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Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

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Para ser universal, fale de sua vila

Eu não gostei de “Sinais”, do M. Night Shyamalan. Fico elaborando, elaborando os motivos e, no fim, basta dizer que não gostei e pronto. Achei o filme vazio, feito somente por conta daquela cena safada em que a família inteira enfrenta o ET. Foi por isso que eu fui ver “A Vila”, o novo filme dele, com muitas reservas.

Para minha surpresa, achei muito bom. Ok. Não é genial e é pior do que “Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”. Mas embora seja artificial em alguns momentos e tenha falhas de estrutura, é beeeem melhor do que “Sinais”. Esqueça aquelas expectativas que sempre estragam sua experiência e vá ver o filme de mente aberta. Não fique nesse papo de que é terror, suspense ou aventura. Veja o filme pelo que ele é, pelos personagens e situações.

Falar demais estraga a experiência e a Buena Vista fez questão de pedir aos jornalistas que sejam parcimoniosos na hora de falar do filme (O Ebert, do jornal Chicago Sun Times, disse que eles não querem que o final seja revelado, porque, se fosse, ninguém iria ver o filme, que ele achou uma porcaria). ELes temem que nego saia revelando o final. Não vou fazer isso, pode deixar. Só vou discutir o filme propriamente a partir do clique na palavra “Continua”… (Isso mesmo. Não continue lendo se você não quer estragar as surpresas da história).

Bom. Último aviso. Se você não viu o filme, não leia o texto abaixo.

É justo e ético tomar para si o controle das vidas de um grupo e, por meio de mentiras insidiosas, privá-los da verdade?

A pergunta é universal. Vale para as ditaduras comunistas do século passado e mesmo para certos países supostamente democráticos que vão limando os direitos civis de seus habitantes e entram em guerra baseados em mentiras.

Não é novidade ver que sempre há uma elite paternalista que acha que possui o monopólio da virtude e, por conta disso, pode controlar a verdade. Basta olhar para o governo do PT (no qual eu votei) e ver algumas destas características muito claras. Gente como essa acaba responsável por tragédias inomináveis.

Não se iluda. É disso que trata este filme de Shyamalan. Um thriller eficiente, que mete mesmo medo, mas que não deixa de falar da liberdade em uma clara alusão ao que está acontecendo agora nos Estados Unidos.

Por lá foi um fracasso. As pessoas se sentem ludibriadas pelos truques de Shyamalan e, em geral, não gostam de se ver espelhadas ali, com todos aqueles códigos de cores para o medo. Quando o pai manda a filha cega, uma ótima correlação do ato de mandar soldados ignorantes para uma missão de guerra, as pessoas só conseguem se irritar e dizer que é MEN-TIR-RAAAAA. Quando o diretor as engana e brinca com suas emoções, elas só conseguem repetir “QUE FUUUURO”. Terror e suspense de resultados. Eu, por minha vez, adoro quando me surpreendem. O cara me jogou em tantas direções, todas elas previsíveis antes de se ver o filme (alguém realmente achou que aquele monstro era verdadeiro?), que quando ele revela que estamos no presente, eu fui legitimamente surpreendido. Claro que vieram as reclamações de praxe sobre verossimilhança. Eu as entendo numa boa. Mas, intimamente, eu dou a licença ao autor de criar aquela trama maluca.

Há pontos baixos. Baixíssimos, aliás. Aquele personagem do Adrian Brody só consegue ser irritante, beirando o patético. Além disso, parece que Shyamalan ou estava preguiçoso ou reescreveu o roteiro até não ter mais noção do que estava fazendo. O que em seus outros filmes é mostrado ou revelado de forma elegante, aqui surge em flashbacks ou cortes que desviam completamente (e em prejuízo do ritmo do filme) a ação para outras direções. Um bom exemplo é quando Noah (Brody) ataca a moça na floresta. Quando ele surge, corta para a vila e mostra que a roupa que ele está usandoé uma das fantasias de monstro que, inexplicavelmente fica escondida em um lugar absolutamente inadequado.

Minutos depois, quando Ivy, a heroína, está pulando o muro, a ação volta à Vila e mostra os pais da moça abrindo a tal caixa dos segredos. A cena é gratuita e desnecessária, até porque eles resolvem abrir a maldita caixa do nada. Quando a moça surge caindo do outro lado do muro e é recebida por um guarda em um carro que tem o nome Walker, a história está contada. Em vez disso, o diretor repete a idéia de forma deselegante. Uma pena.

Há também aquele ar solene que está virando uma marca do diretor. Os personagens falam com pesar, parecem sempre contidos e cansados. É como se ele desacelerasse o filme, para poder nos assustar em certos momentos cruciais. Soa cansativo, opressivo e só faz tirar a energia das atuações.

Há muito mais, claro. Mas a metáfora da mentira que sufoca a liberdade é boa demais e, a julgar pelo que eu ouvi hoje na saída do filme, pouca genete notou.

Então, aproveite você.

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