Arquivo de 03/2004

Sabor de infância

31/03/04

Aconteceu uma coisa sensacional. O bolo Ana Maria de chocolate com creme de baunilha, que eu comia no CA, mudou de sabor e ficou parecido com o que eu comia quando era molequinho.

Sério.

Quando eu tinha seis anos, o bolo Ana Maria era mais sequinho. Quando eu cresci e provei uns, notei que estava mais úmido. Pois não é que os caras reformularam o bolinho e ele voltou a ficar sequinho como antes?!

Eu já cheguei ao absurdo de deixar o bolo fora do saquinho um dia inteiro para comê-lo mais seco de noite. Não adiantou.

Agora, justiça foi feita, o bolinho passou a ter sabor de infância. :)

Uma aula

30/03/04

De vez em quando, um jornalista experiente resolve dar uma aula, entregar ao público parte da grande quantidade de conhecimento que ele acumulou em décadas de carreira. Mas isso acontece só de vez em quando. Hoje, pode-se contar nos dedos as vozes da lucidez. Paulo Henrique Amorim é uma delas.

E o texto que ele acaba de colocar no UOL NEWS é de leitura obrigatória.

Acredito que, na América Latina, todo presidente trabalhista é uma vítima em potencial de um golpe de Estado. Acredito que no Brasil sobrevivem instrumentos muito úteis a um golpe de Estado. Acredito também que esses instrumentos são testados no Brasil e na América Latina com frequência. Não são nenhuma novidade.

Apesar do júbilo que percebi entre os que, ao relembrar ‘64, observaram que “isso não se repetirá”, pois, entre muitos motivos, “as instituições democráticas estão mais fortes”, peço licença para discordar.

Há várias maneiras de dar um golpe de Estado hoje no Brasil. Não imagino como um golpe de Estado possa acabar - se com um tiro no peito no Palácio do Catete, ou com o incêndio do La Moneda. Mas, conheço várias maneiras de botar o golpe para andar.

Tá esperando o que para ir ler tudo?

Um empurrãozinho

30/03/04

Particularmente, eu não sou fãzoco do José Dirceu, não.

Mas que as semanais estão fazendo uma forcinha extra para derrubar o homem de vez, isso estão…

O prefácio da edição brasileira do livro de Michael Moore

28/03/04

A Ilustrada publicou hoje o prefácio que Michael Moore escreveu especialmente para o prefácio da edição brasileira de seu último livro “Cara, Cadê Meu País?”. A edição chega às livrarias esta semana, provavelmente amanhã.

Tem alguns trechos iguaizinhos ao que ele escreveu no prefácio à edição inglesa, mas é mesmo um texto feito especialmente para nós.

Você pode ler o texto integral a seguir.

Saudações, meus amigos brasileiros e orgulhosos membros da Coalizão dos Sem Vontade!

Qual é o problema com vocês? Por que é que vocês não demonstram boa vontade e não se juntam a nós nesta guerrinha contra o Iraque? Vocês não sabem que é preciso obedecer e fazer o que foi mandado quando a única superpotência sobre o mundo está ladrando? Nós latimos, vocês pulam - essa é a regra! O que é que houve? Mr. Bush não ofereceu uma caixinha boa o bastante pra animá-los a apresentar armas e bombardear o povo do Iraque? Vocês não sabiam que Saddam, o Malfeitor, tinha armas de destruição em massa? Tremendas armas! Isso mesmo! Assustadoras! Ele… ele… ele pode ficar invisível, e ele tem ocultos e malignos poderes do tipo, ahn, ele, ele, ele pode transformar você numa traça! E, e… ele pode voar, também! Ele pousou no topo do Empire State Building - eu vi- e parecia que ia acabar com a gente! No duro!

