Bom, Terri Schiavo morreu.
As questões levantadas pelo seu caso, no entanto, continuam existindo.
Bom, Terri Schiavo morreu.
As questões levantadas pelo seu caso, no entanto, continuam existindo.




Este “mardito” jogo só vai sair para PS2!!!
Acabei de ver o video de apresentação do jogo e, bom, já vou guardar minha dinheirinha. Adeus, X-Box!
Ai, ai. O mundo é engraçado. Todo mundo acha que, porque eu sou um ateu safado e desalmado (claro), não tenho sentimentos. No outro dia, um amigo me disse que, porque ainda digo “Meu Deus!”, eu tenho algum resquício de catolicismo no meu coração. Então, quando eu grito “Filho da Puta!”, significa que eu adoro quem?
Mas saindo da digressão, as pessoas acham que eu sou uma pessoa fria e calculista só porque eu não sou religioso. Como assim? Depois do quinto e-mail perguntando porque eu não me manifestei sobre o caso da americana em estado vegetativo que os pais se recusam a deixar morrer, resolvi que tinha que falar a respeito. O problema é que eu evitei o caso e nem sei direito os detalhes. Vou apenas discutir a coisa toda de um modo bem geral e com alguma crueza para dar melhor o tom das coisas.
É engraçado. Se a moça está em estado vegetativo e não sente mais nada, sem querer ser grosseiros, acho que ela só serve mesmo aos vivos que a adoram e vêem nela a filha que amam. Então porque diabos toda essa vontade de matar a moça?
Ela não sente nada, não pensa, não sofre. Por que ela tem que apodrecer e ir para um caixão se, para os pais precisam dela “viva”?
Provavelmente, ela disse que queria ter os aparelhos desligados se um dia ficasse nesta condição, certo? Mas, no ponto em que estamos, que diferença faz ela estar em uma cama. Ela não sente nada!!!!! Repito, ela não está sofrendo com a condição de vegetal.
Bem, talvez o problema esteja no fato de que alguém está gastando os tubos com as contas hospitalares. Isso é um bom motivo. Talvez, também, o marido esteja querendo partir para outra e isso seja impossível com a ex-esposa vegetando em um hospital. Talvez sejam as duas coisas. A conta e a necessidade do cara de arrumar outra mulher para dividir a vida. Quem sabe, o cara está até com uma ex-enfermeira que atendia Terri Schiavo. O mundo dá muitas voltas. Mas ainda assim, os dois motivos seriam egoistas demais e ainda envolveriam um valor fundamental sendo violado, a vida humana. Não sei, mas nas grande escala das coisas esses são motivos menores.
Então, os motivos que realmente levam uma pessoa nestas condições a viver ou morrer são necessariamente o que aflige os vivos, os que ficaram. Os pais de Terri provavelmente se agarram à crença de que um milagre poderia traze-la de volta um dia ou, simplesmente, não querem guardar na memória a idéia de que desistiram da filha e a mataram. O marido provavelmente quer fazer o que sua mulher pediu quando ainda estava lúcida, ou quer se livrar da despesa infindável ou ainda quer arrumar uma nova namorada.
Neste emaranhado, surge o que deveria ser o fiel da balança: a vontade da pessoa. Terri supostamente, segundo o marido, queria que, se um dia ficasse vegetando em um hospital, alguém desligasse seus aparelhos. Eu quero que alguém faça o mesmo no caso disso acontecer comigo. Mas não porque eu me preocupo com meu estado. Eu vou estar morto, não vou sentir nada. Dane-se. Eu quero que acabem logo com isso. Os homens são mesquinhos e as contas hospitalares podem destruir a vida de quem está são, ou ainda tornar essa pessoa doente.
Se Terri queria morrer no caso de ficar aprisionada em uma cama em estado vegetativo, então, pelo princípio de nosso acordo social, deveríamos nos preocupar em fazer sua vontade, satisfazê-la da forma mais suave possível. Da mesma forma, se ela tivesse dito que queria ser mantida viva não importa o que acontecesse, seria uma missão dos pais e do marido mantê-la viva a todo custo.
