
Jon Stewart, apresentador do “The Daily Show”, do canal Comedy Central
Eu não sabia direito quem era Jon Stewart até a revista “Entertainment Weekly” apontá-lo como “entertainer of the year” algumas semanas atrás. Eu sabia que ele era um humorista de um programa do Comedy Central, conhecia o rosto e até tinha ouvido falar em uma confusão na qual ele se meteu com uns caras da CNN. Resolvi procurar por vídeos do seu programa, o “Daily Show” e conferir.
Surpresa, surpresa. O “Daily Show” é um programa do canal Comedy Central que apresenta notícias farsescas comentadas por Stewart com admirável habilidade. É simples. Ele é um humorista e comanda um programa com piadas inteligentes e afiadas sobre política. Durante a campanha presidendical do ano passado, tomou partido de Jon Kerry e seguiu ridicularizando a administração Bush.
Tendo visto o programa e dado boas risadas, resolvi procurar o tal vídeo do “Crossfire”, da CNN. É o motivo do cara ter conquistado uma legião de fãs no dia 15 de outubro do ano passado quando foi convidado para participar da atração. Para quem não conhece, “Crossfire” é um debate entre pessoas com idéias opostas comandado por dois comentaristas, um liberal chamado Paul Begala e outro conservador, Tucker Carlson. Stewart já tinha dito no “Daily Show” diversas vezes que o “Crossfire” era uma porcaria e, ainda assim, topou ir ao programa conversar com os dois apresentadores.
Pois ali iniciou uma inacreditável e torturante sessão de pugilismo verbal entre ele e o Tucker, o conservador. Stewart avisou que estava ali para pedir que eles parassem de fazer aquele programa, porque era uma droga. A partir dali, Carlson tentava de todas as formas atacar Stewart e ia recebendo réplicas admiráveis, do tipo que toda pessoa que já participou de uma discussão complicada já sonhou ser capaz de dizer.
Alguns vão dizer que é deselegante fazer algo assim. Eu peço licença para discordar. O que Jon Stewart, um, repito, famoso humorista, fez foi dar aos apresentadores um pouco de seu próprio remédio e colocar em xeque a hipocrisia de atrações que só promovem brigas de galo entre pessoas que discordam em algum assunto. “Vocês estão ferindo a América. Por favor, parem com esse programa”, pediu.
“Venham trabalhar para nós. Pagamos mal, mas pelo menos vocês vão conseguir dormir de noite. Vocês só estão ajudando os políticos e suas estratégias de marketing”, disparou.
Carlson, usando sua indefectível gravatinha borboleta, mostrou que tinha preparado algumas surpresas para Stewart e colocou no ar um slide com três perguntas que ele fizera a Kerry quando o então candidato à presidência foi ao “Daily Show”:
1. Está tudo bem?
2. Você se irrita quando as provocações vão para o lado pessoal?
3. Você é indeciso (empregando aqui o termo “flip-flop”, usado para ridicularizar Kerry por ter votado de forma confusa em questões importantes)?
A guerra realmente começou quando Stewart respondeu quase sem pensar: “Se você for comparar seu programa com um humorístico, acho ótimo…”. QUando Carlson começa a se empolgar e diz “o meu ponto é o seguinte…”, Stewart finaliza com “Mas eu não nos usaria como modelo. Eu miraria em ‘Seinfeld’, este sim era um programa humorístico bom de verdade.”
“EU não tinha entendido, mas se as organizações de notícias olham para o Comedy Central em busca de exemplos de integridade… Se a sua idéia de me confrontar é dizer que eu não faço perguntas sérias, estamos perdidos”, segue o apresentador do “Daily Show”.
Tucker Carlson dá um passo atrás e diz que não quer briga, que estão ali para ser pacíficos. “Eu não. Estou aqui para confrontar vocês”, arremata.
O duelo segue por mais 15 minutos, ao longo de dois intervalos durante os quais você só pode imaginar o que está acontecendo nos bastidores do programa.
Mais impressionante é pensar que, naquela noite, o “Crossfire” teve uma audiência de cerca de 870 mil espectadores, nem um terço da quantidade de pessoas que viram o programa pela Internet por meio do site iFilm. Há ainda os que baixaram o vídeo pelos programas de troca de arquivos e as pessoas que leram as transcrições em diversos websites.
E então, qual é a moral dessa história? Sempre há uma moral, certo?
Que nada. Eu só tive um imenso prazer de ver um homem inteligente e articulado enfrentar os lobos em sua própria toca. Melhor ainda, o presidente da CNN anunciou no início de janeiro que concordava com Jon Stewart e que “Crossfire” seria cancelado após o fim do contrato de Carlson.
Agora eu só queria ter visto Stewart no “The O´Reilly Factor”, talvez o programa mais grosseiramente reacionário da TV americana. Se alguém encontrar o vídeo, manda uma mensagem, por favor.