Para os milhões de nós que, aqui nos Estados Unidos, tratamos de fazer o melhor que podemos para impedir que se alastre pelo mundo a ameaça do regime Bush, seus esforços aí no Brasil para confrontar e resistir a Bush são altamente necessários. Mais que isso: são desesperadamente apreciados. Não nos servem para nada esses líderes cretinos (como Tony Blair) que seguem como carneirinhos as idéias cretinas do nosso próprio e cretino “presidente”. Afortunadamente vocês - o belo povo brasileiro -, junto a um punhado de outro países, não se intimidaram com a provocação da guerra. O ano que passou assistiu à ocorrência, ao redor do mundo, de algumas das maiores demonstrações contra a guerra em toda a história. Tudo que eu posso dizer a vocês é obrigado, obrigado, obrigado.

Recentemente, em viagens ao exterior, as pessoas me agradecem e me saúdam como “o único americano são”. É um cumprimento, mas não é verdade. Eu posso garantir a vocês que nem toda a América enlouqueceu. Por favor, jamais esqueçam esta simples e única verdade: a maioria dos americanos não votou em George W. Bush. Ele não está na Casa Branca pela vontade do povo americano. A maioria dos americanos, contrariamente à crença popular, é de fato bastante progressista e liberal - só que faltam líderes realmente comprometidos com o caráter liberal para servi-los. Quando isso for consertado (eu espero que logo), as coisas vão melhorar.

Eu venho aqui para lhes dizer que não estou sozinho, e que na verdade estou prensado no meio dessa nova maioria americana. Dezenas de milhões de cidadãos pensam como eu penso e vice-versa. Acontece que vocês não ouvem falar neles - muito menos pela imprensa. Mas eles estão aí - e sua ira apenas começa a emergir à superfície. O que eu faço é apenas continuar ajudando na tarefa de perfurar essa camada, de forma que a raiva emergente desses milhões possa jorrar poderosa, como um gêiser de ação democrática.

É compreensível que o Brasil e o resto do mundo pirem com o comportamento dos Estados Unidos da América. Vocês têm razão para tal. A turma no poder aqui é pra lá de Deus me livre. Tudo que vocês têm a fazer é perguntar a si mesmos: “Se esses gangsters são capazes de roubar uma eleição, do que mais eles não seriam capazes de fazer?”. Eu só digo o seguinte: nada vai detê-los na destruição do que estiver no seu caminho, especialmente se eles estiverem no caminho de fazer mais uma graninha. E eles vão castigar vocês, sejam aliados ou não, se vocês não se ajoelharem e baixarem a cabeça à passagem deles, em marcha para a próxima troca da guarda do poder (preferivelmente, o poder de uma nação que possua uns bons e lucrativos lençóis de petróleo, obrigado). Tudo isso vai acabar por levá-los - e a nós - à ruína, é claro. Eu acho que a maioria dos americanos, por uma estreita margem, se dá conta, em algum ponto de suas entranhas, dessa situação dramática. Eles estão apenas miseravelmente perdidos, em parte por uma forçosa ignorância que começa na escola, onde eles aprendem algo próximo a nada sobre o restante do mundo, e que continua ao longo de todas as suas vidas adultas, servidas por uma mídia que eliminou qualquer traço de notícias estrangeiras que não tenham algo a ver com os Estados Unidos.

Que nada saibamos respeito de vocês deve ser a coisa mais assustadora do mundo a nosso respeito.

A maioria de nós não consegue localizar vocês no mapa - e, pior, também não conseguimos localizar nosso inimigo. De acordo com uma pesquisa recente, 85% dos americanos adultos com idades entre 18 e 25 anos não conseguem achar o Iraque em um mapa. Eu acho que o primeiro parágrafo do código de leis internacionais deveria ser o seguinte: se um povo não consegue encontrar o seu inimigo sobre o globo terrestre, ele não tem permissão para bombardeá-lo.

É possível que um povo tão ignorante esteja no controle do mundo? Antes de mais nada, como foi possível que chegássemos lá? Oitenta e dois por cento de nós não temos nem sequer um passaporte! Só um punhado de nós pode falar em outra língua que não o inglês (e nós mal falamos essa…). George W. só agora anda vendo o resto do mundo, e porque ele tem de ver, poirque, uai, é u qui us presidente faiz.