Então, a briga em torno de Terri Schiavo é uma briga sobre o direito da autodeterminação contra o interesse de terceiros. Se ela realmente queria morrer caso estivesse nesta condição, os pais deveriam fazer o que muitos têm alguma dificuldade: respeitar o desejo da filha.
Uma pessoa deveria ter o direito de decidir sobre a sua vida, certo? Mas até onde nós estamos dispostos a ir nessa briga? Porque essa discussão não tem fim. Um mundo em que as pessoas têm o total controle sobre seus corpos e suas vidas pode ser um mundo que tende a desconexão, que ignora laços emocionais e culturais centenários, milenares até. Um mundo do individualismo total, do “não se meta na minha vida”. Mas, se você pensar bem, essa não parece a descrição do mundo em que vivemos?
Mas pode não ser ruim assim, né? Pode ser um mundo em que as pessoas vão respeitar as diferenças. Em que suas opiniões e questionamentos mais básicos não vão deixar de ter importância. Neste mundo, você pode fazer o que quiser com sua vida. Pode fumar, beber e tomar drogas que hoje são ilícitas. Seu corpo é seu templo.
Eu não vou falar do mundo em que somos controlados e não temos direitos reais sobre nossas vidas. Esse nós já conhecemos.
Se, afinal, eu acho que ela devia morrer ou viver é algo que me recuso a responder com sim e não. Em vez da abordagem binária, casos complexos pedem reflexão e discussão. Se eventos como esse de Terri Schiavo geram tanta controvérsia, então aproveitemos e vamos gastar os minutos que temos para fazer algo mais do que decidir se a resposta é zero ou um.
Quem dera a vida fosse simples assim.

Muito legal pensar que mais ou menos um ano atrás essa fatia amarelinha do Firefox, meu browser oficial, não existia. O mundo era dominado pelo Microsoft Internet Explorer, aquela porcaria que, junto com o Windows XP, passa a maior parte do tempo expondo seu computador a todos os tipos possíveis de ataques.
“Robôs” só merece dois comentários.
1. Acabou a fase na qual cada projeto digital tinha que ser um filme evento. “Robôs” é corriqueiro, um filminho para ocupar a agenda de lançamentos e manter o estúdio trabalhando.
2. Robôs que comem porcas, parafusos e bebem óleo é uma piada com, deixa eu ver, 50, 60 anos. Não tinham nada melhor, não?
Nem lembro mais da história.

Uma das versões cromáticas das histórias de “Herói”, de Zhang Yimou
Um amigo meu comentou com desprezo que “O Tigre e o Dragão” era só um filme de artes marciais como qualquer outro que tinha sido, por acaso, feito por um diretor mais famoso e chamado a atenção de pessoas preconceituosas para um gênero marginal. Minha sensação foi a de que ele, até sem sentir, estava manifestando uma certa revolta por ver valorizado só agora um gênero que ele amou durante sua juventude. Mas, claro, é muito mais do que isso…
“Herói”, a (quase) nova incursão de um diretor de renome nas plagas dos filmes de aventuras marciais, ajuda a provar que um artista de qualidade faz toda a diferença do mundo. Afinal, como comparar um policial noir corriqueiro a um “A Marca da Maldade” ou a “Chinatown”? Um filme de ação qualquer a um “A Outra Face”? Grandes diretores elevam um gênero a algo maior. O tornam mais complexo, mais abrangente e, em geral, mais bem feito.
Voltando a “Herói”, o filme conta a história de um guerreiro que, após matar três dos maiores inimigos de seu rei, volta para receber suas recompensas e contar ao soberano os detalhes de sua façanha. É quando entra em ação uma homenagem ao grande Akira Kurosawa e o filme ganha ares de “Rashomon”. A cada novo ponto de vista pelo qual são contadas, as histórias surgem com uma nova combinação cromática. O resultado é de embasbacar, com sequências de beleza impressionante e um quê de Peter Greenaway.
