Arquivo de 01/2004

O fanatismo é parte de nós

24/01/04

O CrisDias levantou um assunto no site dele, citando um texto sobre o preconceito contra o ateísmo publicado no Observatório de Imprensa. E esse texto foi indicado pelo Rafa (dá-lhe referência!)

Em poucas horas, a área de comentários relacionada a esse assunto no site do Cris pegou fogo. Depois de alguns comentários que parecem ter sido feitos por ateus que gostaram do texto e queriam se manifestar (sempre com a retórica anti-católica que a gente aprende nas aulas de história do segundo grau), surgiu uma pessoa religiosa que usou os argumentos de sempre, além de, claro, chamar os ateus de burros:

“Me soa - no mínimo - falta de raciocínio e lógica, que ironicamente são as coisas mais defendidas por quem não crê em Deus. Desmerecer a autoria de tudo ao uma inteligência superior é burrice.”

Depois do ataque, veio o contra-ataque a pessoa (não sei se é homem ou mulher, porque usou somente as iniciais) foi chamada de “retardado e analfabeto” em outro comentário. O que importa é que isso mostra como as pessoas se irritam rapidamene com esses assuntos que mexem com toda a base de suas vidas. Tem gente que não bebe e não fuma, não porque esses hábitos fazem mal a saúde, mas porque um líder religioso proibiu. Tem gente que muda o jeito de se vestir porque alguém vetou certas peças de roupa. Deveria ser trivial, mas a coisa toda é mais complexa do que parece.

Não gosto do termo ateu. Prefiro a palavra “iluminista” para definir uma pessoa que não aceita as definições fáceis, que resolvem tudo. É uma definição pessoal, claro.

Acho que essa sempre vai ser a diferença entre um iluminista e um religioso: o iluminista não aceita a primeira explicação simplista que vem à mente. O religioso, se for dito por um líder de seu grupo, aceita aquilo com fervor.

Pra mim é muito simples. A religião é uma sobra da primeira maneira que o homem tentou explicar o mundo. Como ele ainda era rudimentar e não tinha conhecimento, recursos ou mesmo um método para fazer estudos profundos, saía chutando. Foi assim que começou a adorar deuses que representavam a natureza: sol, lua, ventos, chuva, terra.

Mas, tadinhos, quando a ciência surgiu, e com ela todo um método de estudar as coisas, Deus teve que se afastar. Então, eles foram vendo que sol e lua eram uma estrela e um satélite, que os movimentos climáticos, embora complexos, podiam ser explicados e até previstos. E aí eles iam dizendo “errr… Deus não está ali, está no céu”. E cada vez mais longe.

Eu adoro essa metáfora porque aí alguém vai dizer que Deus se afastou do homem quando ele criou a ciência. Até porque foi aí que surgiram os outros clichês, que são apenas imponderáveis: “Deus está em todas as coisas”, “Deus é uma força que governa o universo” e por aí vai.

É um jogo de gato e rato. Mas continua direitinho como era no início. Quem quer acreditar, ao ter sua crença questionada, em vez de capitular, inventa uma nova baboseira para continuar dando sentido a sua existência. Pois eu acho que em vez de colocar a bíblia em todas as carteiras, esses caras deviam dar livros como “O Mundo Assombrado pelos Demônios” para todos os jovens na pré adolescência.

O que eu acho engraçado é que o comportamento religioso é só mais uma característica dos seres humanos que se repete em outras áreas. É assim que as pessoas idolatram outras ou escolhem uma obra ou autor para se tornar fãs (termo que vem de fanático). Experimente falar mal de “Matrix” ou “Senhor dos Anéis” em um lugar público que você será atacado por um fã ofendido.

Eu mesmo escevi um texto sobre “Senhor dos Anéis” no SoBReCarGa no qual apontava o que eu não gostei no terceiro filme e recebi uma enxurrada de e-mails me chamando de ignorante, iletrado, burro e, aparentemente a pior de todas as ofensas para um fã de “Senhor dos Anéis”, leitor de Harry Potter.

Como você vê, esse raciocício irracional (?!) não é uma exclusividade dos religiosos. É um programinha rodando lá no nosso cérebro que tem múltiplas utilidades.

O que muitos não gostam de encarar é que cresce o número de pessoas que, assim como os religiosos nem sabem direito porque são religiosos, se dizem atéias sem entender direito o que leva uma pessoa a essa posição. Estão sendo tão irracionais quanto as religiosas. Ao contrário da religião, que é o caminho fácil, o racionalismo é o deifícil, porque exige que você seja capaz de mudar, de questionar e enfrentar muitas vezes a ira de um professor, um padre, um pastor ou um dos pais.

