Arquivo de 08/2004

Para ser universal, fale de sua vila

31/08/04

Eu não gostei de “Sinais”, do M. Night Shyamalan. Fico elaborando, elaborando os motivos e, no fim, basta dizer que não gostei e pronto. Achei o filme vazio, feito somente por conta daquela cena safada em que a família inteira enfrenta o ET. Foi por isso que eu fui ver “A Vila”, o novo filme dele, com muitas reservas.

Para minha surpresa, achei muito bom. Ok. Não é genial e é pior do que “Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”. Mas embora seja artificial em alguns momentos e tenha falhas de estrutura, é beeeem melhor do que “Sinais”. Esqueça aquelas expectativas que sempre estragam sua experiência e vá ver o filme de mente aberta. Não fique nesse papo de que é terror, suspense ou aventura. Veja o filme pelo que ele é, pelos personagens e situações.

Falar demais estraga a experiência e a Buena Vista fez questão de pedir aos jornalistas que sejam parcimoniosos na hora de falar do filme (O Ebert, do jornal Chicago Sun Times, disse que eles não querem que o final seja revelado, porque, se fosse, ninguém iria ver o filme, que ele achou uma porcaria). ELes temem que nego saia revelando o final. Não vou fazer isso, pode deixar. Só vou discutir o filme propriamente a partir do clique na palavra “Continua”… (Isso mesmo. Não continue lendo se você não quer estragar as surpresas da história).

Bom. Último aviso. Se você não viu o filme, não leia o texto abaixo.

É justo e ético tomar para si o controle das vidas de um grupo e, por meio de mentiras insidiosas, privá-los da verdade?

A pergunta é universal. Vale para as ditaduras comunistas do século passado e mesmo para certos países supostamente democráticos que vão limando os direitos civis de seus habitantes e entram em guerra baseados em mentiras.

Não é novidade ver que sempre há uma elite paternalista que acha que possui o monopólio da virtude e, por conta disso, pode controlar a verdade. Basta olhar para o governo do PT (no qual eu votei) e ver algumas destas características muito claras. Gente como essa acaba responsável por tragédias inomináveis.

Não se iluda. É disso que trata este filme de Shyamalan. Um thriller eficiente, que mete mesmo medo, mas que não deixa de falar da liberdade em uma clara alusão ao que está acontecendo agora nos Estados Unidos.

Por lá foi um fracasso. As pessoas se sentem ludibriadas pelos truques de Shyamalan e, em geral, não gostam de se ver espelhadas ali, com todos aqueles códigos de cores para o medo. Quando o pai manda a filha cega, uma ótima correlação do ato de mandar soldados ignorantes para uma missão de guerra, as pessoas só conseguem se irritar e dizer que é MEN-TIR-RAAAAA. Quando o diretor as engana e brinca com suas emoções, elas só conseguem repetir “QUE FUUUURO”. Terror e suspense de resultados. Eu, por minha vez, adoro quando me surpreendem. O cara me jogou em tantas direções, todas elas previsíveis antes de se ver o filme (alguém realmente achou que aquele monstro era verdadeiro?), que quando ele revela que estamos no presente, eu fui legitimamente surpreendido. Claro que vieram as reclamações de praxe sobre verossimilhança. Eu as entendo numa boa. Mas, intimamente, eu dou a licença ao autor de criar aquela trama maluca.

Há pontos baixos. Baixíssimos, aliás. Aquele personagem do Adrian Brody só consegue ser irritante, beirando o patético. Além disso, parece que Shyamalan ou estava preguiçoso ou reescreveu o roteiro até não ter mais noção do que estava fazendo. O que em seus outros filmes é mostrado ou revelado de forma elegante, aqui surge em flashbacks ou cortes que desviam completamente (e em prejuízo do ritmo do filme) a ação para outras direções. Um bom exemplo é quando Noah (Brody) ataca a moça na floresta. Quando ele surge, corta para a vila e mostra que a roupa que ele está usandoé uma das fantasias de monstro que, inexplicavelmente fica escondida em um lugar absolutamente inadequado.

Minutos depois, quando Ivy, a heroína, está pulando o muro, a ação volta à Vila e mostra os pais da moça abrindo a tal caixa dos segredos. A cena é gratuita e desnecessária, até porque eles resolvem abrir a maldita caixa do nada. Quando a moça surge caindo do outro lado do muro e é recebida por um guarda em um carro que tem o nome Walker, a história está contada. Em vez disso, o diretor repete a idéia de forma deselegante. Uma pena.

Há também aquele ar solene que está virando uma marca do diretor. Os personagens falam com pesar, parecem sempre contidos e cansados. É como se ele desacelerasse o filme, para poder nos assustar em certos momentos cruciais. Soa cansativo, opressivo e só faz tirar a energia das atuações.

