Havia um armário no meio do caminho

Não tem papo. Quando um homem como Roberto Jefferson aparece com um olho roxo e diz que se machucou com um armário, é óbvio que ele sabe que ninguém vai engolir a história e que todo mundo vai tentar descobrir o que foi que realmente aconteceu.

E você sabe como essas pessoas são,né? De repente, alguém mandou dar uma amassada na cara do nobre deputado. Mas e se, sabendo que eu saberia que ele sabe que eu sei que ela sabia que eu imaginaria que ele sabe que eu sei, o homem resolveu, assim, a título de pura diversão, pedir que alguém deixasse seu olho roxo. Nossa, faz mesmo muito sentido, ehehehehe.

Ou então, armário é o apelido daquele segurança enorme do… Do… Põ, não vou contar, né? Tá achando que eu quero ficar com o olho roxo depois de encontrar um armário por aí?

Aperte os cintos, o diretor sumiu


“Quarteto Fantástico”, nova bomba da Marvel, é filme sem direção

O “Quarteto Fantástico” tem o mérito de ser o gibi que deu origem, em 1962, à era Marvel, em que os heróis viviam em cenários do mundo real (Nova York), passavam por problemas com os quais os leitores seriam capazes de se identificar e as histórias tinham a lógica da continuidade como em uma novela.

Mas foi só. Depois de fazer muito sucesso nos anos 60, os personagens começaram a se repetir e viraram coadjuvantes. Só voltaram a fazer sucesso quando John Byrne escreveu e desenhou suas histórias na virada dos anos 70 para os 80. Depois disso, foi ladeira abaixo. Tédio e muita, muita chatice, com novos roteiristas surgindo a cada dois anos e garantindo que tinham achado um jeito de fazer aqueles personagens booooring fazer sentido. Claro que tudo sempre acabava com a revista cada vez mais em baixa.

Pois esses personagens que hoje são de segundo escalão, se muito, geraram “Quarteto Fantástico”, produção que é a prova de que filmes de super-heróis seguem o mesmo princípio de quaisquer outros: com bons diretores, são uma beleza. Com diretores ruins, salve-se quem puder. Juntam-se a bombas do quilate de “Demolidor”, “Elektra”, “O Justiceiro”, “Mulher Gato” e “Liga Extraordinária”, porcarias da nova safra de adaptações de histórias em quadrinhos.

Basta olhar o elenco. Não há ninguém ali que tenha alguma expressão. Até os extras estão mal dirigidos. Quem é Jessica Alba (ok, fez “Dark Angel”, bomba que só sobreviveu por dois anos na TV porque era produzida por James Cameron), who the hell is Ioan Gruffudd, Chris Evans? Fala sério. Julian McMahon, que errr… “interpreta” o Dr. Doom, é salvo por uma direção segura em “Nip/Tuck”, mas aqui ele é tão ruim quanto sempre foi em “Charmed”. Sem alguém que lhe diga direito o que fazer, e sem talento, um canastrão é só mais um rostinho bonito e perdido na tela. Eu podia ser bonzinho e dizer que Michael Chiklis, de “The Shield” é a única coisa que presta como O Coisa. Mas eu estaria mentindo, porque ele está mal também. Com tanta gente de TV ou do terceiro escalão de Hollywood, só podia dar mesmo em um filme de cinema com jeitão de coisa feita para a TV.

Olhe para o elenco de Batman: Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman, Liam Neeson. Olhe para o de “Quarteto”. Não há nada que se dê valor aqui.

A direção de arte confunde filme-famíla com filminho em que todo mundo tem cabelinho no lugar, impecável, limpinho. Dá vontade de vomitar, porque tudo parece de plástico. A pele de pedra do Coisa, a pele de metal do Dr. Doom. Plástico all the way. A fotografia é mesmo de filme de TV, toda bonitinha, coloridinha. Um lixo, parece filme feito pra criança burra.

