Eu demorei pra ver “Elephant”, de Gus Van Sant. Vi hoje e fiquei impressionado. As cenas são improvisadas e não há atores nos papéis da molecada. O tempo do filme é absolutamente contemplativo. Van Sant nos deixa espiar os personagens longamente, ficar ao lado deles apreciando quem eles são, o que fazem. Uma bisbilhotice interessantíssima.
Aí, você vai lendo o que todo mundo falou do filme e o que vai ecoando, se repetindo, é que Van Sant não toma partido e que não tenta explicar nada.
Besteira. Ele toma posição, claro. Ao não fazer um tratado convencional, ele investe na idéia de que o que gerou aquele evento funesto em Columbine foi algo inexplicável pelos meios convencionais. Não dizer que foram os filmes, que foram os pais distantes, que foi somente uma coisa ou outra já é uma posição bem definida. Para mim, as pessoas então tão condicionadas pela idéia de que a solução de tudo é culpar filmes, música e jogos ou a mídia, que quando elas vêem um filme como esse, que vai seguindo seus personagens sem pressa, mostrando um ato assassino no meio de coisas corriqueiras, elas se sentem obrigadas a:
1. Elogiar o filme que, de modo geral, é bem filmado e construído mesmo;
2. Usar esse discurso de que o autor não assume uma posição, quando ele claramente tem uma opinião…
E essa opinião está escondida e me incomoda em algumas coisas. Há, sim, uma tentativa de culpar os videogames violentos. Ele faz uma analogia clara entre os jogos de tiro em 3D e o tiroteio causado pela dupla de adolescentes assassinos. Há até o truque de, no enquadramento de um tiro, reproduzir a forma como o jogo apresenta os tiroteios. Nenhum outro garoto é mostrado fazendo aquilo, logo se presume que exista uma conexão. Além disso, incomoda que os dois garotos que, em alguns minutos, vão matar dezenas de colegas, embora não sejam declaradamente gays, tenham uma cena homossexual. O que me intriga é que o próprio Van Sant é gay. Então porque diabos cair no clichê dos assassinos malucos homossexuais?
O único personagem que você segue até em casa é o jovem assassino. Você nota que ele vive em um porão, que mal conversa com os pais, que toca piano, mas odeia a música, que é humilhado pelos colegas e outras pequenas informações, que vão montando o perfil do louco homicida. Então, me desculpe, mas há ali, embora escondido, um esforço, sim, de estabalecer uma linha de racioncínio a respeito de quem é o adolescente que resolve ir matar os colegas de escola.
No fim das contas, o que Van Sant faz é tirar a responsabilidade dos pais, ao mostrar que o garoto que é filho de um alcoolatra que o convida para caçar no fim-de-semana é mais um menino normal. Em vez de pegar uma arma para matar quem aparecer pela frente, ele sai avisando todo mundo de que algo ruim vai acontecer dentro da escola.
Para mim, o que há de brilhante em “Elephant” é o clímax. É perfeito ao retratar a violência do ataque dos meninos sem exagerar nem glorificar. Nesta sequência o que ele faz é nos confrontar com nossos desejos mais mórbidos. Nos colocar em armadilhas, quase que pedindo que notemos nossos sentimentos mesquinhos a cada morte.
Quando os tiros matam alguém, a platéia se sente incomodada de modo inexplicável, porque as mortes não são do jeito que ela está acostumada. Não há câmera lenta nem múltiplos ângulos. Tudo dura uma fração de segundo. Em um momento crucial, quando um dos assassinos vai atirar, Van Sant corta um segundo antes, e não ouvimos nem o som de um tiro. Nosso desapontamento, e o desconforto que sentimos com isso, dão a profundidade do nosso condicionamento sobre as convenções dos filmes. E sobre nossa sede por fatos bizarros, pelas mortes e pelo sangue.