Há muito mais, claro. Mas a metáfora da mentira que sufoca a liberdade é boa demais e, a julgar pelo que eu ouvi hoje na saída do filme, pouca genete notou.

Então, aproveite você.

Uma imagem diz mais que mil palavras…

31/08/04

Emviada por e-mail…

Quem quer mudar o mundo?

29/08/04

Meu silêncio na última semana é justificado. Eu passei os últimos seis dias em um curso de gestão pesado e intensivo, na Amana-Key.

Não vou entrar em detalhes de como é o curso, mas vale dizer que o mais fascinante é que, além do papo de sempre sobre estratégia, relacionamentos, clima organizacional e coisas do tipo, os caras pregam que, um executivo melhor só sai de um ser humano melhor, mais completo, mais envolvido socialmente, mais responsável. Em uma palavra: virtuoso.

A gente sai de lá imaginando o que 80 executivos de dezenas de grandes empresas em todo o Brasil vão fazer quando voltarem ao trabalho.

Outra coisa que impressiona é ver como as pessoas em geral estão infelizes com a sujeira com a qual se vêem envolvidas no cotidiano de seus trabalhos. A reação de todos às idéias até meio bicho grilo do curso só mostrou como as pessoas estão insatisfeitas e como querem fazer a diferença e se reconectar com os sonhos e valores de sua juventude.

Conseguirão?

Nova campanha

29/08/04

Dane-se a política. Se a gente elegeu um ex-metalúrgico, podemos eleger qualquer um. Essa é a beleza do processo!!!

Então, definitivamente, eu lanço a campanha BERNARDINHO PRESIDENTE!!!

O cara é líder, saber administrar um grupo e tem uma enorme capacidade de alcançar objetivos.

Alguma alma está disposta a criar um banner aí?

O espetacular time de vôlei masculino do Brasil não merecia menos do que a medalha de ouro. :)

O bode Bush na sala

23/08/04


Filme de Michael Moore abomina a história

DEMÉTRIO MAGNOLI
ESPECIAL PARA A FOLHA

“Fahrenheit 11 de Setembro”, de Michael Moore, não é o que parece. Ele se apresenta como documentário, mas é um panfleto político com finalidade eleitoral. Aparece para o público como obra criativa independente, mas é um instrumento da campanha de John Kerry à Presidência. Tem sido recepcionado como exposição dos verdadeiros motivos da invasão do Iraque, mas é uma peça destinada a ocultar o núcleo da política externa americana.

A estrutura narrativa do filme revela pleno domínio da arte da manipulação. A tese política desenrola-se na parte inicial e conclui-se na parte final, sempre em ritmo de videoclipe. O miolo, mais lento, é constituído por dois fragmentos de documentário. O primeiro, curto, aborda a “guerra psicológica” interna conduzida pela administração Bush por meio da oscilação dos níveis de alerta antiterror. O segundo, mais longo, desvenda as conexões entre o recrutamento militar e o desemprego gerado pela desindustrialização no Meio-Oeste e capta os impactos da campanha no Iraque sobre os jovens soldados. Cada um desses trechos é uma oportunidade desperdiçada de elaboração de documentários geniais. Mas, do ponto de vista de Moore, não há desperdício, pois eles desempenham a função ideológica de conferir credibilidade documental ao restante da narrativa.

O resto é lixo, construído com a tesoura que seleciona, a cola que recontextualiza e a determinação de prender os fatos à camisa de força da tese política. O método, tão antigo como os filmes de propaganda de Stálin ou Hitler, beneficia-se das técnicas contemporâneas de edição.

O resto do texto está na versão digital da edição impressa da Folha do domingo, dia 22/08/2004.

Não posso afirmar que o filme é mesmo uma peça destinada a ocultar o núcleo da política externa americana, como mestre Magnoli diz. Mas o fato é que o filme serve muito bem aos interesses de Kerry, o candidato democrata. A forma como transforma mais um resultado do hábito invasor, belicoso e intervencionista americano em uma aventura de um grupo isolado, ganancioso e desonesto é daninha no longo prazo e desvia a atenção do debate mais amplo que deveria ser feito.

O próprio Moore falou desse hábito intervencionista em “Tiros em Columbine”, mas abandona a tese aqui. O histórico de que ele não ignora o assunto é um bom indício de que Magnoli esteja mesmo certo e que a agenda seja a de reescrever a história e preparar terreno para ações democratas. Numa discussão minha com uns amigos algum tempo atrás, eu falava de como é importante ter um boçal belicoso na presidência americana. Ele faz o trabalho sujo, prende e arrebenta, mata e trucida. Depois, chega o carinha legal, o democrata educado e moderado e pede desculpas, mas não recua um milímetro do que seu antecessor conquistou. É a técnica do bode na sala.