O roteiro é de uma indigência a toda prova. Bem Grimm se vê com aquela pele de pedras e resolve ir contar pra mulher de um jeito que, em vez de traduzir a dor dele, apenas arranca risadas. A coitada diz que tem uma surpresa para ele, ao que o pobre monstro responde “também tenho uma surpresa pra você” (acredite se quiser, ele diz isso). Tem até a mulher dele descendo pra rua de babydoll (!!!) com pernocas saradas de fora e rejeitando ele ali mesmo, desesperada, enquanto ele diz “Mas você prometeu que iria ficar comigo em qualquer situação…”. Depois, os caras criam uma das mais ridículas cenas de reencontro que eu já vi, com uma série de coincidências na ponte do Brooklin. E você logo vê que o “Quarteto” tem um futuro brilhante quando Reed pede a Sue Storm que fiquei invisível para passar por uma multidão. Eles se enrolam, o plano não funciona, não tem fundamento e não leva a lugar nem vantagem nenhuma. Um vexame.

Os equívocos vão se empilhando, com situações que não aparecem hoje nem em filme infantil. Tudo se resolve de um jeito inverossímil, sem lógica, os atores estão completamente perdidos e cenas que deveriam ter peso dramático soam apenas engraçadinhas. Em resumo, o diretor é completamente incompetente. Tim Story é o responsável por uma bomba chamada “Taxi” (aquela porcaria com Gisele Bundchen). E prova que não é só o bom e velho carro de praça que ele não tem a menor condição de conduzir.

De olhos bem fechados para a realidade

Em “Guerra dos Mundos”, Steven Spielberg se preocupa, como de costume, em proteger os olhos da pequena heroína dos horrores do mundo

Eu estava desanimado com “Guerra dos Mundos” e a iniciativa do estúdio de fazer os jornalistas assinarem um embargo de publicação de resenhas a dois dias da estréia mundial de um filme não ajudou em nada meu humor.

Para quem não sabe, a obra é baseada livremente no livro homônimo de H.G.Wells, que fala do dia em que a terra foi invadida por habitantes de Marte. No filme, não há nenhuma determinação do planeta do qual nossos inimigos vieram e a história se passa nos dias de hoje.

Mas, para minha surpresa sincera, o filme é uma verdadeira montanha russa como eu não via Spielberg fazer há muito tempo. O filme não está livre dos defeitos que assolam a obra do diretor e que começam a se tornar mais e mais irritantes, mas é tão cheio de energia, tão primorosamente idealizado para deixar você apavorado na cadeira, que me foi impossível não gostar.

A edição de som é esplendorosa, a música lembra grandes momentos de “Tubarão” e há sequências de tirar o fôlego do fã mais caxias. Em uma delas, a câmera persegue o carro no qual Cruise e sua família fogem. É um enorme plano sequência no qual a câmera gira ao redor do carro em movimento, se aproximando e se afastando, dando detalhes do diálogo e da ação dentro e fora do veículo. É um primor de técnica absolutamente a serviço da história e da narração.

O grande acerto é contar a história do ponto de vista do personagem de Tom Cruise e sua família, pessoas absolutamente comuns que apenas tentam sobreviver. Assim, o espectador acompanha somente o que os personagens vêem e sabem e é isso que torna a situação mais e mais aterradora. Nada de presidentes, militares e outros personagens que salvam o dia. Sobreviver já é uma vitória.

Spielberg é considerado um liberal, mas suas mensagens são esquizofrênicas. Ele ironiza o medo de terroristas, afirma que ocupações longas nunca dão certo e, ao mesmo tempo, passa a forte mensagem de que é preciso abrir mão de seus filhos para uma boa causa e entregá-los ao exército.