Logo acima, eu disse que “Herói” tinha ARES de “Rashomon”. Há uma diferença crucial entre o conceito da obra de Kurosawa e o da de Zhang Yimou. Se no primeiro, a verdade não existe, está fracionadas nos pontos de vista dos narradores, no épico de Yimou a versão se torna fato ressaltada pela escolha da cor branca. Ela absorve as versões (de várias cores) e se torna a verdade final.
No fim, reflita sobre o âmago do filme. Vale a pena sacrificar todas as individualidades pelos interesses de um grupo inteiro? Alguns dizem que Yimou abriu as pernas e, depois de anos sendo perseguido pelos dirigentes chineses, fez um filme que apenas vende a propaganda do partido.
Isso só serve para nos lembrar que talvez a grande esperteza da obra seja tornar a pergunta tão presente que ela domina completamente os pensamentos do público, como se não houvesse nada mais em jogo. O ideal seria refletir se a questão certa é realmente esta.
Deveríamos discutir por que um rei belicoso decidiu que iria unir os reinos todos sob seu jugo. Ele só decidiu isso porque era ambicioso e desta ambição tirou o poder crescente que o levou à vitória. Por que diabos todo mundo se curva a achar que a única solução para aquela situação era deixar um tirano sanguinário dominar todo mundo e impor uma língua única? Essa é só uma das perguntas que as cenas de ação perfeitamente coreografadas e a fotografia primorosa de um grande filme jogam habilmente para debaixo do tapete.
Afinal, grandes filmes não precisam estar do lado do que é bom é certo, até porque esta é apenas uma das cores, um dos vieses de um mundo que é mais “Rashomon” e menos “Herói”.
Isso tudo é para falar daquele comerical odioso da Volkswagen, que vi no site do Bruno e me deixou absolutamente estupefato. Mas para chegar ao ponto crucial, cabe uma digressão.
Quando eu vi “Matrix” em 1999, fiquei impressionado quando percebi que as pessoas simplesmente não conseguiam enxergar além da idéia da realidade virtual. A grande sacada do filme era justamente falar da forma como somos esmagados por um sistema sem nos darmos conta disso.
“Dark City”, um ano antes, “O 13º Andar” e “eXistenZ”, naquele ano, falaram do mesmo tema. Para mim, “Dark City” foi o que tocou no assunto com mais pertinência.
Mas foi “A Vila” que botou pra quebrar, quando mandou às favas a metáfora tecnológica e mostrou que um sistema político pode ser uma matrix. Pouca gente se deu conta disso. Uns interpretaram como uma apologia da mentira política, outros como uma crítica, mas o que importa é que a mensagem estava mais clara do que nunca, o rei estava nu. Só era preciso estar minimamente preparado para absorver a comparação.
Vivemos uma era de conformismo (Será mesmo? E toda a movimentação na web? Há que se investigar e comparar, podemos nos surpreender). É onde entra o comercial que é uma ode a todo esse conformismo, toda essa forma monolítica de imaginar um mundo sem alternativas. Ou ele é assim ou tudo seria ruim, muito ruim. Patético. Ele e nós.
Na propaganda em questão, um homem lava seu carro quando vê que seu relógio molhou e escangalhou. Ele começa a pensar em como seria o mundo se todos os produtos fossem feitos com a mesma (SUPOSTA) qualidade de um Volks. Ele começa a fazer associações e diz que haveria menos rotatividade na moda e no estilo dos objetos (já que eles iriam durar mais), menos propaganda (cidades menos poluídas visualmente), menos indústrias (menos poluição e exploração do meio ambiente) e menos empregos. É quando ele pára e imagina que não conseguiria ter seu carro sem um emprego e resolve que o mundo tem que ser como é para que ele possa continuar vivendo deste jeito.
O que algumas pessoas classificam de pragmatismo não passa de um véu de medo implantado nas cabeças da classe média: ouse pensar diferente, pense em desmontar o sistema que montamos para nós e você perderá o emprego e tudo que te deixamos conquistar.