O pouco que eu aprendi de política Internacional veio dos livros do professor Demétrio Magnoli, assim, me sinto inclinado a levar muito a sério o que ele diz. Tire suas próprias conclusões.

Caros profetas do apocalipse

21/08/04

Como estão vocês? Continuam fazendo um enorme esforço para que as pessoas confundam as coisas. Ou são vocês que confundem? Não sei ainda direito se é por burrice ou por serem só desonestos e egoístas. Ainda estou tentando definir.

Deixa eu explicar uma coisa. A decepção com o governo Lula não tem nada a ver com o abandono dos valores que nos levaram a colocá-lo no Planalto. Foram ele e sua trupe de bons rapazes que foram se revelando verdadeiros gangsteres que abandonaram (se é que um dia realmente seguiram) um certo pacote de idéias.

Quando nós (não vocês, por favor, não se coloquem do lado de cá) fomos enganados, não compramos o modelo absurdo seguido por esse governo desencontrado. Compramos a idéia de que ele iria governar com justiça social, com desenvolvimento, com crescimento econômico, com inclusão. Eles estão cometendo os erros de outros políticos do passado e mostrando que são mais iguais a eles do que a gente imaginava. Mas vocês já sabiam, né, seus safadinhos.

São eles que estão a todo custo tentando cercear a liberdade de expressão em diversos níveis da sociedade, punindo servidores que falem demais, evitando que contas públicas sejam fiscalizadas e coisas do tipo. Seguindo a sua cartilha a risca.

Então não venham pintar a decepção com o governo Lula como o fracasso de um modelo que nunca foi implantado. Ele e seu grupo nos traíram ao ficar do seu lado. O lado errado. O da ganância desmedida, da exploração, do egoísmo e de uma visão de mundo ridícula que condena pessoas inocentes a uma vida de miséria e esquecimento.

Vocês levaram ele pro seu lado. Agora fiquem com ele.

Atenciosamente

Alexandre Maron

Você quer liberdade pra quê?

21/08/04

Vou deixar uma coisa bem clara. Eu não quero conselhos de jornalismo formados por medalhões e amigo dos amigos dizendo o que um jornalista faz ou não faz. Não engulo essa comparação ridícula com médico e advogado, que têm seus conselhos regionais e nacionais regulando o exercício destas profissões. Jornalista não é médico nem advogado.

Vou deixar outra coisa clara. As pessoas não deveriam ter que fazer uma faculdade específica para ter o direito de escrever em um jornal ou revista. Isso é só corporativismo. Uma piada que todo mundo vai engolindo e que não leva a lugar nenhum. As regras básicas do que deveria ser o bom jornalismo são bem conhecidas e podem ser aprendidas em algumas horas, o resto é a vivência de cada profissional.

Quando ele comete um erro, há os códigos civil e criminal para garantir sua punição. E acredite, jornais e revistas estão sendo punidos todos os dias por falhas.

As leis deveriam garantir a liberdade e não tentar coibi-la. Se há uma nova lei a ser feita, deveria ser a de que empresas de jornalismo têm que abrir suas contas, mostrar com quem estão fazendo negócio. E quando vendem capas, primeiras páginas ou simplesmente reportagens, devem SEMPRE avisar e diferenciar aquilo como material promocional.

Voltando ao início. Advogados lidam com o universo das leis, precisam sabê-las de trás para frente. Médicos vivem em um universo de procedimentos e desafios técnicos bem específicos que visam unicamente salvar vidas.

O terreno no qual um jornalista pisa é o pantanoso território da expressão. Cada vez mais eu me convenço que o individualismo (e a burrice) fazem com que exista um mini-ditador dentro de cada um de nós que está doidinho pra ver arbitrariedades serem realizadas, desde que seja por alguma “boa causa”, o que já vira um conceito profundamente aberto.

Uma boa causa, para algumas pessoas, pode ser dar pauladas em mendigos que enfeiam as ruas e afastam a clientela. Para outros, uma boa causa poderia ser colocar esses facínoras espancadores de mendigos na cadeia. Sabe como é. A coisa está sempre variando.

Muito bonitinho pensar em regular o jornalismo. Eu fico me perguntando quem faria isso. E, pior, como realmente isso ia funcionar? Há uma história contada pela CNN (e que eu nem sei se é mesmo verdade, mas vá lá) de que a exibição de “Fahrenheit 11 de Setembro” em Cuba, patrocinada por Fidel, teve um efeito contrário ao que ele esperava em alguns dos que viram o documentário. Em vez de odiarem mais George Bush, muitos deles ficaram sonhando com um país onde poderiam falar tudo aquilo de seu presidente e continuar vivos e em liberdade.

