
Em “Guerra dos Mundos”, Steven Spielberg se preocupa, como de costume, em proteger os olhos da pequena heroína dos horrores do mundo
Eu estava desanimado com “Guerra dos Mundos” e a iniciativa do estúdio de fazer os jornalistas assinarem um embargo de publicação de resenhas a dois dias da estréia mundial de um filme não ajudou em nada meu humor.
Para quem não sabe, a obra é baseada livremente no livro homônimo de H.G.Wells, que fala do dia em que a terra foi invadida por habitantes de Marte. No filme, não há nenhuma determinação do planeta do qual nossos inimigos vieram e a história se passa nos dias de hoje.
Mas, para minha surpresa sincera, o filme é uma verdadeira montanha russa como eu não via Spielberg fazer há muito tempo. O filme não está livre dos defeitos que assolam a obra do diretor e que começam a se tornar mais e mais irritantes, mas é tão cheio de energia, tão primorosamente idealizado para deixar você apavorado na cadeira, que me foi impossível não gostar.
A edição de som é esplendorosa, a música lembra grandes momentos de “Tubarão” e há sequências de tirar o fôlego do fã mais caxias. Em uma delas, a câmera persegue o carro no qual Cruise e sua família fogem. É um enorme plano sequência no qual a câmera gira ao redor do carro em movimento, se aproximando e se afastando, dando detalhes do diálogo e da ação dentro e fora do veículo. É um primor de técnica absolutamente a serviço da história e da narração.
O grande acerto é contar a história do ponto de vista do personagem de Tom Cruise e sua família, pessoas absolutamente comuns que apenas tentam sobreviver. Assim, o espectador acompanha somente o que os personagens vêem e sabem e é isso que torna a situação mais e mais aterradora. Nada de presidentes, militares e outros personagens que salvam o dia. Sobreviver já é uma vitória.
Spielberg é considerado um liberal, mas suas mensagens são esquizofrênicas. Ele ironiza o medo de terroristas, afirma que ocupações longas nunca dão certo e, ao mesmo tempo, passa a forte mensagem de que é preciso abrir mão de seus filhos para uma boa causa e entregá-los ao exército.
Na mesma linha, o personagem de Cruise tem momentos de Roberto Benigni em “A Vida é Bela” quando tenta evitar que sua filha veja todo o terror do holocausto que dizima milhões de americanos. É uma obsessão do diretor e, parece, dos americanos, proteger a inocência (deles e, no caso, dos filhos) a todo custo. O mundo está acabando e o pai-protagonista dá enorme importância a não deixar sua filha ver o que está acontecendo ao seu redor. Melhor ainda, o herói de Cruise acha que tem um doloroso trabalho a fazer. Ele diz pra sua filha fechar os olhos e cantar uma canção de ninar e se lança em sua missão. Ela sabe que algo errado e ruim está acontecendo, mas obedece as ordens do pai. Ele faz algo horrível, moralmente condenável. Ambos se enganam que está tudo sob controle e a vida segue seu rumo. Será que isso acontece em algum lugar por aí?
O termo holocausto, usado logo aqui em cima, é pertinentíssimo nos diversos momentos em que as situações vividas pelos heróis de “Guerra dos Mundos” geram um deja vu do flagelo dos judeus em “A Lista de Schindler, obra mais aclamada do diretor. Ainda nesta linha, a menina é quase que um tesouro a ser protegido a todo custo pelo herói e seus olhos passam uma força impressionante. São eles que são escondidos em uma das cenas mais fortes do filme que, por mais impressionante que seja, não envolve ETs.
Aliás, é interessante fazer uma analogia entre o que vivem os americanos sendo invadidos por um poder que em tudo lhes é superior e o que passaram os iraquianos quando tiveram seu país invadido por um exército da maior superpotência do planeta. Pena que não há um Tom Cruise árabe para nos dar um ponto de vista do que aconteceu.
Ao contar uma história sobre seres humanos expostos a uma situação extrema, o diretor reencontra o grande público com estilo. Há um escorregão na sequencia final, completamente despropositada e com cara de ter sido filmada depois da fase original de produção de tanto que destoa do resto. Mas esse escorregão, no fim das contas, acaba sendo mais uma prova de que Spielberg estava mesmo com vontade de se reencontrar com os fãs e dar-lhes algo que eles estavam pedindo há algum tempo, um filme para assustá-los, arrepiá-los e, ao fim, dizer-lhes que tudo está bem e que, por pior que seja a crise, tudo vai dar certo no final. A realidade anda precisando combinar as coisas com ele ou os americanos, como a filhinha do herói, precisam tirar a venda e parar com as canções de ninar.