“Menina de Ouro” é o filme do ano

Este ano, não deu tempo de ver todos os filmes que concorriam às principais categorias do Oscar. Mas tudo bem, quando eu assisti ao “Menina de Ouro”, fiquei com aquela sensação de que já tinha visto o melhor filme de 2004.

Hoje, quando vi Morgan Freeman, Hillary Swank e Clintão levarem os prêmios, vibrei. Espero que Martin Scorsese siga em frente e que ganhe um Oscar por um filme que esteja a altura de sua obra. “O Aviador” é um bom filme, mas não merecia ser aquele pelo qual Scorsese finalmente ganhou sua estatueta.

O momento da noite foi quando Jorge Drexler recebeu o prêmio de melhor canção do ano, por “Al otro lado del río”, de “Diários de Motocicleta”. Em vez de fazer um discurso como todos os outros, Drexler cantou um trecho da canção em protesto por não poder ele mesmo cantar sua música. Ele foi substituído por Antonio Banderas e Carlos Santana… A história gerouo, alguns dias atrás, uma nota de repúdio assinada pelo diretor do filme, Walter Salles, e toda a equipe. Grande tapa com luva de pelica.

O Fantasma do carnaval


Gerard Butler e Emmy Rossum em “O Fantasma da Ópera”: deliciosamente cafona

“O Fantasma da Ópera” foi meu primeiro musical da Broadway. Por conta disso, dei todos os descontos e licenças, já que estava fascinado por aquela opulência e cafonice deliciosas.

Revê-lo em filme foi decepcionante. Decepcionante em um nível de quando você revê “Terra de Gigantes” e “Viagem ao Fundo do Mar”, saca? Era mágico quando eu era moleque e não passa de tosqueira hoje em dia.

Eu ainda gosto das músicas. Acho cafona, mas tenho que reconhecer que grudam forte no ouvido. O baile de máscaras, que vale pelo balé, é uma daquelas músicas óbvias que fica rebatendo o ponto de que o fantasma vai surgir a qualquer momento porque as máscaras fazem você se esconder do mundo. A música faz muito sentido quando ele, desesperado, canta um trecho no final. Antes, soa como enrolação total.

No filme, o diretor Michael Joel Schumacher adaptou menos do que devia e conseguiu manter um certo ar carnavalesco que bem cabe ao filme. Mas em muitos momentos, desviar a câmera para bailarinos quando algo muito importante está acontecendo, soa ridículo. Em outros, ele fez um grande trabalho de dar impacto fílmico ao que, na peça, tinha um poderoso efeito dramático. Os cenários e figurinos estão tão fantásticos quanto pede o filme. E, peço perdão aos fãs, mas musical com alguns takes em que as vozes estão dessincronizadas, não dá…

E, claro, se Christine escolher o conde no lugar do fantasma já soava ridículo na peça, no filme a coisa é ainda mais patética, principalmente depois que ela encena “Don JUan” com o, errr…, vilão. A escolha entre o conde e o fantasma não é a de um homem versus um monstro. É do desejo versus o amor romântico. Afinal, a antológica cena em que o monstro leva a sua pupila aos subterrâneos é uma das maiores transas metafóricas do teatro fast food.

The one

Um homem prepara uma conspiração contra um sistema corrupto. Só que agora ele usa uma máscara de porcelana com a face do radical (terrorista, dependendo do ponto de vista) Guy Fawkes. A obra em questão é o inesquecível “V de Vingança”, de Alan Moore. Vamos ver se desta vez um filme faz justiça à obra do malucão inglês. A estréia, se tudo der certo, será no dia 5 de novembro, a data na qual o tal Fawkes participou de uma tentativa de explodir o parlamento inglês, 400 anos atrás.

E já podemos dizer que esse é um tema recorrente para os irmãos Wachowski (que não dirigem, apenas produzem), aparentemente fascinados por revolucionários que desafiam o sistema. Ou será que foi só alguma visão aguda de marketing que os levou a explorar, mais do que uma obsessão, um filão?

Controle?

Porque preciso manter a sanidade, expulsar os demônios e todos aqueles clichês dos quais você ouviu falar mais de mil vezes.

Porque me iludo, achando que ali, naquele ambiente criado por mim, com aquelas pessoas que saíram da minha cabeça, terei controle total. Mas nem isso é verdade. Em poucos minutos, os personagens se rebelam e começam a agir sozinhos e a desafiar minhas ordens que deveriam ser supremas.

Parece que nada está sob nosso controle nem mesmo a boa e velha folha de papel.

Isso é bom ou ruim?

Você tem medo de quê?

Uma coisa engraçada é ver como as pessoas que me conhecem há muito tempo, ou pensam que me conhecem, ficam impressionadas quando eu comento tecnologia. Embora eu ache assuntos como clonagem, digitalização da mente, nanotecnologia e modificação corporal fascinantes, acho importante afirmar que não sei se a humanidade precisa dessas tecnologias.

Claro que são duas coisas diferentes. No terreno da ficção, explorar essas idéias é algo estimulante. Imaginar como as relações e o comportamento humanos vão mudar é matéria prima rica para o drama, a comédia, mas também para a tragédia.

E em se tratando de tragédia, seria bom que ficasse só na ficção. Que o digam os habitantes de Hiroshima e Nagazaki.

