóia.

Veja o caso da cobertura das inundações em New Orleans por conta do furacão. Esta notinha no Flickr (descoberta do Boing Boing ) mostra que, enquanto a Associated Press diz que um negro saqueou (“loot” no inglês) uma loja, a France Presse pega leve e diz que as pessoas acharam (usa o termo “find”) coisas.

Seria racismo? Teve que dissesse que AP usa “looters” sempre. O diagnóstico exige uma análise mais detalhada de como as agências se referem a esses casos. Pode ser apenas um evento em que uma pessoa atenta filtrou um mero escorregão. Eu, sinceramente, voto na tese do racismo. Mas é só a minha opinião.

Um outro termo muito discutido é o emprego da palavra terrorista. Diversos serviços noticiosos evitam usa-lo, porque sabem que “terrorista” é algo muito relativo. Um governo, honesto ou não, sempre qualifica seus opositores armados de terroristas e cabe aos jornalistas não embarcarem na propaganda. Há então alternativas como “grupo armado”, “radicais” ou outro termos que, embora tenham seu peso e sua qualificação implícita trazem menos bagagem negativa do que “terrorista”. Um bom assunto para discutir no almoço…

A canção sem graça e a opera rock

Não sou muito fã de testes, não. Acho uma chatice, mas não resisti a fazer um sobre um dos meus prazeres proibidos: Buffy – A Caça-Vampiros.

É daqueles em que você responde uma pá de perguntas pra descobrir que personagem da série você é. Pois é, eu temia que fosse sair um Angel, que eu acho um personagem mala pra dedéu. Cara chorão, chato, metido a certinho.

Felizmente, saiu:

SPIKE
63% amorality, 54% passion, 27% spirituality, 54% selflessness
Ruthless, passionate, ravenous and–when it comes to it–devoted to those you love. Sound okay? Sounds like Spike, a character at times a hero and others a villain, but always compelling, dynamic and driven.

Based on the results of this test, you’re like Spike in every way but the fangs.

Cool. Eu prefiro o cara que era o vilão e que conquistou as coisas com a própria força de vontade, se tornando um anti-herói cheio de defeitos. Angel é um chato que ficou choramingando porque a alma o encheu de remorso. Spike é o cara que foi passar por provas de coragem e resistência para conseguir de volta sua alma e se tornar digno do amor da mocinha. Angel é uma musiquinha vagabunda de uma só nota que nem com cinco anos de série só pra ele conseguiu ganhar alguma complexidade. Spike, por sua vez, é uma ópera rock.

Bom. Eu sempre, sempre prefiro rock.

Meninos e meninas-sanduíche

Quanto mais passa o tempo, mais a realidade parece um romance vagabundo e clichêzão de ficção científica.

Se uns anos atrás eu dissesse pra alguém que um dia as crianças das escolas públicas iriam usar uniformes patrocinados por empresas privadas, provavelmente iriam rir da minha cara.

Digamos que, no mínimo, a gente faz pior, usando roupas pelas quais pagamos fortunas e que servem para expor as marcas dos fabricantes. Mas isso não é a mesma coisa que transformar a molecada em meninos e meninas-sanduíche, né? Daqui a pouco vai rolar estudante com “compro ouro” escrito nas costas…

Não há limites para os abusos aos quais a gente expõe as crianças, né?

Agora o o município de São Paulo resolveu que, em vez de pagar pelos uniformes nas escolas públicas, vai pedir que as empresas paguem e, em troca, coloquem seu logo nas roupitchas da molecada. (leia em Serra libera anúncio em uniforme escolar )

“O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), decidiu permitir que os uniformes escolares da rede pública municipal de ensino tenham propagandas.

Segundo a proposta, em troca da publicidade, as empresas vão bancar a compra das roupas dos 900 mil alunos beneficiados. O kit escolar incluirá agasalho, calça, meias e até roupa íntima, num total de nove peças.

A medida será viabilizada por meio de um acordo com a Abravest (Associação Brasileira do Vestuário), que irá procurar patrocinadores para os kits.

O coordenador da ONG Ação Educativa, Sérgio Haddad, afirmou que considera a idéia uma “invasão do setor privado no espaço público”.

‘A melhor maneira de as empresas ajudarem é pagando os seus impostos. Ou financiando projetos específicos. Alguém perguntou para as crianças?’”

Provavelmente, algum espertinho vai dizer que a escola não sei qual, em algum estado dos EUA, fez a mesma coisa. É o de sempre, a gente pega o que interessa e esconde o que não presta. Em “Stupid White Men” há fartas histórias de como as escolas entregaram suas cantinas a empresas privadas e logo havia uma profusão de crianças cercadas de coca-cola, hamburguers e pizzas por todos os lados. Eu me irrito quando aplicam a lógica do mercado a coisas que, não adianta, não podem usar esses parâmetros.

Mas quando a gente nasce com o tal mínimo que se espera pra ter uma vida decente, costuma esquecer de quem não teve a mesma sorte. Aí, vai escrever no Mídia Sem Máscara ou em alguma outra excrescência do tipo.

A decepção é vermelha

Cada vez que o presidente resolve falar, há uma esperança de que diga algo substancial, que dê um rumo para a crise e que mostre que é estadista. Todas as vezes, tem sido uma decepção.