Eu acho que nós só estamos no comando do mundo porque temos armas maiores. É engraçado como isso sempre parece funcionar. Nós “ganhamos” a Guerra Fria por desistência - a União Soviética, graças ao sr. Gorbatchev, decidiu simplesmente saltar fora depois que eles se viram estrangulados em um sistema que não funcionava, só isso. O regime que controlava a Alemanha Oriental caiu porque as pessoas saíram às ruas e começaram a bater num Muro com marretas. Cara, saca essa - troca de regime sem que um único tiro seja disparado!

Alguma coisa aconteceu na África do Sul também - ninguém precisou bombardeá-la para que seu povo fosse libertado! Aliás, contam-se por aí umas duas dúzias de países liberados, nessa década e pouco que passou, graças a uma combinação de pressão mundial e, acima de tudo, da própria deliberação dos povos, que se ergueram de forma não-violenta para tomar as rédeas do poder.

Mas como nós não temos notícias de nada que ocorra para além do Brooklyn ou de Malibu, eu acho que nós não ficamos sabendo como se fazem legítimas mudanças de regime. Daí que, no caso do Iraque, não foi preciso muito para puxar a manta sobre os olhos dos americanos (conectar o 11 de setembro de 2001 a Saddam Hussein é o meu preferido entre os artifícios usados) e fazê-los cair nessa.

Ok, é compreensível. Nós não aprendemos mesmo e, como eu estou certo de que vocês sabem, somos uns crentes irrecuperáveis. Somos muito sociáveis e generosos e simples na nossa maneira de ser. Se vocês nos disserem que precisam da nossa ajuda, nós saímos correndo em seu socorro. Se vocês nos disserem que jumento voa, nós vamos acreditar (desde que tenha aparecido na TV). É assim que nós somos e, eu tenho certeza, vocês acham charmoso esse nosso jeito. Me digam se não, admitam, vá, é disso que vocês gostam em nós! Sem mencionar nosso espírito pra cima, empreendedor! Antes do meio-dia nós apresentaremos ao mundo a próxima grande invenção! Determinação! Ambição! Firmes na postura do “sim, eu posso”! Tá certo, nós não tivemos um único dia de folga nos últimos seis anos - mas e daí? Quem é que precisa dormir? Nós temos um mundo pra governar!

Essas são, suponho, as razões pelas quais nós temos nos comportado desse jeito. Agora pergunto eu: que desculpa que vocês têm? Vocês têm uma rica, única, maravilhosa cultura. O Brasil é um lugar tão fantástico que fez com que a família real portuguesa abandonasse o próprio país e fosse praí montar a lojinha! Tudo que eu tenho visto do Brasil - o povo, as praias, a música, as praias, a dança e… eu já falei das praias? - me fez ficar convencido: Deus tem de ser brasileiro. Mas apesar de todas essas vantagens, o Brasil tem uma porção de senões, e é mais que tempo que os afortunados façam alguma coisa a respeito. O Brasil tem de se erguer acima dos seus problemas, do racismo arraigado, do qual muitos não querem nem falar, aos déficits nacionais, sob os quais muitos gostariam de ver seu país esmagado. Fazer frente à América na questão da guerra (e ainda gozar com a cara das políticas de imigração do Bush) foi uma atitude fantástica. Eleger um líder popular que saiu das classes trabalhadoras foi um tremendo passo à frente. Resistir à Alca também é bom. Sigam no caminho, lutem o bom combate. Você têm a economia mais poderosa entre as das Américas do Sul e Central - vocês estão na posição de dar o exemplo, de mostrar a outros o caminho certo. Tenham sempre isso em mente. E, pelo amor de Deus, parem de gastar dinheiro com o Exército. O Paraguai já está ferrado o bastante sem a “ajuda militar” que vocês possam dar.

Agora as boas notícias: enquanto eu escrevo este prólogo, uma nova pesquisa de opinião registra que, pela primeira vez, a maioria dos americanos não acredita que Bush venha a ter um segundo mandato. Essa é uma tremenda notícia, considerando-se o apoio que ele teve a princípio para sua guerrinha, a mesma que acabou por se tornar uma guerra sem fim. Viu só? Há vantagens no fato de que os americanos tenham uma capacidade tão limitada de concentração e na nossa necessidade de sermos gratificados de forma instantânea. O Iraque não foi como Granada, e já encheu o saco! Nós queremos programas de TV com final feliz! Ei, por que esses caras continuam atirando na gente? Eu quero ir embora! Uáááááááááááááááááááááááá’!!!