O que mais me preocupa é que o discurso sobre a tecnologia é muito enviesado. Nos prometem um futuro brilhante, sem nos dizer quem é que realmente vai se beneficiar com as tais mudanças que serão operadas pela tecnologia. É um cuidadoso trabalho de convencimento que parece ter dado muito certo. E no discurso não há legítimos prós e contras.

Dá um certo medo do futuro.

Hoje, no Megazine, de O Globo

Quadrinhos quadro a quadro

Alexandre Maron
Especial para O GLOBO

Se todos os filmes fossem comédias, todos os livros fossem historinhas açucaradas e todas as músicas fossem boleros, o mundo seria chato de doer. Então por que muitas pessoas insistem em achar que histórias em quadrinhos só servem para falar de aventuras infanto-juvenis? De modo geral, esse é um dos pontos que o excelente “Desvendando os quadrinhos” (M.Books, 266 pgs, R$ 39), de Scott McCloud, toca com inegável habilidade. O livro é uma das mais brilhantes obras sobre as HQs e acaba de ser relançado no Brasil, depois de quase dez anos esgotado.

Livro é modo de dizer. “Desvendando” é um gibi que explica o que são as histórias em quadrinhos, suas origens e disseca a linguagem desse meio. A obra de McCloud é tão boa que foi considerada por muitos mais completa do que o clássico “Quadrinhos e arte seqüencial” (Martins Fontes, 154 pgs, R$ 47,50) do mestre Will Eisner, que morreu em janeiro deste ano.

— Comecei a fazer quadrinhos em 1984 e, por anos, escrevia artigos sobre o assunto. Um dia, notei que tinha dez centímetros de folhas de papel empilhadas e pensei em transformá-las em livro — diz McCloud, por telefone à Megazine, de sua casa em Los Angeles.

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Smallville ficou pequena demais…


Tom Welling e Kristin Kreuk, Clark Kent e Lana Lang em “Smallville”

Quando os criadores de “Smallville” tiveram a idéia de mostrar as origens do Superman antes de ele se tornar o Superman, a idéia soou interessante. No entanto, enquanto alguns episódios tocavam firememente na mitologia de Lex Luthor e Clark Kent, outros eram “Dawson´s Creek” demais para o humor de qualquer pessoa sã.

“Smallville” está no quarto ano e, definitivamente, Clark Kent precisa desesperadamente ir embora desta cidade. Sem saber o que mais fazer com os personagens, os criadores colocaram o carro adiante dos bois e já introduziram Lois Lane muitos anos antes do que seria razoável, já que na mitologia do personagem os dois só se conhecem quando Kent vai trabalhar no Planeta Diário, em Metrópolis. No último episódio, foi a vez de tirar o supercão Krypto da manga.

Enquanto isso, sem idéia para prosseguir com Lana Lang e Lex Luthor, os episódios são preenchidos com tramas sobre as quais os fãs não querem saber. É um papo mole de que Lana é a reencarnação de uma bruxa, uma subtrama na qual ela é vítima de uma vingança milenar. Insuportável.

Assim, se a série já se arrastava com um ou dois bons episódios a cada temporada de 21, 22, a coisa parece que não vai melhoras este ano. Os condutores do programa precisam decidir se investem nas aventuras de Clark e seus amigos investigando casos estranhos ou se simplesmente mergulham nas subtramas que nunca levam a lugar nenhum. No meio disso, bons personagens, como o de Chloe, são subutilizados o tempo todo.

Então “Smallville” se junta a “Alias” na lista das séries moribundas. Alguém desligue essas máquinas!!

E com vocês, o grande Howard Hughes


Leonardo Di Caprio em cena de “O Aviador”, de Martin Scorsese

O caminho do futuro…
O caminho do futuro…
O caminho do futuro…
O caminho do futuro…

Grande filme. Mas que o DiCaprio, que é bom ator, está fora do tom em alguns raros momentos, não há dúvida. A vozinha forçada, a testa franzida são truques que nem sempre colam, e a cara de menino do ator conspira contra ele o tempo todo. Mas eeja alisando os aviões ou as estrelas hollywoodianas, seu Hughes transborda paixão e soa verdadeiro.

Um amigo meu foi ver o filme no outro dia e me disse que era chato. Eu discordo completamente. Filmão. Cinemão. Duas horas e quarenta minutos que vão passando sem você sentir. E, pior, a cada triunfo improvável de Hughes você suspira ao pensar que, mesmo que tenha sido menos espetacular, grande parte do que está no filme aconteceu. É claro que é romanceado, como todas as cinebiografias são. Mas qual é a novidade?

Scorsese tem uma idéia espetacular de ir igualando as cores de cada período retratado no filme à dos filmes colorídos da época. As cores começam saturadas e irreais e vão se acertando ao longo da história. Apenas uma das muitas sacadas de ritmo, de visual, de tudo que fazem o filme brilhar.

E, de forma geral, ainda é uma espécie de grito desesperado de um país que perdeu o rumo e a razão. Uma obra inesqueível do maior cineasta americano vivo.

Hughes era um dos meus ídolos quando eu era moleque. Ganhou uma cinebiografia que lhe faz justiça. Se o filme ganhar a estatueta de melhor filme, não vai ser injusto. Mas a disputa este ano está duríssima.