“Histórias em quadrinhos são tempo traduzido em espaço.”
Scott McCloud
Antes de “Desvendando os Quadrinhos”, quando alguém falava de história em quadrinhos em uma discussão, digamos, séria, com fundo semiótico e coisa e tal, o negócio era citar o mestre Will Eisner. A referência era o livro “Quadrinos e Arte Sequencial”, escrito pelo criador do Spirit.
Mas o jovem McCloud lançou seu estudo e deu um passo a frente. Foi elogiado pelo próprio Eisner e, depois, por qualquer pessoa de bom senso que se prestasse a ler seu ótimo trabalho.
O livro foi lançado no Brasil 10 anos atrás e estava esgotado até a M.Books resolver relançá-lo agora. E, melhor, eles pretendem lançar o outro livro de McCloud, lançado em 2000 e inédito aqui, “Reinventando os Quadrinhos” fala de como esse meio deveria se adaptar às novas tecnologias digitais.
A seguir, o artigo que eu escrevi em 2000, quando o entrevistei para a Folha de São Paulo:
Especialista desvenda o futuro das HQs
Scott McCloud lança “Reinventing Comics” nos EUA, que será comercializado apenas em lojas especializadas
ALEXANDRE MARON
DA SUCURSAL DO RIO
As histórias em quadrinhos nasceram como pinturas nas cavernas e evoluíram até a forma atual. Mas parecem estar reagindo mal aos novos tempos.
O estudioso do gênero Scott McCloud, 40, pretende provar que é hora de uma revolução em seu livro, “Reinventing Comics” (Reinventando os Quadrinhos).
O novo livro será lançado esta semana nos Estados Unidos, apenas em lojas especializadas em histórias em quadrinhos. Em agosto, chega às grandes livrarias. No Brasil, ainda não há previsão de publicação.
Na opinião do especialista, a adaptação das HQs ao meio digital, os chamados “cybercomics”, é um processo irreversível. McCloud é autor do livro “Descobrindo os Quadrinhos”. Lançada em 1993, a obra foi editada no Brasil pela Makron Books, mas está esgotada.
O livro é, ao lado de “Quadrinhos e Arte Sequencial”, do mestre Will Eisner, o melhor material de referência na dura tarefa de definir as histórias em quadrinhos como meio e como linguagem.
Tempo e papel
No livro “Descobrindo os Quadrinhos”, McCloud usa uma fórmula simples: HQs são tempo retratado pelo espaço. A definição é elegante. No universo bidimensional dos quadrinhos, um segundo ou cem anos podem passar em alguns milímetros de papel. Nos desenhos animados, por exemplo, um segundo pode expressar mil anos, mas continua sendo tempo expressando tempo.
Com o passar dos anos, McCloud diz que sua obra precisava de alguns ajustes e que era necessário escrever um novo livro para analisar tudo o que aconteceu _entre os dois lançamentos_ por conta do surgimento dos computadores.
Hoje, por exemplo, há artistas que não desenham mais em papel. Fazem a arte direto em computadores em pranchetas especiais. Depois, colorem o desenho e enviam arquivos digitais para as gráficas sem sujar as mãos de nanquim ou grafite.
O próprio McCloud afirma que perdeu uma fonte de renda muito comum entre os artistas, a venda de originais de HQs feitos em papel, porque passou a usar somente seu computador.
Após pouco mais de um ano de trabalho, o livro de McCloud apresenta, em 224 páginas, divididas em 12 capítulos, sugestões para tornar as HQs melhores como indústria e como arte.
Revolução tecnológica
“As últimas revoluções que aconteceram nos quadrinhos estavam todas ligadas a computadores. Eu gastei 120 páginas somente para falar da revolução tecnológica”, afirma o autor.
Para McCloud a indústria das HQs, em grave crise nos EUA, precisa reconquistar o público infantil, que encontrou diversão nos videogames e, nesse caso, quadrinhos em computadores são uma boa opção.
Mas ele vai mais longe. Afirma que as HQs precisam conquistar o público feminino, tendo mais leitoras e autoras. Além disso, os quadrinhos devem apresentar mais diversidade cultural e étnica.