Imagine. Idéias são como vírus, passam por transferência. Se instalam e tentam desesperadamente passar ao próximo hospedeiro. Você assume por verdade que a Terra gira em torno do sol. Acredita nas leis da física que são ensinadas na escola. Mas não necessariamente refez as experiências que levaram pessoas no passado a essas conclusões. Como você pode ter certeza de que é tudo verdade? Acreditar no que dizem a você sem questionamento é religião.

Costumo dizer que ninguém nasce ateu. As pessoas sofrem todo tipo de influência religiosa quando são crianças e isso não é casual. A igreja escolheu fazer isso porque sabe que, ao formar uma criança com uma visão religiosa, a estará ganhando para todo o sempre. Mas em alguns casos, a criança se torna um jovem racinalista e vira iluminista. E do iluminismo ao ateísmo, ou ao menos ao agnosticismo, é um pulo.

É assim que se faz

23/01/04

Uma coisa que sempre me irritou em seriados é que, obrigados a colocar os nomes de atores convidados nos créditos do início de um episódio, você sempre sabia que o maldito Canceroso ia aparecer no episódio de “Arquivo X” em questão. Aquilo me deixava maluco.

Pois a série que caga para as convenções idiotas e faz tudo por uma surpresa espetacular jogou fora esse expediente. Para que o espectador seja realmente surpreendido pela aparição de personagens-chave, os caras NÃO colocam os nomes do atores nos início. Só no final.

Foi essa estratégia genial que me levou a ter calafrios no penúltimo episódio do terceiro ano de “24″. Cada vez mais eletrizante. Fui pego de surpresa pelos caras e isso eu prezo muito em um filme ou programa de TV. Aliás, o ponto fraco este ano está no presidente Palmer. Parece que os escritores não sabem o que fazer para mantê-lo vivendo algo interessante. É algo difícil mesmo depois dos eventos espetaculares do ano passado, em que ele chegou a ser destituído do poder por algumas horas…

Isso me lembra o gibi histórico do Homem-Aranha (número 121) que mostra a morte da namorada do herói, Gwen Stacy. Depois de uma capa que diz “um desses personagens vai morrer”, os créditos e o título (”O dia em que Gwen Stacy morreu”) estão na última página, em que Gwen está nos braços do Aranha. Genial.

Vou te contar…

23/01/04

Uma coisa que eu aprendi nessa vida é que, quando as atribulações malucas do cotidiano te afastam dos bons livros e você começa a notar que não completou nenhuma leitura decente no último mês, mês e meio, está na hora de recorrer a um truque sujo: ler um best seller.

Sim. Qual é o problema? Sou um leitor alucinado. É revista, gibi, livro, folheto, o que cair na minha mão tá valendo. Li pouquíssimos best sellers na vida. Nunca folheei um Harold Robbins e o único Sidney Sheldon que eu li até hoje foi “Se Houver Amanhã”, quando tinha uns 12 anos, sei lá. E de todos os medalhões de hoje em dia, só li uns dois livros do Michael Crichton e outros dois do Tom Clancy.

Tudo isso caiu por terra desde que eu comecei a cuidar com mais carinho da página de sugestões de livros da revista que edito. Ali, preciso encontrar um mix de livro cult, pesado, leve, infanto-juvenil e por aí vai. E por conta disso, meu preconceitos caem por terra rapidinho. No esforço de conhecer um dos livros que chegou pra mim, fui fisgado totalmente.

“Não Conte a Ninguém”, de Harlan Coben, foi aberto hoje pela manhã e mesmo eu tendo trabalhado, ido ao dentista e tudo mais, já se vão quase 200 páginas devoradas. O enredo conta a história de um viúvo que, oito anos depois da morte da esposa, começa a achar indícios de que ela pode estar viva! E tudo começa com uma mensagem de e-mail que pede que ele mantenha segredo. São intrigas e conspirações em uma narrativa cinematográfica típica desses livros. O que é, aliás, o que os torna tão “filmáveis”.

O diabo do livro vai virar filme dirigido por Michael Apted, de filmes tão diversos como “007 - O Mundo não É o Bastante” e “Nas MOntanhas dos Gorilas”. Mas não espere não. Leia o livro. É tão saboroso e rapidinho de ler. Quem sabe depois você não engrena e devora alguma coisa mais séria? :)

Atualizando: Terminei de madrugada mesmo, já que tive insônia. O livro piora bem no final, com um monte de reviravoltas mirabolantes que destroem a boa suspensão de descrença construída nos primeiros capítulos. Mas a verdade é que você está tão desesperado para saber se o herói da história David Beck vai sair vivo dessa, e se Elizabeth, sua mulher morta oito anos atrás, está viva ou não, que tudo mais perde a importância. Em geral uma leitura cativante e descompromissada, que ninguém é de ferro.

Pode até ser sem fundo, mas sem criatividade, jamais!!!

22/01/04

Chegou por e-mail essa coleção de papeizinhos que as pessoas colocam nos cheques pré-datados. Cada um mais engraçado do que o outro.