O Cristiano Dias mesmo comentou num post mais abaixo que “liberdade de expressão é o seu direito de concordar comigo”. É fácil entender isso quando você vê a incrível situação da Venezuela. Os caras têm um presidente eleito de forma legítima e uma fatia da classe alta resolveu tirá-lo do poder de qualquer maneira. Até um golpe eles tentaram fazer. Depois, não satisfeitos, convocaram um referendo que poderia retirar Chavez da presidência. Perderam e o resultado foi confirmado por diversos organismos internacionais. Nem assim admitiram a derrota.

Sinceramente, eu acho que Chávez só não virou um ditador porque, se virasse, não durava dois dias. A imagem que eu tenho daqui de longe, com a visão filtrada por jornais, sites e telejornais, é a de que ele é um populista e oportunista. Provavelmente nunca vou saber a verdade. Mas sei que ele está cercado de cobras.

Voltando ao cerne da questão. A gente só dá valor à liberdade quando ela se vai. Leis específicas para regular a liberdade de expressão (e a imprensa) só vão fazer que as pessoas sejam intimidadas e parem de dizer o que acham.

É preciso redefinir o que diabos é um jornalista e como funciona sua profissão. Em um mundo onde qualquer um pode ter seu site e alguns amigos podem ter seus sites pessoais e formar uma mini-agência de informações, os jornais e revistas estão ficando mais e mais obsoletos. Em democracias mais maduras do que a nossa, não é preciso fazer curso de jornalismo para ser jornalista. Seu histórico escolar é bem vindo, mas não funciona como um definidor de quem tem e de quem não tem direito de trabalhar na área.

No atual ritmo da cavalgada, daqui a dez anos vamos rir de uma discussão como essa.

Mas fale aí. Discorde de mim, concorde, seja bem vindo ao debate.

Mais um, mais um!

20/08/04

Blog do Bruno Accioly no ar.

Deixa eu respirar que eu coloco na barrinha ali do lado.

Jânio, com toda propriedade

19/08/04

Para não deixar a sabedoria presidencial sem um reparo -no jornalismo fica sempre bem um pequeno reparo junto com o aplauso, e vice-versa-, parece-me que o presidente poderia precisar melhor o alcance do adjetivo tão bem escolhido. Nem todos merecem ser atingidos pelo denuncismo de Lula. Covardes, bem entendido, são só essa maioria que não tem a coragem de se pôr a serviço do governo.

Mais em O bando de covardes

Não vamos ser inocentes e ignorar que há interesses poderosos em jogo aqui. Os donos das empresas de comunicação não querem ser regulados por motivos muito menos nobres do que eles querem fazer você crer. Alguns deles, claro, são mais interessados na causa da liberdade de expressão do que outros. Mas há os que, à moda da oposição venezuelana (que merece ótimas colunas de Clovis Rossi e Eliane Catanhêde, na página 2), só aceitam que você fale quando o que você diz interessa a eles.

Vamos discutir isso mais a frente…

Mentiras cinematográficas

19/08/04

As distribuidoras americanas no Brasil estão chiando em comunicados oficiais contra a novas regras propostas pelo Ministério da Cultura, que, se aprovadas como estão, iriam aumentar a taxação do setor, incluindo somas vultosas para filmes com muitas cópias.

Que o projeto não é perfeito, tudo bem, a gente sabe. Mas esse terrorismo de avisar que as entradas de cinema vão subir e que as cidades fora do eixo Rio-SP vão passar a demorar três meses a mais para receber os principais filmes são no mínimo ridículas.

Em primeiro lugar, os ingressos vêm subindo descaradamente nos últimos anos. Antes, ir ao cinema era um programa relativamente barato, agora é um escoadouro de dinheiro vergonhoso. Pagar R$ 16 em uma entrada de multiplex, justo o lugar que, pela estrutura otimizada, devia cobrar menos é um acinte.

Depois, dane-se que os fimes vão demorar mais para chegar aqui ou ali.

Vamos discutir isso com números de verdade, nada de chororô de empresário que vai deixar de ganhar 15 para ganhar 13 e não aceita fazer isso nem que seja em nome da saúde do mercado.

De resto, eu vou até rir se eles aumentarem os ingressos porque aí é que as pessoas vão de vez parar de ir ao cinema. Basta pensar que 61% dos brasileiros preferem ver filmes em casa (71% preferem ver eventos esportivos pela TV) do que sair e se submeter ao inferno das salas de cinema lotadas de gente mal educada e barulhenta.