A figura do homem amarrado em uma mesa, com maquininhas enchendo sua boca de comida enquanto o custo é marcado por um taxímetro me assombra. Ao seu redor, monitores de computadores conectados com a internet, TVs ligadas em diversos canais, rádios, livros abertos, gibis. Tudo sendo enfiado tubos e sentidos adentro.
É como eu me sinto.
Ok, menos, Alexandre, menos. É a forma como eu vejo a sociedade atual. Pode me chamar de exagerado, paranóico, comuna, maluco. Não tem problema. Isso não muda o fato de que não somos cidadãos, somos consumidores. Não nos querem felizes, nos querem consumindo. É triste, mas faria bem a você enxergar a verdade.
Somos sempre coisificados. Não somos cidadãos, somos eleitores, somos consumidores, somos pacientes, somos leitores etc. etc. Para nos relacionarmos com a burocracia, temos que nos tornar coisas classificáveis, um demográfico, um número.
E estamos no meio do joguete de poder entre corporações que não estão nem aí pra nós.
Escrevi isso depois de ler um artigo do Stephen Johnson pro The New York Times. Ali, o Johnson defende a idéia de que a audiência está cognitivamente mais preparada para programas com narrativas complexas, com diversos níveis de detalhe e um monte de tramas paralelas.
Claro que, em uma sociedade como a nossa, tudo que aumenta nossa performance (ou seja, aumenta nossa possibilidade de ser ainda melhores no trabalho) é visto como positivo. Mas eu, antes de ficar dizendo como é bacana ser capaz de assobiar e chupar cana, tenhno o costume de perguntar a quem interessa de verdade eu saber tudo isso. É um hábito ruim, pensar, eu sei. Ignorância é uma delícia.
O fato, felizmente citado pelo autor do artigo, é que a complexidade cresceu porque isso vende e se tornou algo ainda mais útil porque hoje as pessoas compram as caixinhas das séries e dos filmes. E mais importante, os conteúdos das obras já não cabem nelas mesmas e vazam para livros, sites na Internet e tudo mais que for possível. Tudo para gerar tráfego, venda, consumo, consumo e mais consumo.
Sei lá. São só os meus dois centavos do fim-de-semana.