Veja o resto da imagem: parte 1 e parte 2

O pior cego…

21/01/04

“Em 12 horas, 11 pessoas são baleadas em tiroteios na Linha Amarela”

“Em apenas 12 horas entre a noite de terça-feira e a manhã desta quarta-feira, 11 pessoas foram baleadas em dois tiroteios na Linha Amarela e nas imediações da via expressa, que liga as zonas norte e oeste do Rio.”

Circulando, circulando. Está tudo sob controle. Não há nada para se ver por aqui!!!

Procura-se um líder honrado

21/01/04

Robert Redford (“Butch Cassidy e Sundance Kid”. “Golpe de Mestre”, “Jogo de Espiões” e mais dezenas de filmes memoráveis, além de ter fundado o Sundance Festival) é um liberal daqueles que são recebidos com narizes torcidos pelos conservadores americanos. Mas então, perguntei eu, o que ele estaria fazendo no papel de um general três estrelas em “A Última Fortaleza’?

Uma olhada na premissa do filme pode até desanimar. Um dos generais mais admirados dos Estados Unidos comete um erro que leva oito homens à morte em uma missão desastrada e, mesmo sem chegar a ser julgado em corte marcial, exige cumprir uma pena de dez anos numa prisão militar para poder pagar pelo erro que reconhece que cometeu. O general é Redford e o diretor da prisão, um coronel, é interpretado pelo ótimo James Gandolfini (de “Família Soprano”. Em pouco tempo, o ex-general e o coronel estarão lutando pela liderança dentro da prisão.

Em essência, é um típico filme de prisão, mas aqui cabe enxergar a metáfora representada pela prisão e pelos personagens em questão e o que se tem é um filme que representa de forma aguda a situação da América atual, embora tenha sido feito antes do 11 de setembro. Na posição de superpotência militar e econômica, os Estados Unidos precisam mais do que nunca de líderes honrados em vez de homens sem carisma que apenas estão em posição de comando por algum acaso ou armação eleitoral.

É um filme que discute a liderança -a inata e a herdada- e mostra que os grandes líderes não exercem o poder só porque querem, mas porque sabem que têm uma obrigação moral de fazê-lo. E ao exercê-lo, o fazem pelos liderados e não para defender interesses escusos.

Falando assim, parece um filmaço com aço, para ganhar Oscar e tudo. Mas embora principalmente a performance de Gandolfini seja memorável, o filme vai se desfazendo com o tempo por conta dos furos e das falhas de estrutura que vão ficando aparentes. Um bom exemplo é o tamanho do aparato que os comandados do general conseguem juntar. É difícil de engolir que tantos objetos tenham sido montados debaixo do nariz dos guardas. Se em outros filmes de prisão a montagem dos apetrechos longe dos olhos da segurança do presídio é um dos componentes saborosos, aqui nem o espectador é agraciado com essas explicações. Incomoda.

Diante das dificuldades, a solução do general para resolver o impasse do diretor corrupto e inepto é simples: revolução. Aí, apesar de algumas patriotadas, você entende o que o Robert Redford está fazendo ali.

Delírios de repressão

21/01/04

Cena maluca do sonho cheio de delírios que eu tive esta noite, bêbado (nem tanto) e com gripe (isso sim, bastante). Uma pessoa toma uma garrafa de vinho das minhas mãos e diz:

- Senhor. O sonho é seu. Mas a garrafa, é minha.

Até em sonho nego vem me encher o saco!!!!

Avary fala dos desencontros

21/01/04

Finalmente vi Regras da Atração e constatei que não adianta James Van Der Beek, o Dawson, tentar limpar a barra. Ele pode fazer o que quiser que aquela imagem de menininho limpinho e bonzinho não vai se dissipar fácil. Ele até manda bem no papel, mas quando faz coisas como se limpar depois de um number two, tirar meleca do nariz ou comer menininhas em festinhas de arromba, soa meio forçado, sei lá. É um caso clássico de estigma mesmo. Vai ser difícil pra ele arrumar emprego. Até na série dele ele perdeu a garota para o colega mais interessante….

Regras fala da juventude vivendo sozinha, sem as regras dos pais em um mundo novo. É baseado em um romance de Bret Easton Ellis e não está coalhado daquele moralismo tacanho dos filmes americanos médios. O mais bacana é que no âmago, a história fala dos desencontros e de como as pessoas vão se afastando e se chocando aleatoriamente nas estradas da vida.

Se eu fosse das estrelas de uma a cinco para o filme, duas estariam garantidas pela sequência na qual o casal central se “conecta”. Para materializar essa metáfora, o diretor criou uma seqüência memorável com tela dividida que começa com o garoto e a garota acordando em quartos diferentes e indo para uma aula que é cancelada. Eles se encontram no corredor, ainda com a tela dividia, e conversam, os dois em close, olhando para a câmera. Quando ela resolve tirar os óculos dele, a câmera sai do close, se afasta lentamente e as duas imagens se fundem em uma só, num plano que mostra os dois frente a frente. É genial.

