VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

Volte sempre!

A mentira como solução

Os movimentos culturais têm essa característica excitante de ter o que dizer de forma involuntária. Por uma certa ignorância, por não terem sido preparadas para entender isso, as pessoas acham que o fato de um diretor ou um artista não estarem manifestando uma idéia conscientemente, qualquer análise é papo de crítico. É chute. Mas, sinto dizer, não é tão simples assim. Produto cultural não cai no mundo. Ele é gestado e as decisões de ordem estética vêm diretamente da história pessoal de quem toma as decisões artísticas de um projeto. É por isso que mesmo Rambo e Cobra (ou principalmente esses filmes) têm algo a dizer. Nesses filmes está implícita uma moral, uma ideologia que refletem seu tempo. Negros, aliás.

Falei e falei pra tentar justificar as análises malucas que eu vou fazendo neste espaço aqui. Quando eu vi “Invasões Bárbaras” pouco mais de um mês atrás, fui tocado pelo filme e pelo que estava implícito na história. Ali, o pai socialista está mortalmente doente e vê seu sistema de idéias ser destroçado e derrubado pelo filho que não o entende e que abraçou idéias diametralmente opostas. Para completar a metáfora, o pai socialista morre de mãos dadas com o filho capitalista. E morre por obra desse mesmo filho, que torce leis com a força de sua carteira para dar luxos ao pai moribundo. É uma bela representação simbólica inserida no contexto de um melodrama.

Hoje fui ver “Peixe Grande” e pra mim é impossível não comparar esse filmes. Como aqui se trabalha dentro da lógica de Hollywood, embora a premissa inicial seja muito parecida com “Invasões”, o desenvolvimento é muito diferente. Na hora de aplicar o mesmo ponto de partida ao jeito americano e aos seus valores, o filho que renega os valores do pai logo se vê dobrado pela tradição e pelo próprio hábito de preferir a fantasia à realidade. Em pouco tempo, ele adere à ilusão e está fazendo igualzinho ao pai. É um tema caro aos americanos essa defesa da tradição e dos valores familiares acima de tudo.

No nível literal, eu confesso que fui sendo domado pela habilidade narrativa do diretor Tim Burton e até me emocionei com a história. Mas não dá pra ignorar que o que estava sendo defendido ali é a lógica americana de mentir, de fingir que as armas de destruição em massa estavam no Iraque e, quando provado que não estavam, diz-se “oops!” e tudo segue seu rumo. É fingir que o presidente Bush é um homem inteligente e honesto e que ele não roubou a eleição e nem engana o seu povo. É como o pai de “Peixe Grande” diz no filme. Minha história é muito mais interessante do que a sua…

Então, mais uma vez me desculpem as pessoas que amaram “Peixe Grande”. Se meu coração infantil ficou tocado pelas imagens lindas, meu cérebro zuniu de desespero a medida que o filho cético foi cedendo às lorotas e resolveu criar para seus filhos um mundo de ilusões.

Isso me faz lembrar uma passagem genial no início do livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan.

Ele conta como um dia, no outono de 1939, estava com a mãe conversando num fim de tarde enquanto esperavam a chegada do papai Sagan. No meio da conversa, que tratava de uma briga do menino com um coleguinha que acontecera naquele mesmo dia e rendera alguns pontos, ela olhou para as águas da baía e disse:

- Há gente lutando lá longe, matando-se uns aos outros – disse apontando para o outro lado do Atlântico.
- Sei – respondeu o menino Carl Sagan – Posso vê-los.
- Não, você não pode vê-los - Replicou ela, ceticamente – Estão longe demais.

Me incomoda que as pessoas precisem de mentiras e ilusões para enxergar as graças da vida. É a base do tormento e de toda a manipulação pela qual passa o ser humano.


VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

Deixe seu Comentário