Só mais uma coisa… Do ano passado para cá, desde que meu livro “Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas” e meu documentário “Tiros em Columbine” foram lançados, eu tenho ficado impressionado com a resposta ao meu trabalho em todo o mundo. Dois anos atrás, foi uma honra mandar o Columbine ao Festival de Cinema do Rio, e eu estou igualmente honrado que este, meu mais recente livro, tenha sido agora traduzido para o português. Nestes vinte e quatro meses que então se passaram, tenho tido um retorno cada vez maior de mais e mais brasileiros. Espero que todos vocês continuem trocando idéias comigo - sobre o meu país, sobre o seu país - e que, unidos às pessoas que estão conosco em todo o mundo, nós possamos nos proteger uns aos outros das más decisões dessas figuras que freqüentemente se proclamam nossos líderes. Mais de cinco milhões de cópias de “Stupid White Men” foram impressas em todo o mundo (parece que só Harry Potter vendeu mais), e a bilheteria de “Tiros em Columbine” estabeleceu o recorde de todos os tempos para um filme documentário. Estou muitíssimo agradecido, porque significa que posso seguir publicando as palavras que eu quero publicar e fazendo os filmes que eu quero fazer, sem interferências. É uma dádiva, que não tomo como um acaso. Eu a tomo como um sinal de que o público deslocou-se da direita e que o tempo está maduro para um movimento em direção àquelas coisas boas que nós gostaríamos que acontecessem. É encorajador saber que, no ano passado, numa época em que Bush era supostamente tão popular (como a mídia insistiu erradamente em registrar), o livro que os americanos mais compraram e leram, mais que qualquer outro, levava por título “Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas”, e era estrelado por ninguém menos que George W. Bush. Vocês viram? Nem tudo está perdido!

Tenham fé! Confiem! Tenham esperança! Mantenham o Carnaval pelado!

O preço da caixa de “O Homem da Máfia” parece extorsão

28/03/04

Uma das melhores séries que eu já vi chega ao DVD. Legal.

Mas US$ 62 por meia temporada!!!!!!???? Cacimba, que roubo!!

A série passou por aqui com o nome “O Homem da Máfia”, provavelmente porque o cara que escolheu o programa para a Globo só viu os primeiros episódios ou mesmo o piloto. O fato é que, quando Vinnie Terranova partiu para outras missões que nada tinha a ver com mafiosos, o nome ficou meio fora do lugar.

Foi só mais um efeito da abordagem inovadora dos criadores do seriado: os arcos de histórias. Em vez daquela coisa enfadonha do herói ter que resolver tudo em um epísódio, os caras desenvolviam as tramas em ciclos de 10 a 12 capítulos. Havia objetivos menores a cada história, mas o grande plano, e o clímax, estavam guardados para um momento mais oportuno.

Acompanhei eletrizado Vinnie entrando na máfia e reunindo provas. E quando chegou o momento de entregar Sony Steelgrave, ele sofreu. Se sentiu um verme. Como diria o CrisDias, que drama, que emoção.

Depois, foi enfrentando novas situações. A série durou quatro temporadas e foi murchando, com o risível quarto ano, no qual Ken Whal, o ator principal, não quis participar e o tema virou “o desaparecimento de Vinnie Terranova”. Não durou nove episódios.

Bom, mas o legal é que estão lançando tudo em DVD. Aos poucos, claro. Caro, é óbvio. Mas vai ser possível ter a série toda. Assim espero…

O herói, aquele ser incompreendido

28/03/04

Eu e a minha mania de juntar várias edições de uma revista para depois de ler de um fôlego só…

Pouco mais de um ano atrás eu ou vi falar que a DC ia relançar a franquia “disque ‘h’ para ‘herói’”. Era um gibizinho bobo, mas simpático, sobre pessoas normais que ganhavam superpoderes. Nem liguei muito. Aí, umas semanas atrás, conversei com o Érico Assis pelo telefone e ele me disse: “Leia “HERO”, você vai se surpreender”. Foi algo como a gota ´d’água. Eu precisava ler aqueles gibis.