Na hora de atravessar essa crise que parece não ter fim, com situações mais e mais humilhantes e estarrecedoras, Lula foi um fiasco porque:
- não fez o que se esperava dele. Leia-se, mudar os rumos da política brasileira, ditar uma agenda mais preocupada com o país de uma forma global e não só com quem tem dinheiro, pele branca e berço de, no mínimo, madeira de lei;
- se envolveu ou deixou que seus colegas e comandados se envolvessem em um lista enorme de falcatruas;
- quando ouviu tudo o que estamos ouvindo, em vez de tomar atitudes e mostrar que queria realmente resolver a situação se calou, se recolheu e hesitou, hesitou e hesitou…

E quando fala, ignorando todos os princípios do discurso bem urdido, estratégico, adianta a agenda das discussões colocando na pauta os termos “suicídio”, “deposição” e “renúncia”.

Ele resolveu falar dos presidentes anteriores, se mirar neles, e deixou sair da sua boca as três palavras mágicas. Citou também a paciência de JK, para justificar sua total omissão, mas não colou. Não sou nenhum expert, mas sei o suficiente desse negócio pra entender que não é ele quem deve dizer palavras como essas para não facilitar as coisas. Mas ele diz, revelando que não tem estratégia, não tem reflexão nenhuma, vai só improvisando tudo de um jeito bronco, simplista. Nada de esperteza, de inteligência, de malandragem. Lula só vai revelando que foi uma aposta vazia.

Sim. Uma aposta. Eu votei nele em 2002. Ainda acho que ele não é pior do que outros candidatos por aí e que o que está acontecendo é um linchamento público feito com muito prazer pela mídia de centro e de direita, feliz porque destruiu o grande mito das esquerdas. Mas o grande problema não é eu não achá-lo pior. Eu não o acho ele melhor também. E houve tempo em que eu achava.

Algumas pessoas dizem que a essência da crise foi a arrogância do PT, que não queria se misturar com os partidos de direita, mas, precisando deles, resolveu comprá-los, porque são “representantes do capital corrupto”. Lindo, lindo, se isso fosse um filme, né? Mas não é.

Outro argumento de um amigo meu é o de que não há muita diferença entre comprar votos no congresso com cargos ou com dinheiro. Do ponto de vista de quem está recebendo o jabá, pode não fazer diferença. Mas do ponto de quem está pagando, há a questão de que esse dinheiro tem que sair de algum lugar. No caso do PT saiu de falcatruas mil, de propinas. Dinheiro sujo. Vindo de um político tradicional, eu diria que ele tem que ir pra cadeia por isso e não votaria nele. Por que é que, quando eu vejo o PT fazendo isso eu teria que preferir uma conduta diferente? Esse papo de que, “eeeeleeees fazem também” não cola.

Então vamos tomar cuidado, claro, porque a euforia da imprensa é visível e, como eu disse, está rolando um linchamento do PT, como se fosse o único partido cometendo crimes e irregularidades. Mas, comprovadas denúncias, não há o que fazer além de punir todo mundo.

Vade retro

Mas então agora o metrossexual foi pro espaço e a moda é ser… Errr… Retrossexual?

Pô. Retrossexual? Homem que é retro da ré? Não sei não.

Foi por isso que rolou esse outro termo, o Ubbersexual, hein? Pra dizer que o cara que é retro (uia!) na verdade é muito macho. Nossa, mas tem outra piada prontinha pra esse papo de ser muito, muito macho.

Aliás, todo papo de ficar se preocupando com essas coisas de provas de masculinidade e potência é de uma babaquice atroz que só me faz pensar em mais e mais piadas. Bom, esse papo de metrossexual já era uma idiotice enorme.

O problema é que os retro ou ubber não consomem tantos creminhos quanto os metro. Isso é ruim para a indústria de cosméticos que vai inventar alguma outra coisa pra dar um jeito de incluir os homens na sua lista de consumidores. Lá vem mais papo de marketing que todo mundo engole sem pensar.

Eu tenho que ver esse filme!!

Eu sei que “Chaos” deve ser violento, racista, grosseiro, cru e tudo mais que você puder inventar. Mas, se o Roger Ebert diz que é um filme pra não ser visto, então é o momento em que eu tenho que ir ver. Seja aonde for. Que hora for.

Ebert é um bom termômetro do senso comum. É um cara legal, entende de história do cinema, mas, como eu disse, é um parâmetro perfeito do médio, o que todo mundo está fazendo e, quando vê algo diferente, não sabe muito bem o que pensar. É a hora em que um filme se torna obrigatório.

Sonhando acordado

Um dos melhores críticos de quadrinhos do Brasil, que não trata HQs com aquela indulgência infantil e protetora e sim como um produto cultural de verdade, também sabe sonhar:

(…) Da mesma forma que West Wing não existe, não existe um Brasil. Não existe PT. Não existe crise nacional. Países, partidos e crises são ficções, narrativas, coisas que a gente constrói mentalmente sobre o mundo pra resumí-lo. O que existe são pessoas, terra e sonhos. Tem uma linha, que ninguém viu, que separa um território do resto do planeta, e carteirinhas que dizem que você está associado a outras pessoas – que só funcionam se você acreditar nelas, se entrar na ficção. Tomar elas por realidade é algo que você não devia fazer.

Meu Brasil é minha casa, as ruas da cidade, passear na praça de noite e sair de carro pela estrada. Mais importante: são meus amigos, meu amor, meu idealismo, meu sonho de mudar a vida dos outros e a minha, as pessoas que me alegram, que eu encontro, que eu quero perto. É minha família, a atual e a futura.”

Pô, Érico, vê se colocar permalink no seu site, cara.