Na mesma linha, o personagem de Cruise tem momentos de Roberto Benigni em “A Vida é Bela” quando tenta evitar que sua filha veja todo o terror do holocausto que dizima milhões de americanos. É uma obsessão do diretor e, parece, dos americanos, proteger a inocência (deles e, no caso, dos filhos) a todo custo. O mundo está acabando e o pai-protagonista dá enorme importância a não deixar sua filha ver o que está acontecendo ao seu redor. Melhor ainda, o herói de Cruise acha que tem um doloroso trabalho a fazer. Ele diz pra sua filha fechar os olhos e cantar uma canção de ninar e se lança em sua missão. Ela sabe que algo errado e ruim está acontecendo, mas obedece as ordens do pai. Ele faz algo horrível, moralmente condenável. Ambos se enganam que está tudo sob controle e a vida segue seu rumo. Será que isso acontece em algum lugar por aí?

O termo holocausto, usado logo aqui em cima, é pertinentíssimo nos diversos momentos em que as situações vividas pelos heróis de “Guerra dos Mundos” geram um deja vu do flagelo dos judeus em “A Lista de Schindler, obra mais aclamada do diretor. Ainda nesta linha, a menina é quase que um tesouro a ser protegido a todo custo pelo herói e seus olhos passam uma força impressionante. São eles que são escondidos em uma das cenas mais fortes do filme que, por mais impressionante que seja, não envolve ETs.

Aliás, é interessante fazer uma analogia entre o que vivem os americanos sendo invadidos por um poder que em tudo lhes é superior e o que passaram os iraquianos quando tiveram seu país invadido por um exército da maior superpotência do planeta. Pena que não há um Tom Cruise árabe para nos dar um ponto de vista do que aconteceu.

Ao contar uma história sobre seres humanos expostos a uma situação extrema, o diretor reencontra o grande público com estilo. Há um escorregão na sequencia final, completamente despropositada e com cara de ter sido filmada depois da fase original de produção de tanto que destoa do resto. Mas esse escorregão, no fim das contas, acaba sendo mais uma prova de que Spielberg estava mesmo com vontade de se reencontrar com os fãs e dar-lhes algo que eles estavam pedindo há algum tempo, um filme para assustá-los, arrepiá-los e, ao fim, dizer-lhes que tudo está bem e que, por pior que seja a crise, tudo vai dar certo no final. A realidade anda precisando combinar as coisas com ele ou os americanos, como a filhinha do herói, precisam tirar a venda e parar com as canções de ninar.

O tempo e os DVDs

Da minha viagem aos EUA, ainda trouxe o DVD do filme “Primer”, obrigatório para um rato de filmes de viagem no tempo como eu…

È uma produção barata (o diretor diz que fez com US$ 7 mil) que deixa suas precariedade transparecer, mas é tão bem executadinho (diante das circunstâncias) que impressiona o espectador mais permissivo quanto à qualidade técnica. O legal é que mostra dois amigos engenheiros que montam uma máquina do tempo na garagem e inventam uma forma de usar sua criação para ficar ricos. No entanto, começam a se complicar com a quantidade de variações que suas mudanças na realidade começam a causar. Fala de moralidade, amizade e, mais que tudo, de confiança.

* * *

Vi “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” de novo e, de novo, chorei que nem um bebê.

* * *

Da mesma viagem, eu trouxe a edição especial de “Donnie Darko”. Ainda não vi.

Mais um round para Stallone

Eu fui umas semanas atrás para Las Vegas cobrir a final do reality show “O Desafiante” (exibido aqui no Brasil pelo canal People + Arts). Foi divertido conhecer a cidade mais maluca do mundo. É tudo enorme e extravagante em Las Vegas, com aqueles hotéis malucos que funcionam 24 horas arrancando cada centavo dos incautos. Tem reprodução de Veneza, Paris, Nova York, pirâmides, Roma, mil e uma noites, ilha do tesouro e mais um monte de coisas muito, muito estranhas…

A prostituição é instituída. Em vez de receber panfletinhos de “compro ouro”, você dá de cara com uma velhinha te entregando um “santinho” (eu não resisti a usar o nome…) com fotos coloridas de mulheres provocantes que oferece duas prostitutas orientais ou russas por apenas US$ 99. E elas chegam no quarto do seu hotel em apenas 20 minutos(!).