É tudo uma questão de olhar idéias bocós com o jeitão mais, digamos, cheio de estilo e tudo muda de figura. Foi assim que Grant Morrison transformou o ridículo Homem-Animal em um dos melhores gibis que eu já li.

Pois bem, “H.E.R.O.” é ótimo. Simples. Um adjetivo. Ótimo.

O autor, Wll Pfeiffer, transformou a revista em uma título capaz de discutir diversos temas. O mais óbvio deles é a comparação com a onda de reality TV. Sabe como é. Hoje, todo mundo quer estar na TV, nos jornais, nas revistas. Quer fazer um weblog, uma página, escrever alguma coisa. Ser relevante. Todo mundo quer ser especial e muitos estão dispostos a qualquer coisa para conseguir isso.

A brincadeira é o leitor seguir uma pessoa normal tocada por aquela situação insólita de ganhar poderes sobre-humanos. Assim como em “Big Brother”, em “Survivor” (ou “No Limite”), em “Bachelor” ou “Bachelorette” e a lista vai seguindo.´ Mas Pfeiffer não pára por aí. Ele vai seguindo e o leitor que se segure, porque a jornada é cheia de obstáculos. E, claro, não há como não lembrar dos primeiros números de “100 Balas”, quando a revista ainda parecia uma sequência de histórias nas quais um mané recebia uma arma carregada e nós ficávamos desesperados para saber o que ele ia fazer com aquilo.

Voltando a “H.E.R.O.”, a autor coloca a sede de poder como algo muito parecido com um vício. Os personagens são confrontados com os novos poderes e vão deixando suas vidas comuns de lado. Vão negligenciando a normalidade porque se acham maiores do que a vida e nesse processo vão se autodestruindo. É uma visão moralista, mas funciona muito bem quando bem conduzida. E é.

(Continua após a ilustração)

O primeiro arco, de arrasar, mostra um jovem pobre que mora em uma pequena cidade abatida pelo desemprego depois que uma fábrica de automóveis é fechada. Ele não tem pai, a mãe o deixou sozinho, seu emprego é uma porcaria e um dia, ao ver o Superman, decide que nunca será nada que chegue perto da grandeza daquela figura semi-divina. Um dia ele encontra a tal traquitana que transforma pessoas comuns em seres superpoderosos. Logo usa o brinquedo e sai se metendo em confusões que o levam, depois de diversas situações limite, a ligar para uma daqueles serviçoes de valorização da vida. Ele quer se matar, sim, mas precisa contar para alguém o que aconteceu. Uma última tentativa desesperada de registrar sua existência.

Nos números seguintes, o aparelho vai pulando para as mãos de um executivo, uma estudante, um grupop de adolescentes que resolvem criar uma versão de Jackass com superpoderes e até um homem pré-histórico, para mostrar que a revista pode se situar em qualquer tempo e lugar. Um atestado do potencial de uma boa idéia.

E não é só isso. A arte do tal Kanu, que eu nunca tinha visto antes, é linda. Um delicioso traço com cara de indie que vai se modificando ao longo das edições, captando o ar mundano dos personagens equilíbrando rabiscos grossos com cenas cheias de ação, fumaça e explosões. No meio de tanto trabalho ruim e pasteurizado saindo de todos os lados, é animador encontrar um trabalho assim. Agora vou esperar a maldita revista todos os meses!

Mas uma coisa é muito interessante. Praticamente em nenhum momento as pessoas pensam em usar os tais superpoders para realmente fazer o bem. Suas idéias são voltadas apenas para o lado glamouroso de ter poderes. É como querer ser famosa como a Fernanda Montenegro, mas não estar disposta a pssar por todo o treinamento e sacrifícios que uma atriz com ela passou para ser quem é. Fast food. Fast life.

