And the oscar goes to… Yoda

O nascimento de Darth Vader é o ponto culminante da saga
Como é que se julga um filme como este último “Star Wars”? Vejamos… Se você for um não iniciado na mitologia, ainda assim consegue curtir? Provavelmente, não. Mas, cá entre nós, quem resolve ir ver só o terceiro episódio está pedindo pra não entender nada mesmo.
Então ficamos com duas gerações de pessoas que cresceram conhecendo a série. Eu, por exemplo, não sou nada fanático pelos heróis de Star Wars. Quem gosta de verdade é o Cris. Eu sei quem é quem, embora confunda os nomes de vez em quando. Mas é o suficiente para não me perder no meio do emaranhado de referências…
Agora, vamos ser sinceros. Os atores estão muito mal dirigidos. Eu sei que você vai dizer que não liga. Mas é por isso que filmes como “Star Wars” não recebem reconhecimento. Quando o drama se faz necessário para que as atitudes absurdas de Anakin/Darth Vader se justifiquem, Lucas patina feio. As cenas são rasas, literais, completamente desprovidas de sutileza, de densidade. Os atores estão perdidos.
As melhores atuações de longe são de Yoda e do R2-D2. O que me deixa mais irritado. Dirigir um boneco é um trabalho de detalhe por detalhe. Com o bom elenco que tem em mãos (exceção justamente de Hyden Christensen, muito ruim, com um Anakin caricato e artificialmente denso), Lucas poderia conseguir resultados espetaculares com muito menos esforço do que o que colocou em suas criaturas virtuais.
Mas falando deles, R2-D2 rende uma das mais deliciosas sequências cômicas da série. Usando todos os apetrechos disponíveis em seu arsenal, ele funciona como um agente de retaguarda dos jedis e tenta ajuda-los enquanto foge de robôs e outras ameaças que vão aparecendo no caminho. R2 realmente parece preocupado e confuso, perdido e ansioso. O único porém da sequência é que ele não faz nada disso, nem usa aqueles foguetinhos bacanas nos filmes da trilogia original, que contam fatos posteriores. Mas me diga… Como é que um cara que consegue fazer o R2-D2 atuar se enrola com Ewan McGregor e Natalie Portman?
Com Yoda, que tem expressão facial, voz e tudo mais, então, é um escândalo. É até difícil descrever a atuação dele. É coisa pra deixar Gollum morrendo de inveja. Digamos que Yoda viu “Senhor dos Anéis” e decidiu que o posto de personagem virtual mais bacana do cinema não podia ser de outra pessoa que não ele. Cuidado, mestre Yoda. O senhor sabe, ambição leva ao ladro sombrio…
Samuel L. Jackson está irreconhecível, e Ian McDiarmid, o imperador Palpatine, minha nossa senhora, é um dos maiores canastrões que eu já vi na vida. Sua atuação é risível.
Então, não venha me dizer que não é importante. Lucas utiliza mais de uma hora de história mesmo. São ações, diálogos, confrontos verbais, intrigas e tudo isso soa falso, raso, artificial, porque os atores não sabem para onde estão indo. Eu fiquei bem entediado nesse momento.
Aí, ele volta para a ação e tudo vai se encaixando. Obi Wan finalmente mostra porque é um mestre Jedi, já que até aqui ficava nas costas do seu aprendiz, Anakin. Quando chega o momento de resolver tudo sozinho, ele age como a gente espera que um verdadeiro herói aja, e sai chutando traseiros por toda a galáxia.
A sequência da guerra com os Jedi é espetacular, do tipo que faz você arranhar o estofado da cadeira. É emocionante, eletrizante, apaixonada, dramática.
Junte a tudo isso um comentário político do tipo que a gente não costuma ver em filmes de aventura e você tem uma perfeita fábula. São heróis, guerreiros, vilões míticos e uma lição, uma ideologia por trás, uma mensagem que vai além do simplismo reinante. Lucas não se furta de discutir liberdade, direitos civis, golpes, sujeira política e manipulação da múidia. Quando coloca Anakin dizendo “Ou vocês estão comigo, ou são meus inimigos” ou quando Amidala (Portman) desabafa “Então é assim que a liberdade morre?”, o diretor-roteirista está indo além do filme-pipoca que propôs ao seu público e mostrando que tem algo a dizer infiltrado em uma peça de cultura pop. É o mais denso de todos os “Star Wars”, com várias camadas de leitura.
No fim, Lucas amarra as pontas soltas, mostra Vader surgindo com seu traje negro, explica o destino de Luke e Leia e tudo mais que todo mundo quer saber. Não acho que seja o filme brilhante que todo mundo está vendendo do midia-blitz que eu citei abaixo, mas está muito acima de tudo que já foi feito na série… E eu arriscaria dizer que superou o antigo preferido dos fãs, o sombrio “O Império Contra-Ataca”. Bom, pra mim superou. Agora tire a sua conclusão.
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20/05/05 às 17:04
Realmente o forte de Lucas não é dirigir atores, exceção feita à “American Graphitti”, um drama que exigia muito em termos de caracterização, e lançou as carreiras de Richard Dreyfus e do hoje diretor Ron Howard. Quanto à tese de que ele e Spielberg promoveram a infantilização do cinema americano atual, é velha e bastante controversa. Eles promoveram sim o renascimento econômico de Hollywood, que vinha em crise desde os anos 50, e na esteira deram margem a zilhões de filmes de gosto duvidoso. O que não significa que filmes pipoca de qualidade e honestos (como eles mesmos fizeram várias vezes) não possam conviver com um cinema mais autoral, que, infelizmente será sempre restrito a uma minoria. Afinal, será que a morte do cinema industrial significaria realmente o predomínio do cinema de arte? Meio ingênuo isso…