Há também a tese de que essa propaganda é um tiro no próprio pé, já que ela expõe de forma nua e crua o preço que pagamos por nosso estilo de vida. Mas o didatismo da proposta não deixa muitas dúvidas. É um filme de convencimento, uma ameaça tácita.
Que geração maravilhosa de publicitários faz uma coisa podre, moralista, conformista, maniqueísta e ESCROTA como essa?
Em outra propaganda odiosa, de dentro de um carro, um homem vê uma amiga na rua e a chama. Ela é feia de doer (conceito relativo ao padrão de beleza definido em nossa sociedade) e, quando coloca a cabeça dentro do carro, seu rosto fica lindo. Ela dá tchau, tira o rosto dali e volta a ser a pessoa horrorosa que sempre foi. O cara, fora do carro, tem olheiras e dentes feios.
I rest my case.

“The Life Aquatic with Steve Zissou”, de Wes Anderson
Estou obcecado pela trilha do filme “The Life Aquatic with Steve Zissou”, o novo trabalho do Wes Anderson.
Vou ver amanhã no Open Air e já estou animado porque li que ninguém entendeu o filme, hua hua hua, nem o elenco. Mas tudo bem. Quando eu vi “Os Excêntricos Tenenbaums” e fiquei completamente chapado de tanto que amei o maldito filme fui sacaneado até a morte.
Já “Rushmore” é o que acho mais irregular. O Anderson trabalha de forma desestruturada, sem se prender enlouquecidamente àquelas regrinhas sydfieldianas que transformaram o cinema americano em um deserto criativo. O resultado é um filme que segue um caminho imprevisível.
Em Tenenbauns ele faz tudo com uma direção de arte e uma trilha primorosas. O filme foi minando minhas forças e ao fim eu estava completamente jogado no sofá, ao sabor das situações.
Se “The Life Aquatic” for a metade…
Mas, cacimba, eu ia falar da trilha maravilhosa. Entre outras pérolas que vêm de tudo quanto é canto do universo pop, traz umas versões do Seu Jorge para músicas do David Bowie que são… São… Putz. FODAS. Todas no violão, o que já me irrita antes de começar, por conta daquele virus assassino chamado “acústico MTV” que assolou os anos 90. Mas aqui tudo parece perfeito. Ele canta com estoicismo, energia, rispidez e melancolia do jeito que cada música pede. Ou ainda, não pede, mas ele acha o caminho.
O disco traz a minha música preferida do Bowie de todos os tempos, “Life on Mars”, na voz dele para você comparar… É pra chorar de emoção.
Meu pai morreu, pouco mais de 22 anos atrás, aos 59 anos. Era 21 anos mais velho que a minha mãe. Os 60 eram uma barreira invisível.
O tema do ponto em que alcançamos alguém que era nosso ponto de referência no mundo me fascina. Meu irmão querido morreu aos 19, poucos dias antes dos 20. Quando eu fiz 20, me perguntei o que ele estava sentindo naquele momento, tentei enxergar o mundo que ele estava vislumbrando com os olhos de alguém que tem apenas duas décadas. De certo modo, na minha cabeça, foi como se eu estivesse definitivamente assumindo as missões que ele tinha estabelecido pra si. Alguém entende essa maluquice?
Pense bem. Quando seus pais tiveram você, que idade eles tinham? Vinte, 25 anos? Que idade você tem agora? Pense em momentos importantes da trajetória de sua família e imagine a idade que as pessoas que viveram aquele momento tinham. Compare com a sua, com a sua visão de mundo. O que você faria no lugar delas tendo vivido o mesmo número de anos?
Não vamos desprezar as experiências pessoais de cada um, é óbvio. Mas mesmo essa condicional é mais relativa ainda, porque, afinal, todas as perspectivas são únicas.
Mas, bem, é só uma reflexão maluca.
Estou no Rio este fim-de-semana por uma causa muito especial.
Minha mãe fez 60 anos ontem.
Sessenta. Seis vezes 10. Seis ponto zero. Seis décadas.
Não fizemos a grande festa que eu tinha planejado, mas foi um almoço divertido, cheio de gente adorável. Fiquei feliz por ver minha mama feliz.