Em sua home page oficial, www.scottmccloud.com, o autor apresenta algumas histórias em quadrinhos que, em sua opinião, seriam formas inteligentes de aproveitar as características do ciberespaço.
Para ele, a grande vantagem das HQs digitais é o tamanho infinito do espaço que o artista tem para criar. Ele mostra exemplos de histórias que parecem fluxogramas, quadrinhos indo em diversas direções ligados por linhas que guiam o olhar do leitor.
Para entender a definição, no site do autor há diversos endereços de páginas dedicadas a HQs digitais (veja quadro nesta página).
Outra preocupação de McCloud é quanto à classificação, na nova mídia, do que é e do que não é história em quadrinhos. Um exemplo é a Stan Lee Media, do criador do Homem-Aranha, que ficou conhecida como um estúdio de criação para a Internet.
Na definição estrita de McCloud _tempo mostrado em espaço_, os episódios do site de Lee são desenhos animados e não histórias em quadrinhos. Lee, por sua vez, concorda com McCloud e reconhece que está reunindo o que aprendeu por cerca de 20 anos produzindo desenhos animados para a TV e sua experiência anterior com HQs.
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Podemos mudar as tiras para melhor, diz autor
DA SUCURSAL DO RIO
Apesar de ter se tornado um dos gurus da nova onda de histórias em quadrinhos digitais, Scott McCloud diz que ama o papel. Para ele, o apego do homem ao papel está ligado a sua experiência de anos de aprendizado por meio de objetos feitos com o material.
“Se eu tivesse aprendido isso por meio de um pedaço de pedra ou de uma folha de metal também os amaria”, afirma. Leia a seguir trechos da sua entrevista à Folha.
Folha – Como será o seu livro?
Scott McCloud – “Reinventing Comics” é sobre formas pelas quais podemos mudar as HQs para melhor. Os quadrinhos precisam se tornar uma arte melhor e ser consertados como negócio. Precisam equilibrar melhor homens e mulheres escrevendo, desenhando, consumindo e ter uma maior diversidade de pessoas, conhecimentos étnicos e culturas diferentes fazendo HQs.
Folha – Como você começou a ler histórias em quadrinhos?
McCloud – Comecei quando tinha uns 14 anos, o que é tarde. Comecei com super-heróis como Demolidor e X-Men. Depois descobri os quadrinhos europeus, japoneses e os novos quadrinhos independentes americanos.
Folha – Por que analisar as HQs?
McCloud – Meu pai era engenheiro e sempre abordei as HQs como um cientista, tentando entender como funcionam. Minha primeira HQ tinha quadrinhos com formatos diferentes e estranhos. Eram entrecortados e entrelaçados em diversas formas. Coisas que eu não tinha visto ninguém fazer. Só mais tarde fiz HQs mais quietas, não tão malucas.
Folha – Qual será o futuro dos cybercomics?
McCloud – As HQs vão seguir em diversas direções na rede. Algumas vão funcionar, outras não. As mais interessantes são as que usam a Internet como uma moldura infinita, que pode seguir em frente para sempre.
Folha – Você não se sente mal ao pensar que cada vez menos teremos HQs no papel, fisicamente?
McCloud – Eu amo o papel por causa de toda a arte e das idéias que o papel trouxe para mim. Se eu tivesse recebido isso de um pedaço de pedra ou uma folha de metal, também os amaria. O papel é madeira morta sem todas aquelas idéias. Se alguma coisa nova puder trazer todas aquelas idéias para nós, aprenderemos a amar essa nova tecnologia também.
FOLHA – Você mudaria a sua definição de HQs para hoje?
McCloud – Eu fiquei com a idéia básica de “Descobrindo os Quadrinhos”. Se você olhar para alguns exemplos que uso nele, como as tapeçarias, pinturas nas paredes e coisas do tipo, são todas HQs para mim. Essas formas surgiram antes da impressão e, se surgiram antes, poderiam existir depois da impressão. A parte interessante é se livrar da página e colocar as HQs em pequenas caixas e ver as HQs crescerem para um enorme vale de tempo em um ambiente digital.
