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Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

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Morte e vida, severina

Ai, ai. O mundo é engraçado. Todo mundo acha que, porque eu sou um ateu safado e desalmado (claro), não tenho sentimentos. No outro dia, um amigo me disse que, porque ainda digo “Meu Deus!”, eu tenho algum resquício de catolicismo no meu coração. Então, quando eu grito “Filho da Puta!”, significa que eu adoro quem?

Mas saindo da digressão, as pessoas acham que eu sou uma pessoa fria e calculista só porque eu não sou religioso. Como assim? Depois do quinto e-mail perguntando porque eu não me manifestei sobre o caso da americana em estado vegetativo que os pais se recusam a deixar morrer, resolvi que tinha que falar a respeito. O problema é que eu evitei o caso e nem sei direito os detalhes. Vou apenas discutir a coisa toda de um modo bem geral e com alguma crueza para dar melhor o tom das coisas.

É engraçado. Se a moça está em estado vegetativo e não sente mais nada, sem querer ser grosseiros, acho que ela só serve mesmo aos vivos que a adoram e vêem nela a filha que amam. Então porque diabos toda essa vontade de matar a moça?

Ela não sente nada, não pensa, não sofre. Por que ela tem que apodrecer e ir para um caixão se, para os pais precisam dela “viva”?

Provavelmente, ela disse que queria ter os aparelhos desligados se um dia ficasse nesta condição, certo? Mas, no ponto em que estamos, que diferença faz ela estar em uma cama. Ela não sente nada!!!!! Repito, ela não está sofrendo com a condição de vegetal.

Bem, talvez o problema esteja no fato de que alguém está gastando os tubos com as contas hospitalares. Isso é um bom motivo. Talvez, também, o marido esteja querendo partir para outra e isso seja impossível com a ex-esposa vegetando em um hospital. Talvez sejam as duas coisas. A conta e a necessidade do cara de arrumar outra mulher para dividir a vida. Quem sabe, o cara está até com uma ex-enfermeira que atendia Terri Schiavo. O mundo dá muitas voltas. Mas ainda assim, os dois motivos seriam egoistas demais e ainda envolveriam um valor fundamental sendo violado, a vida humana. Não sei, mas nas grande escala das coisas esses são motivos menores.

Então, os motivos que realmente levam uma pessoa nestas condições a viver ou morrer são necessariamente o que aflige os vivos, os que ficaram. Os pais de Terri provavelmente se agarram à crença de que um milagre poderia traze-la de volta um dia ou, simplesmente, não querem guardar na memória a idéia de que desistiram da filha e a mataram. O marido provavelmente quer fazer o que sua mulher pediu quando ainda estava lúcida, ou quer se livrar da despesa infindável ou ainda quer arrumar uma nova namorada.

Neste emaranhado, surge o que deveria ser o fiel da balança: a vontade da pessoa. Terri supostamente, segundo o marido, queria que, se um dia ficasse vegetando em um hospital, alguém desligasse seus aparelhos. Eu quero que alguém faça o mesmo no caso disso acontecer comigo. Mas não porque eu me preocupo com meu estado. Eu vou estar morto, não vou sentir nada. Dane-se. Eu quero que acabem logo com isso. Os homens são mesquinhos e as contas hospitalares podem destruir a vida de quem está são, ou ainda tornar essa pessoa doente.

Se Terri queria morrer no caso de ficar aprisionada em uma cama em estado vegetativo, então, pelo princípio de nosso acordo social, deveríamos nos preocupar em fazer sua vontade, satisfazê-la da forma mais suave possível. Da mesma forma, se ela tivesse dito que queria ser mantida viva não importa o que acontecesse, seria uma missão dos pais e do marido mantê-la viva a todo custo.

Então, a briga em torno de Terri Schiavo é uma briga sobre o direito da autodeterminação contra o interesse de terceiros. Se ela realmente queria morrer caso estivesse nesta condição, os pais deveriam fazer o que muitos têm alguma dificuldade: respeitar o desejo da filha.

Uma pessoa deveria ter o direito de decidir sobre a sua vida, certo? Mas até onde nós estamos dispostos a ir nessa briga? Porque essa discussão não tem fim. Um mundo em que as pessoas têm o total controle sobre seus corpos e suas vidas pode ser um mundo que tende a desconexão, que ignora laços emocionais e culturais centenários, milenares até. Um mundo do individualismo total, do “não se meta na minha vida”. Mas, se você pensar bem, essa não parece a descrição do mundo em que vivemos?

Mas pode não ser ruim assim, né? Pode ser um mundo em que as pessoas vão respeitar as diferenças. Em que suas opiniões e questionamentos mais básicos não vão deixar de ter importância. Neste mundo, você pode fazer o que quiser com sua vida. Pode fumar, beber e tomar drogas que hoje são ilícitas. Seu corpo é seu templo.

Eu não vou falar do mundo em que somos controlados e não temos direitos reais sobre nossas vidas. Esse nós já conhecemos.

Se, afinal, eu acho que ela devia morrer ou viver é algo que me recuso a responder com sim e não. Em vez da abordagem binária, casos complexos pedem reflexão e discussão. Se eventos como esse de Terri Schiavo geram tanta controvérsia, então aproveitemos e vamos gastar os minutos que temos para fazer algo mais do que decidir se a resposta é zero ou um.

Quem dera a vida fosse simples assim.


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3 respostas para 'Morte e vida, severina'

  1. Vanessa Diz:

    Assisti a esta bomba no Open Air em outubro do ano passado, numa pré-estréia disputadíssima lá no Jóquei. Rapaz, saí da poltrona com vontade de pedir meu dinheiro de volta ou procurar o Procon por propaganda enganosa.

    Ruim é pouco para esse filme; chega a ser deprimente. E o roteiro é tão non-sense que deixa a impressão de que esqueceram de fazer a edição.

    Ao invés de levar tantos prêmios em Gramado, esta “obra” merecia um lugar de honra no ostracismo do cinema nacional. Blé!

  2. Cristiano Dias Diz:

    Panela, panela, panela. E ainda por cima deve ter gente pensando “não gostaram por não entenderem a arte da coisa.” Bleh.

    (atenção, piada interna a seguir)

    Kikito não vale nada. Prêmio bom é o BIBITO, o Oscar da Mônica. :-P

  3. Etel Diz:

    O fato é que os direitos individuais que são tão exaltados não são realmente respeitados.
    Em relação a ser ateu, as piores pessoas que eu connheci são “boas cristãs”…

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