Roger Avary, o diretor, foi parceiro de trabalho de Tarantino. Dizem que os dois se separaram porque Taranta levava os louros pelas idéias do amigo. Dá para ver que o cara é um virtuose visual pela cena da conexão e por outra sequência na qual um dos personagens narra sua viagem pela Europa. A tal abertura, com seqüências inteiras com reversão me cansou um pouco. O truque gasta rápido e é preciso saber a hora de parar…

NWN dá mais um passo na virtualidade

21/01/04

Pouco menos de dois anos atrás, eu escrevi um artigo para a Galileu no qual falava de como jogos como Neverwinter Nights tornaram possível criar mundos particulares. Durante a pesquisa para a reportagem, tive o prazer de fazer uma visita guiada por um mundo criado por um rapaz. Ele ia me teleportando por vários ambientes e mostrando tudo como se fossem cenários de um parque temático.

A experiência é fascinante se você colocar em perspectiva, porque em essência é você entrando em uma construção de centenas de hectares feita por um rapaz em um quarto nas suas horas vagas. Se isso não é fascinante, nem sei mais o que é. Bom, esqueci de citar que ele tinha os poderes de um deus ali dentro. Com o controle dele, muda-se o clima, os sons, os objetos e até as vidas de quem estiver lá. Ali, ele é quem manda mesmo.

A essência do artigo era dizer que, em vez de receber pessoas na sua casa, na sua página na web, no seu weblog, era possível construir um lugar virtual e marcar encontros com amigos. Eu, Cris, Nicole, Pedro, Caio e Stimpy já fizemos isso usando inclusive um sistema de comunicação por áudio que nos permitia conversar em tempo real e falar as novidades da vida enquanto passeávamos por mundos estranhos. Você pode ignorar o futuro e me chamar de maluco ou pelos menos dar uma olhada nessas novas possibilidades que se abrem. Não tem nada a ver com se isolar, mas sim com encontrar outras pessoas. Caio está em Belo Horizonte, Nicole, em Londres, Cris e Pedro no Rio e eu estou em SP. Quando o Cris morou nos Estados Unidos e depois no Canadá, a piada era que eu só conseguia lembrar dele como um hobbit e ele já tinha esquecido minha figura feiosa e me imaginava como o elfo ridículo que eu adotei como avatar no EverQuest. Coisas da vida nerd que beiram a boiolice, eu sei, mas é assim mesmo.

Dito isso, começam a surgir os frutos do esforço de uma gangue de nerds apaixonados por ficção científica. O nome da brincadeira é D20 Modern Mod. Os caras estão criando cenários e todos os objetos e modificações possíveis para atualizar o NWN para o mundo contemporâneo. É claro que o efeito inicial disso é um mundo mais “matrixado”, feito para abrigar tiroteios e jornadas por cyberespaço que são aquelas representações coloridas que você viu nos filmes. Outra coisa é que as texturas ainda estão simples demais e até feias. Mas, ei!, é só o início.

Assim como os criadores dos milhares de módulos do NWN original desenharam cidades, personagens e tudo o mais com tendências que iam do bucólico ao sinistro, em pouco tempo teremos cenários e cidades modernas diferentes. E, claro, logo, logo, Manhattan vai ganhar uma versão virtual para esse jogo… Que venham depois Paris, Londres, Rio de Janeiro, São Paulo…

A idéia é boa, o filme é ruim

20/01/04

Não é que “Liga Extraordinária” seja um filme de ação de todo ruim. Se você não for leitor de quadrinhos, pode até gostar. Eu que li a minissérie, tentei ver o filme sem aquele ranço dos puristas, mas não deu. Fracassei.

Mas, se você leu a minissérie de Alan Moore, vai achar tudo uma porcaria. Os efeitos são uma droga, a direção é indigente e a história e os diálogos não têm nada da verve do malucão cabeludo. De saldo interessante, fica a presença de Dorian Gray. Ao contrário dos puristas, não me importo que Tom Sawyer nunca pudesse ser contemporâneo daqueles personagens. Besteira, não é isso que me incomoda. É pior. Ele não devia estar lá porque o personagem não tem nada a ver mesmo. Um ridículo artifício pseudo-metafórico para fazer a passagem de guarda da Inglaterra para os Estados Unidos.

Mas isso só transparece para quem leu a obra de Moore. Quem chega desavisado vai achar tudo muito interessante e imaginativo. É não á para menos, a idéia de juntar esses prodígios é boa demais mesmo. Mas é do Alan Moore, viu, pessoal.