Lá, entrevistei Sylvester Stallone, astro dos anos 80 que hoje anda bem em baixa, lançando filmes de quinta categoria. Não por acaso, ele promete Rocky 6 e Rambo 4 para o próximo ano, o que significa que ele acha que vai voltar às boas…

Mas dele saiu “O Desafiador”, que é bacana até pra quem não gosta de boxe. Ali, é possível conhecer a história dos vencedores e dos perdedores. E quem é derrotado, por não ter sido vilanizado, ganha também a afeição do público.

Eu escrevi um artigo para a “Época” desta semana sobre Stallone e sua tentativa de voltar às boas, tendo como foco o reality show. Dê uma conferida no site da revista.

Não precisa pagar pra ler, basta se cadastrar.

“Caras” e “Quem”, aí vai ela!!

No topo, a página dupla da revista “Viva Mais”, com reportagem sobre a Helenice, seu blog e suas dicas, ainda nas bancas para seu deleite. E logo acima, a reportagem de 2001 para a NET TV. No Fantástico, ela ia logo ganhar um apelido como “mamãe tecnológica” ou “mamãe do PC”… E, ah, aquele na telinha é o Cris(!)

A mãe do Cris é fogo. Volta e meia, lá está ela em alguma reportagem por aí. Alguns anos atrás, eu fiz uma sobre teleconferência e perguntei se ela aceitava ser fotografada e entrevistada. É que ela, pra matar as saudades do filho, gostava de usar webcam sempre que possível como uma forma de saber se ele estava mesmo bem.

Nesse meio tempo, já completamente à vontade com tecnologia, ela fez um blog divertido e que merece ser visitado sempre, o DIVAGANDO. Ali, ela parabeniza os amigos por aniversários e outras datas especiais, conta histórias e dá dicas de simplesmente tudo que você pode imaginar, inclusive de soluções na própria rede.

É por essas e outras que foi uma festa quando, uns anos atrás, o Cris deu pra ela, de aniversário, um domínio próprio. Seu site é uma curtição só (para ela e para nós) que prova que, quando uma pessoa se interessa e está aberta a aprender, não faz diferença a idade que tem.

O Cruise que o Tom quer ser


Tom Cruise no Today Show e sendo alvo de pegadinha em Londres

Eu tô tentando evitar falar dessa enxurrada de notícias sobre o Tom Cruise, mas está difícil. Toda semana tem um mico novo, uma piada nova algo que só o rebaixa do patamar anterior de estrela número 1 de Hollywood, como a revista “Premiere” o elegeu alguns meses atrás.

O cara está com 42 anos, tem um currículo invejável de filmes bacanas e fez dinheiro com mais ninguém em sua categoria foi capaz. Sempre foi comedido, tranquilo, preocupado com sua intimidade. Todo mundo o respeitava e adorava até mais ou menos uns seis meses atrás.

O que sempre me causou incômodo em Cruise foi sua mania de colocar extras cada vez mais elogiosos nos seus filmes. Era um tal de coordenador de dublês dizendo que o ator fazia todas as cenas perigosas e que era forte e destemido e coisas do tipo. Estava na cara que o ego já não estava lhe cabendo no corpo diminuto…

E por que, subitamente, ele parece ter mudado completamente? Paga micos, fala abertamente sobre seu namoro com aquela mala da Katie Holmes, é humilhado por pegadinhas antes reservadas a gente de nivel estelar bem inferior e chega a ser sacaneado em entrevistas para revistas como a que ele deu para a “Entertainment Weekly” e, na última sexta, ao programa “Today Show”, da NBC?

Esta última é a prova de como Cruise entrou em um ciclo negativo no qual até quando fala algo coerente é ridicularizado. Ao ser questionado sobre suas opiniões a respeito de psiquiatria, se inflamou e começou dizer o que achava realmente. Como nunca se viu Tom Cruise na TV falando de coisas sérias, o que se seguiu foi mesmo surpreendente. Ele defendeu suas idéias com paixão (e com alguma arrogância, mas tudo bem) e tocou em um assunto que parece que todos estão fugindo, o de que as drogas psiquiátricas estão sendo usadas indiscriminadamente como uma solução mágica. Cruise ficou indignado e disse, “você devia ser mais responsável, é o apresentador do Today Show!!”.

