Não aquela do Bush de pouco mais de um ano atrás. Essa todo mundo sabe que não estava cumprida e acabou sendo uma missão comprida, interminável…
O que eu fiz foi ver “Fahrenheit 9/11″, do Michael Moore.
O filme realiza bem o trabalho de provar que Bush é… Ok. Que é um safado, que roubou a eleição, que levou seu país à guerra e matou centenas de americanos e milhares de iraquianos para favorecer os grupos econômicos que financiaram sua eleição. Tudo é feito com habilidade, humor e ironia.
Mas acho que a cruzada de Michael Moore contra Bush, embora útil no curto prazo, vai acabar fazendo um dano terrível no longo. O problema é que ele faz parecer que Bush é o demônio encarnado e que, em se tirando o homem da Casa Branca, tudo mais dará certo. Não é isso que ele diz, mas é essa a sensação que a urgência dos argumentos e das situações apresentadas de forma simplista até demais sugerem.
O que virá depois de George W. Bush? Se é que haverá outro homem que não ele na Casa Branca no que vem. Mas é que atribuir todas as mazelas do mundo a George W. Bush e tirá-lo do contexto histórico, ignorar quem o financia e está por trás de suas ações, é simplificar o mundo. Ou talvez, a estratégia seja essa mesmo. Um inimigo de cada vez… Mas cada vez mais fica a sensação de ele deveria assumir um provável, embora escondido, apoio democrata.
O que fica do filme é uma coleção de momentos memoráveis. Moore tem um olhar agudo e, mesmo que de vez em quando exagere, coloca as situações em perspectiva e sabe explicar direitinho os pontos que tenta esclarecer. Seus críticos, claro, reclamam de coisas como a abertura genial em que Moore mostra os cabeças do governo Bush sendo maquiados para pronunciamentos na TV. É claro que todo mundo faz isso. Quem acha que Moore está dizendo que só eles se maquiam, perdeu completamente a piada. O que importa é ressaltar o tom de farsa da administração Bush.
No entanto, o que é tocante mesmo é a sucessão de imagens às quais os americanos não tiveram acesso na TV. São iraquianos mutilados e mortos, americanos dizendo que não entendem porque estão lá (como sempre) e famílias americanas que, inicialmente, apóiam a guerra e depois se vêem desesperadas ao perder os filhos para que Bush e seus amigos ganhem bilhões com a guerra. A cena em que a sra. Lipscomb, mãe de um jovem sargento que morreu no Iraque, vai a Washington e resolve visitar a Casa Branca é de deixar qualquer um arrepiado. A Casa Branca que sempre é vista nos filmes grandiosa, com jardins verdejantes, surge cercada de arames e placas de proteção como… Isso. Como o palácio de governo de uma distopia.
Além disso, ele mostra militares recrutando pessoas normais nas ruas para mandá-las para a guerra (como você vê na foto, mais fotos no site oficial). Claro que eles vão fazer isso nas cidade cujas economias foram arradasdas pela política econômica americana dos últimos 30 anos…
E, claro, há os factóides que Moore adora fazer e que muita gente odeia. Para provar seu ponto de vista, ele vai até Washington tentar fazer algum congressista se comprometer a mandar seu filho para a Guerra do Iraque. Sim, porque ele descobre que só um congressista teve seu filho envolvido no esforço de guerra. Claro que ele é ignorado por todos os políticos que cruzam com ele.
Não adianta dizerem que Moore é exibicionista e egocêntrico. Mesmo que por vias tortas, ele está fazendo o trabalho da imprensa que não sai mais da redação e não sabe mais do seu valor. Seria bom ter alguém como ele aqui no Brasil desmascarando as safadezas de nossos governantes. É difícil imaginar tanta cara de pau como a da família Bush, mas temos uns canalhas de vulto por aqui.
Seria bom ter versões nacionais de Michael Moore, ao menos pela provocação. Certamente ele teria muito assunto por aqui.