É sintomático de nossos tempos que as pessoas leiam a palavra “herói” no tecladinho diversas vezes e mesmo assim nunca lhes caia a ficha. Elas nunca conseguem ter a vontade de agir como um… Bem… Herói.

Fatos e factóides

27/03/04

É a mídia embarcando na histeria…

“Homem confessa homicídio depois de ver ‘A Paixão de Cristo’”

Ao linkar pra essa notícia, eu sei que estou colaborando para espalhar a maldita notícia imbecil, mas seja indulgente comigo, já que eu não posso comentar o que você não pode ver.

O que me irrita nessa história é como nós da mídia compramos esse modelo de divulgação baseado na construção de factóides. Não serve pra nada a não ser promover o filme, que já é campeão de bilheteria fácil.

Na mesma linha, no outro dia eu vi uma notícia no UOL Tablóide contando que uma menininha de 4 anos foi pega fugindo de casa pra encontrar o “noivo” de 6. Fala sério. Eu conheço uma dúzia de histórias como essa que acontecem em tudo quanto é família. Eu mesmo tive mais de uma briga com a minha mãe quando era molequinho, tipo cinco ou seis anos e resolvi fugir de casa. Numa das vezes, um vizinho me pegou na rua, vestidinho com quem ia sair pra algo importante, mochilinha, pedindo carona.

Em outra, depois de uma manhã qualquer em que eu resolvi fazer manha e minha mãe marotamente brincou que, se eu queria ir embora, tinha que ser sem nada dado pelo pais. Tipo assim…. Pelado. Ela riu achando que isso ia me parar. Pois eu tirei a roupa toda e fui saindo de casa, ganhando o corredor e o elevador. Cheguei pelado no playground e ela me pegou lá. Eu estava blefando, lembro muito bem. Mesmo pequenininho, estava com vergonha e pedia desesperadamente que ela me resgatasse logo. Como boa mãe, ela estava monitorando tudo e quando viu que eu chegara ali embaixo, resolveu parar a brincadeira, com medo que eu fosse mais maluco do que ela antecipara e acabasse saindo pelado na rua. Nem tanto pela vergonha, mas por aquele eterno medo materno de que eu me resfriasse, ela botou um fim na brincadeira.

Enquanto isso, a Carta Capital publica uma entrevista com um suposto ex-chefão do FBI no Brasil que resolve falar um monte de coisas e ninguém se dá ao trabalho de, ao menos, vá lá, se não for para repercutir com alguém importante, ao menos desmascarar a figura que parece meio tagarela além da conta. Ai, ai, ai… Ferrou de vez.

Guerra sem fim, fim, fim, fim, fim…

22/03/04

Os Israelenses mataram o chefão do Hamas.

Era um velhinho em uma cadeira de rodas que, segundo a propaganda, conseguia ordenar atrocidades de enrubescer vilões de histórias em quadrinhos dos anos 40.

Mas me diz como os israelenses acham que matar esse senhor resolve o caso? Podem acabar recebendo mais um atentado terrível com muitos mortos e mais lágrimas.

Se há uma coisa que os governos ainda parecem não ter aprendido é que o terrorismo não se combate com força pura e simples. Sempre aparece mais um maluco disposto a morrer e levar um monte de gente junto. E quem morre somos eu e você, nunca o governante que posa de fortão. Ele está cercado de seguranças. Mas eles fazem parecer que são importantes, que estão fazendo algo maior do que a vida, que cumprem uma grande missão. E seu povo os segue como cachorrinhos.

Seja no Hamas ou no governo israelense, parece que só há gente irracional. Ou talvez eles não queiram, de nenhum dos lados, acabar com essa guerra sangrenta. Jamais.

Falando um pouco mais de liberdade

21/03/04

Num tempo em que todo mundo acha que qualquer pessoa sem nenhum tipo de formação filosófica direcionada pode exercer o jornalismo, como se fosse um profissão sem nenhuma especificidade, parece que os blogueiros vão acabar aprendendo algumas duras lições.

Em primeiro lugar, o que, afinal é liberdade de expressão? É entrar no seu site e sair distribuindo xingamentos e platitudes para todos os lados? Pois esta é a opção predileta de 90% dos weblogs.