Astros não são pagos para ter opinião, mas sim para gerar milhões em ingressos. Cruise quer ter relevância e falar do que pensa. Essa pode ser sua ruína, já que, ao revelar que pensa de um jeito, vai desagradar potenciais espectadores.

O motivo de tantos, digamos, equívocos mercadológicos, está em uma sutil mudança nos bastidores. É que Cruise mudou de publicist cerca de dois anos atrás. Antes era uma das mais temidas e respeitadas estrategistas de imagem dos Estados Unidos, Pat Kingsley. Agora, quem faz este trabalho é sua irmã e, claramente, há algo errado.

Nas mãos de um profissional experiente e tarimbado, a imagem de um astro como Cruise foi moldada em cima de tópicos como mistério e o controle do que e do quanto se falava. Pessoas como Kingsley fazem que seus clientes calem a boca e deixem de falar de coisas que os possam prejudicar. Assim, Cruise foi censurado por ela durante anos e falava pouquíssimo de cientologia ou de qualquer outro assunto mais sério. Considerando que John Travolta terminou de afundar sua carreira renascida justamente porque ficou cego e obcecado por adaptar “Campo de Batalha: Terra”, obra escrita por L. Ron Hubbard, o criador da religião, dá pra se notar para onde Cruise pode estar rumando…

O caso de Cruise é uma lição interessante a respeito de como uma imagem pode ser construída. Ou ainda, sobre como é ainda mais superficial do que parece o universo da celebridade, da fama. Como eu já disse lá em cima, se você quer ter milhares de fãs, precisa ter a opinião mais neutra possível. Quanto mais assume posições políticas e ideológicas, mais limita seu público. Quem discordar de você, vai abandoná-lo. O que Tom Cruise quer ser? Será que ele está ciente dos riscos ou é só um bonitão descerebrado e egocêntrico que vai se afundar porque acha que é capaz de se mover no campo de sua ex-publicist. Mas o astro deve ter o número do celular de Kingsley em speed dial… Se não estiver seriamente comprometido com a idéia de ser ele mesmo, custe o que custar, é bom que aperte logo esse botão.

Deixem meu vison em paz

O artigo O Rio é uma grande Daslu, de Antonio Gois, trata com ironia e lucidez a forma como nos organizamos por aqui:

A elite carioca deve estar com o orgulho ferido por ver sua irmã paulistana ganhar tanta atenção por causa da inauguração de uma Daslu vizinha à favela Coliseu.
Justiça seja feita: essa idéia de escancarar o luxo e de colocá-lo vizinho à miséria é genuinamente do Rio. Foi aqui que se criou Ipanema ao lado do morro do Pavão-Pavãozinho ou o Leblon colado ao Vidigal.

(…)

Chegou-se a criar um mito de que, por causa dessa proximidade, essa seria uma cidade mais democrática. Aqui, classe média ouve samba e funk e acha muito bacana, desde que, obviamente, suas meninas não se envolvam com os garotos do morro.
São Paulo foi mais explícita. Mandou derrubar “saudosas malocas” para construir “edifícios altos”. Foi, assim, colocando os pobres em seu devido lugar: bem longe da riqueza.

(…)

Em comum às duas elites, no entanto, está a eficiência com que executaram seus projetos de exclusão. Como mostraram os historiadores Manolo Florentino e João Fragoso no livro “O Arcaísmo como Projeto”, é falsa a idéia de que o Brasil fracassou como nação por causa da explosão de desigualdade.
Muito pelo contrário. Nosso projeto foi um sucesso. Faltou deixar claro apenas que o objetivo era mesmo este: criar uma pequena Daslu no meio de uma imensa Rocinha.

Os arautos da direita, sempre escondidos atrás de discursos empolados pseudointelectuais, adoram dizer que isso é besteira e que pobreza é o resultado de um monte de gente sem vontade de trabalhar.

