Essa é a minha profissão maluca em que um jornalista viaja ao Rio Grande do Sul para conhecer as impressionantes instalações de uma poderosa multinacional que produz espumantes e acaba passando um dia no Forum Mundial Social.
Num dia eu estava provando bebidas, cercado de jornalistas como eu e de empresários que estavam lá em um evento de relações públicas. No outro, enquanto todo o resto do grupo voltava para São Paulo, eu aproveitei que minha passagem era para as 21h e passei o dia perambulando pelas quentíssimas e empoeiradas instalações do Forum.
O mundo ali é bem diferente. Os sucessos são pins e posters de Che Guevara ou ampliações das fotos de Sebastião Salgado. Todos se vestem com roupas simples e o gigantesco camping é um desafio mesmo para quem se julga “disquerda”, desapegado do consumismo e dos confortos que nos amolecem, porque conforto é muito bom. Mas, oras, se é para nós, porque não seria para outras pessoas?
Fazer piadas com isso é um das muitas armadilhas ardilosas da direita, claro. Os esquerdistas não querem que as pessoas vivam em cabanas, sujos e maltrapilhos. Há enormes variações, claro, mas o que se busca é um patamar mínimo de qualidade de vida. É o fim de um jeito de ver o mundo em que um grupo de pessoas que nasce em um berço qualquer se acha melhor e com mais direito a uma vida confortável do que quem nasce em uma caixa de papelão.
Uma das grandes delícias do forum é que as conversas nunca são banais. Há jovens e velhos discutindo política o tempo todo. Aquela indolência mental de deixar toda e qualquer discussão séria para amanhã é coisa para poucos. As pessoas costumam dizer que fala-se muito e pouco se faz, o que é apenas uma forma de desacreditar as discussões ideológicas. Tudo sai da discussão, do pensamento, do debate. Nenhuma idéia importante da humanidade saiu de uma pessoa bebendo cerveja diante da TV, consumindo lixo pop. É duro, querido leitor, mas é a mais pura verdade. Disseram para você que seria possível viver assim. Deixe a parte pesada e difícil para nós. Trabalhe e se divirta. Faça a sua parte.
Há também a tentação de descrever toda aquela gente como uma bando de arruaceiros e vagabundos. É só o jeito fácil de fugir da participação e embarcar na maravilhosa aventura da alienação política em que o mundo é dividido em respeitáveis empresários que fazem o que é preciso para o progresso e um bando de indolentes que só quer moleza. Se você quiser, vá em frente. Tape o sol com a peneira.
Ontem de noite, vi no UOL que um grupo de “punks” (terminologia usada pelo site) foi pego com bombas e armas. Segundo a polícia de Porto Alegre, eles iam se confrontar com um outro grupo de skinheads. “Arruaceiros!”, você vai pensar. Como tudo mais, é um recorte da realidade. Não há contexto, não há profundidade e o fato é relatado de forma rápida e superficial. É só uma muleta para o pensamento conservador de praxe. É o suficiente para se tirar as conclusões que querem que você tire ou que você quer tirar porque assim tudo fica mais fácil. “São vagabundos, não sabem como é o mundo real. Eu vou é seguir o meu caminho”.
Aqui estamos nós. Pense aí com seus botões se essa barganha foi realmente vantajosa.