VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

Volte sempre!

Consumidores, eleitores, leitores, mas não cidadãos

A figura do homem amarrado em uma mesa, com maquininhas enchendo sua boca de comida enquanto o custo é marcado por um taxímetro me assombra. Ao seu redor, monitores de computadores conectados com a internet, TVs ligadas em diversos canais, rádios, livros abertos, gibis. Tudo sendo enfiado tubos e sentidos adentro.

É como eu me sinto.

Ok, menos, Alexandre, menos. É a forma como eu vejo a sociedade atual. Pode me chamar de exagerado, paranóico, comuna, maluco. Não tem problema. Isso não muda o fato de que não somos cidadãos, somos consumidores. Não nos querem felizes, nos querem consumindo. É triste, mas faria bem a você enxergar a verdade.

Somos sempre coisificados. Não somos cidadãos, somos eleitores, somos consumidores, somos pacientes, somos leitores etc. etc. Para nos relacionarmos com a burocracia, temos que nos tornar coisas classificáveis, um demográfico, um número.

E estamos no meio do joguete de poder entre corporações que não estão nem aí pra nós.

Escrevi isso depois de ler um artigo do Stephen Johnson pro The New York Times. Ali, o Johnson defende a idéia de que a audiência está cognitivamente mais preparada para programas com narrativas complexas, com diversos níveis de detalhe e um monte de tramas paralelas.

Claro que, em uma sociedade como a nossa, tudo que aumenta nossa performance (ou seja, aumenta nossa possibilidade de ser ainda melhores no trabalho) é visto como positivo. Mas eu, antes de ficar dizendo como é bacana ser capaz de assobiar e chupar cana, tenhno o costume de perguntar a quem interessa de verdade eu saber tudo isso. É um hábito ruim, pensar, eu sei. Ignorância é uma delícia.

O fato, felizmente citado pelo autor do artigo, é que a complexidade cresceu porque isso vende e se tornou algo ainda mais útil porque hoje as pessoas compram as caixinhas das séries e dos filmes. E mais importante, os conteúdos das obras já não cabem nelas mesmas e vazam para livros, sites na Internet e tudo mais que for possível. Tudo para gerar tráfego, venda, consumo, consumo e mais consumo.

Sei lá. São só os meus dois centavos do fim-de-semana.


VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

2 respostas para 'Consumidores, eleitores, leitores, mas não cidadãos'

  1. Cristiano Dias Diz:

    Hmmm… deixa eu ver… Ser capaz de assobiar e chupar cana ou é bom ou é ruim. Ou será que é bom só até alguém “lá em cima” ver isso como uma demografia? Aí não ser capaz de assobiar e chupar cana passa a ser ruim? Mas aí eu sou de outra demografia.

    Eu sei que tudo é nicho hoje em dia. “Ver filmes que ninguém mais vê” passou a ser um nicho, até porque se alguém vê ou deixa de ver um filme, série, livro… só porque os outros o fazem ou não esse alguém é tão idiota quanto os marketeiros.

    Tudo sempre foi demografia, só que antes só eram três: nobres, pobres e clero.

    Deixa os outros colocarem demografia na gente. Tem quem pague milhões por isso. Dá uma razão de ser aos mega-empresários e ajuda os publicitários a comprar Jaguar com coisas tipo A Cerveja Oficial do Nananãna. Errado é consumir por causa do hype, por se achar dentro de uma demografia e se sentir na obrigação de consumir como ela.

    Ou, simplesmente: ligue menos a televisão. :-)

  2. Anonymous Diz:

    Acho que o problema é outro. De fato, somos números. Mas isso é porque é impossível se relacionar com todos os clientes como se quer. Imagine, por exemplo, uma venda de frutas. Hoje ela pode ter, talvez, 100 clientes, e assim o vendedor sabe a necessidade de cada um, podendo até chamar cada um pelo nome. Ai é fácil. Mas se o vendedor quiser crescer, e dar para a família mais conforto, e sentir o que é o sucesso, e se tudo der certo, e a vendinha, crescer até se transformar em um super-mercado hortifruti, fica impossível saber quem é quem.

    Dai as estatísticas, pesquisas de opinião. Quem é afinal o seu cliente? Não dá para levar em consideração a opinião de 1000 pessoas uma-a-uma. Tem que ser a opinião do “cliente”, que na verdade representa todos os 1000.

    É uma egrégora.

    Mas é claro que também tratamos tudo assim. Ninguém chama o governo do país um-por-um. É “O Governo”, ou quando falamos de outra forma, é “O Estado”.

    Paulo Albuquerque

Deixe seu Comentário