Ação com ar mundano faz de ‘Supremacia Bourne’ o novo símbolo do gênero
Quando eu era menininho e ouvia os mais velhos falando dos filmes de antigamente, pensava que todos, todos, todos eram obras de arte que traziam idéias capazes de mudar o mundo. Filmes cheios de profundidade temática, de estofo cultural.
Vê-los, no entanto, era uma decepção. Os subtextos não estavam claros pra mim, por falta de cultura mesmo, por falta de contexto histórico e ideológico. Mas não era só isso. O problema é que na descrição romântica dos mais velhos, comédias, dramas lacrimogêneos e aventuras desvairadas ganhavam ares de obras imortais. Tudo o que era novo, tudo o que era feito no meu tempo de criança, era irrelevante. Uma imensa bobagem.
Sei que é provavelmente um desperdício usar essa introdução para falar de “A Supremacia Bourne”, mas é que a sensação que eu tive foi de que vi um novo “Operação França”, mas que isso só vai ser notado daqui mais uns dez anos.
O que são aquelas sequências de ação filmadas com câmera na mão? “Bourne” é enervante e cansativo no que essas palavras podem ter de mais positivo para a experiência de ver um filme. Você fica na pontinha da poltrona e se sente fisicamente desgastado já no meio da projeção, porque passou todo o tempo atento, acompanhando o desenrolar das situações de risco nas quais o herói se mete.
Damon, bem conduzido, dá a perfeita mistura de tensão e frieza de seu personagem. Ele nunca se desespera, mesmo diante das situações aparentemente mais insolúveis. Ao mesmo tempo, não sabe o que é o verbo relaxar.
O diretor Paul Greengrass pega o pacote pop que Doug Liman fez no primeiro filme, joga no chão, pisa em cima, suja, rasga daqui e dali e faz um trabalho impecável de transformar em algo palpável e crível o universo inconsistente de super-espiões que caminham no meio de meros mortais e são capazes de qualquer façanha. Nesta jornada, constrói um filme de ação que faz o que se espera do gênero, emociona, e ainda entrega massa cinzenta em bandeja não de prata, mas de latão, bem ao estilo mundano de “Supremacia Bourne”. De lata e suja de sangue, claro.
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