Os movimentos culturais têm essa característica excitante de ter o que dizer de forma involuntária. Por uma certa ignorância, por não terem sido preparadas para entender isso, as pessoas acham que o fato de um diretor ou um artista não estarem manifestando uma idéia conscientemente, qualquer análise é papo de crítico. É chute. Mas, sinto dizer, não é tão simples assim. Produto cultural não cai no mundo. Ele é gestado e as decisões de ordem estética vêm diretamente da história pessoal de quem toma as decisões artísticas de um projeto. É por isso que mesmo Rambo e Cobra (ou principalmente esses filmes) têm algo a dizer. Nesses filmes está implícita uma moral, uma ideologia que refletem seu tempo. Negros, aliás.
Falei e falei pra tentar justificar as análises malucas que eu vou fazendo neste espaço aqui. Quando eu vi “Invasões Bárbaras” pouco mais de um mês atrás, fui tocado pelo filme e pelo que estava implícito na história. Ali, o pai socialista está mortalmente doente e vê seu sistema de idéias ser destroçado e derrubado pelo filho que não o entende e que abraçou idéias diametralmente opostas. Para completar a metáfora, o pai socialista morre de mãos dadas com o filho capitalista. E morre por obra desse mesmo filho, que torce leis com a força de sua carteira para dar luxos ao pai moribundo. É uma bela representação simbólica inserida no contexto de um melodrama.
Hoje fui ver “Peixe Grande” e pra mim é impossível não comparar esse filmes. Como aqui se trabalha dentro da lógica de Hollywood, embora a premissa inicial seja muito parecida com Invasões, o desenvolvimento é muito diferente. Na hora de aplicar o mesmo ponto de partida ao jeito americano e aos seus valores, o filho que renega os valores do pai logo se vê dobrado pela tradição e pelo próprio hábito de preferir a fantasia à realidade. Em pouco tempo, ele adere à ilusão e está fazendo igualzinho ao pai. É um tema caro aos americanos essa defesa da tradição e dos valores familiares acima de tudo.
No nível literal, eu confesso que fui sendo domado pela habilidade narrativa do diretor Tim Burton e até me emocionei com a história. Mas não dá pra ignorar que o que estava sendo defendido ali é a lógica americana de mentir, de fingir que as armas de destruição em massa estavam no Iraque e, quando provado que não estavam, diz-se oops! e tudo segue seu rumo. É fingir que o presidente Bush é um homem inteligente e honesto e que ele não roubou a eleição e nem engana o seu povo. É como o pai de Peixe Grande diz no filme. Minha história é muito mais interessante do que a sua…
Então, mais uma vez me desculpem as pessoas que amaram Peixe Grande. Se meu coração infantil ficou tocado pelas imagens lindas, meu cérebro zuniu de desespero a medida que o filho cético foi cedendo às lorotas e resolveu criar para seus filhos um mundo de ilusões.
Isso me faz lembrar uma passagem genial no início do livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan.
Ele conta como um dia, no outono de 1939, estava com a mãe conversando num fim de tarde enquanto esperavam a chegada do papai Sagan. No meio da conversa, que tratava de uma briga do menino com um coleguinha que acontecera naquele mesmo dia e rendera alguns pontos, ela olhou para as águas da baía e disse:
- Há gente lutando lá longe, matando-se uns aos outros disse apontando para o outro lado do Atlântico.
- Sei respondeu o menino Carl Sagan Posso vê-los.
- Não, você não pode vê-los - Replicou ela, ceticamente Estão longe demais.
Me incomoda que as pessoas precisem de mentiras e ilusões para enxergar as graças da vida. É a base do tormento e de toda a manipulação pela qual passa o ser humano.