Hoje eu ri e quase chorei com as duas comédias a que assisti. É que as boas idéias das premissas são muitas vezes contaminadas pela ânsia dos produtores de tornarem seus filmes insípidos e inodoros. ELes não querem problema e acabam estragando filmes que poderiam ser perfeitos.
No caso de “Ligado em Você”, dos irmãos Farrelly (de “Quem Vai Ficar com Mary” e “Debi e Loide”), eu ri muito. As piadas sobre os irmãos siameses são engraçadas, sim. Mas a tentativa desesperada dos diretores roteiristas de ser bacanas com os deficientes físicos chega a irritar.
Assim, os dois irmãos em vez de terem problemas com base em suas dificuldades são, isso sim, estrelas da cidade. São melhores no esporte, abriram uma lanchonete na qual servem os lanches em tempo recorde usando técnica e sincronia perfeitas que só quem vive junto 24 horas por dia poderia ter. A coisa complica quando um dos irmãos decide que quer ser astro de Hollywood. A dupla se manda pra Los Angeles e acaba numa série lixão da Fox, ao lado de Cher. Eles vão se separar e sentir que eram especiais quando juntos e que agora perderam aquele algo mais que tinham antes.
A sensação é que os caras perderam qualquer sombra de coragem e resolveram agradar todo mundo. Parecem politicamente incorretos, mas não são. E como não sabem dirigir, acabam fazendo um filme que nem é a comédia hilariante do passado e nem consegue ter a consistência que eles querem imprimir. Arranca risos, sim, mas fica no meio do caminho.
A outra comédia é o delicioso “Escola do Rock”, com Jack Black, e essa é só risos. É divertido, engraçado e simpático. Se você não pensar muito sobre o que está sendo dito e feito, vai achar tudo muito legal. Tem pedigree na direção, porque o Linklater é bacanérrimo mesmo. O Black sofre da síndrome de Pedro Cardoso: é maravilhoso interpretando variações do mesmo personagem hilário que inventou.
Mas, e lá vem o “mas”, o filme se veste de libelo ao rock and roll (que prega a rebeldia e o questionamento da autoridade), mas acaba vendendo a idéia de que rock é algo que se ensina. Então nosso herói mostra como se comportavam os reis do rock do passado para que a molecada aprenda o que é atitude. Acabam virando miniposers. Não no sentido dos posers, que se vestem daquele jeito ridículo para se encaixar em algum nicho de mercado, mas como crianças tentando mimetizar a atitude do que se convencionou chamar rock and roll. Além disso, vêm com o papo de que rock and roll não tem nada a ver com sexo e drogas (no sentido amplo). Onde? Quando? Só em um filme que precisa ser consumido por uma audiência família, politicamente correta.
Mas, cara, como eu prefiro os meninos miniposers ao que estou vendo proliferar por todos os cantos. Uns moleques que não têm opinião, que aceitam toda e qualquer autoridade sem problemas e deixam suas vidas virarem episódio de “Barrados no Baile”, de “Dawson’s Creek” ou de alguma outra série cheia de jovens pasteurizados. No geral, apesar das inconsistências que eu vi (posso estar enganado, afinal), a mensagem de que seus pais nem sempre sabem o que é melhor pra você e de que é preciso questionar as idéias pré-concebidas para achar o próprio caminho já vale o ingresso e a compra do DVD no futuro.
Se em alguns momentos “Escola” flerta com o erro, a gafe, o saldo final é mais que positivo. As performances de Black e do elenco infantil simpático e inspirado fazem a mágica de eliminar os questionamentos da platéia e mergulhá-la no prazer da música. Afinal, Black ama rock and roll, tem sua própria banda e leva o filme nas costas com um tesão incrível.