Bem… Uma novidade, garotada. Não é por acaso que você não vê jornalistas SÉRIOS fazendo isso nas TVs e jornais. Um jornalista DECENTE sabe que é preciso embasar as afirmações que ele faz. E sabe também que é preciso apurar informações antes de se falar qualquer coisa. São leis básicas não só do jornalismo, mas da civilidade. Gente que sai pela rua gritando e chingando todo mundo só porque quer é vista com reservas ou chamada de maluca pelos seus pares.

Na blogosfera, na Internet, é a mesma coisa.

Quando um jornalista (ou aspirante a) entra em um jornal SÉRIO e DECENTE, mesmo que ele não tenha feito faculdade de jornalismo, vai aprendendo na convivência com seus editores SÉRIOS e DECENTES o que deve e o que não deve ser feito. Quando eles não possuem nenhuma das duas qualidades essenciais (a SERIEDADE e a DECÊNCIA, acho que já falei nelas) o repórter pode seguir em frente sem essa base e se tornar, bem… Alguém não exatamente err… SÉRIO nem DECENTE. Me fiz entender?

E por que eu estou dizendo isso com o viés do jornalismo? Simples. Porque esses profissionais são (ou deviam ser) formados não para fazer jornal, ou revista, ou TV, ou rádio, mas para lidar com a passagem de informação por todos esses meios de comunicação.

Com a chegada da Internet, essa profissão entrou em xeque, porque subitamente, qualquer um podia abrir seu website e sair falando sobre o mundo. E há websites pessoais que têm mais importância e credibilidade do que muitas colunas em grandes portais.

Mas a ficha que não parece ter caído para muitas dessas pessoas é que, ao estar em um meio público e ter centenas ou milhares de leitores, sua responsabilidade aumenta. Elas começam a chamar atenção para si e para suas opiniões. E tudo isso pode lhes causar problemas. Em alguns casos eles vão estar certos e não terão nada a temer, como o Edney e o CrisDias. Em outros, no entanto, uma frase mal colocada poderá lhes custar alguns milhares de Reais. É bom saber onde estamos pisando.

Para tanto é que eu volto no que eu perguntei lá em cima sobre liberdade de expressão. Um ambiente como essa comunidade virtual de blogueiros é um tubo de ensaio no qual se fazem experimentos sociais diários. Os limites estão sendo descobertos e em alguns casos a legislação pode até precisar ser atualizada para ser capaz de lidar com os casos que vão surgindo. É um mundo novo, mas nem precisa ser admirável.

Os casos do Cris Dias, do Edney e de outras tantas pessoas estão ligados a tudo o que eu estou falando não porque eles tenham cometido erros éticos em seus sites. Mas os questionamentos que eles levantam são importantes para que os blogueiros em geral não percam de vista o que têm e o que podem perder. E conscientes de seus direitos, serão alvos mais duros para os ataques dos valentões.

Eu vi tudo, até o que era ruim

21/03/04

Não fosse por cerca de seis minutos idiotas, “O Olho que Tudo Vê” seria um filminho de terror esperto e cativante. Não, peraí. Fui duro, fui duro. O filme é esperto e cativante, sim. Mas quase põe tudo a perder…

A premissa é a de um Big Brother. Cinco pessoas topam viver em uma casa por seis meses. Se um deles sair, todos perdem o dinheiro. Nos últimos dias, quando estão próximos do grande prêmio, a situação começa a sair do controle.

Não há travellings, nem dollies. Tudo é feito simulando câmeras de vigilância de reality show. E tudo é editado usando essa lógica. O resultado poderia ser genial, mas aí vêm os tais cinco ou seis minutos que nos fazem lembrar do cinemão boboca ao qual esse filme não deveria pertencer, dada a materialização eficiente feita até ali de uma boa idéia.

A explicação técnica para o personagem descobrir tudo o que descobre é absolutamente idiota e estraga a suspensão de descrença cuidadosa e eficientemenete construída até ali. É isso é tão importante porque são esses seis minutos que viram o filme em outra direção e que precipitam o clímax. Talvez seja falta de visão. Sei lá.