Não precisa nem fingir inteligência para notar que, em qualquer lugar do mundo no qual essa questão da exclusão é tratada com desprezo, o efeito é apenas violência crescente e choques e convulsões sociais. Aqui, a gente inventa um vilão, coloca uma grade nova, contrata seguranças, blinda o carro (quem pode) e segue sem olhar pros lados. Pobres de nós.

O melhor morcego


O homem-morcego em uma cena de tirar o fôlego em “Batman Begins”

“Batman Begins” não precisava de muito para ser melhor do que os quatro filmes anteriores do herói das histórias em quadrinhos. Não precisava, mas oferece material de primeira. O que não significa que seja um filme perfeito.

A história da origem é ótima. O diretor Christopher Nolan (“Amnésia”) constrói o filme com habilidade e conduz com carinho a atuação de Christian Bale como Bruce Wayne. Assim, o primeiro grande erro dos outros filmes está corrigido. Temos um personagem em vez de um manequim de papelão. Bale demonstra fúria, medo, dúvida. Ao seu redor, estão Michael Caine como Alfred o mordomo-pai de Bruce, Gary Oldman (fugindo que nem o diabo da cruz de novos papéis de vilão amalucado) como o sargento Gordon, Liam Neeson todo mestre jedi pra cima do herói e Morgan Freeman como Lucius Fox, o amigo de bruce dentro da corporação Wayne. Sim, sim, tem ainda a Katie Holmes, que você nem ia saber quem é se ela não estivesse saindo com Tom Cruise para revigorar a imagem dele junto ao público jovem. Mas, caramba, ela está completamente perdida, sem nenhuma força. Foi feita para papéis menores, em filmes menores. Não tem o que é preciso para ser a mocinha de um personagem como o Batman.

Toda a construção do mito do Batman é explicada de um jeito que o ato de um homem de colocar uma roupa de morcego parece completamente normal quando o personagem surge na segunda hora de projeção. Você só consegue pensar que aquilo tudo faz sentido e que deviam existir heróis mascarados na vida real, afinal. Aliás, Nolan aborda o material de uma forma completamente realista. Digo, aparentemente realista, claro. Ele faz tudo aquilo parecer completamente plausível.

De todo modo, ia tudo muito bem se não fosse a necessidade de sustentar o terceiro ato do filme, aquele momento final em que o herói enfrenta os desafios, vive o climax e resolve os conflitos. Para tanto, era preciso uma segunda trama que o roteirista se empenha em tornar complicada e revolta. Essa trama soa exagerada, desnecessariamente fantástica e completamente inverossímil. Quase estraga um filme delicioso de tão bem feito.

P.S.: O engraçado é que, na essência, o que Nolan fez foi copiar a fórmula do primeiro filme do “Homem-Aranha”. Origem cheia de emoção e vilão ruim que vira trama forçada para o terceiro ato. Eu gostei tão pouco do Duende Verde do primeiro filme que fiquei desesperado quando vi que o personagem deve voltar no terceiro…

Sobre as imagens e as tais mil palavras


Imagem da manchete da primeira página da Folha de São Paulo do dia 16 de junho de 2005

Quando eu vejo uma imagem como essa (que se relaciona com a reportagem Lula vê “situação grave” e quer reforma para afastar Dirceu), lembro porque a editoria de fotografia da Folha tem sido a melhor do país nos últimos anos.

Pode-se dizer que isso é ser tendencioso, que isso é manipular a verdade. Pode-se dizer um monte de coisas, mas nunca que o fotógrafo mandou o presidente fazer a pose desejada. A escolha da foto certa no momento certo é a prova de que uma imagem diz mais que mil palavras.

O fotógrafo pegou uma fração de segundo do movimento de Lula que dá a sensação de que ele está prestes a fuzilar José Dirceu. Junte a isso a fantástica sombra que evoca os filmes de terror e suspense antigos e você tem uma imagem para ganhar prêmios.