A história do Historieta
23/12/03
Era em torno de 1986 ou 1987, nem sei mais. Apaixonado por quadrinhos, descobri o mundo dos fanzines e saí mandando cartas para zineiros de todo o Brasil e gastando todo e qualquer dinheiro que me aparecia pela frente naqueles deliciosos exemplares xerocados ou, quando extremamente luxuosos, impressos em off set.
Até que eu descobri o Historieta e tudo mudou. Antes dele, todos os fanzines que eu encontrava eram cheios de reportagens sobre quadrinhos, com entrevistas e material chupado de revistas gringas.
O Historieta era diferente, porque publicava quadrinhos. Diabos, publicava histórias boas, do próprio criador do fanzine, o Oscar Kern, do Deodato (que hoje desenha Hulk e desenhou Mulher Maravilha), do Emir Ribeiro (o criador da Velta), do inconfundível Flávio Colin e de outros artistas que estão na história do quadrinho brasileiro.
Eu devorei o Historieta. Li tudo. Minha vida seguiu, me mudei, mudei de cidade, voltei ao Rio, fui pra SP de novo e trouxe minhas tralhas para cá. Onde foi parar o meu fanzine? Revirei meus livros e revistas e nada.
Uma busca na Internet me mostrou que quase não se fala no Historieta, o melhor fanzine que eu já vi. Saí atrás do e-mail do Oscar Kern e consegui, depois de muita luta, encontrá-lo.
Agora, vários meses depois, ele me mandou o que tinha de Historieta em seu estoque. São as oito primeiras edições, mais a 11 e a 19. Atualmente, Kern trabalha na vigésima e está cheio de idéias e planos e eu mal posso esperar pelo próximo Historieta. Chegou em casa esta tarde. Não vou esconder que estou emocionado. É como voltar em um lugar de sua infância muitos anos depois e ele estar lá igualzinho. Ser tão bacana quanto era naquela época. A experiência de não se decepcionar é maravilhosa.
Uma das coisas saborosas da profissão de jornalista é o prazer de trazer para as pessoas personagens como esse: um cara que passa mais de 20 anos editando um fanzine, um projeto pessoal. Oscar Kern é um romântico, um apaixonado pelos quadrinhos. Seu Historieta conta um pouco da história e da evolução de nosso quadrinho, nos roteiros e na arte. É ali que você descobre que Deodato imitava Will Eisner descaradamente, por exemplo.
Ao longo de mais de 20 anos e quase 20 números, Kern foi trazendo veteranos e novatos que iam mostrando suas habilidades. Se eu fosse editar uma história em quadrinhos, ia fazer tudo para publicar ao menos um capítulo no Historieta. Seria uma honra. Algo como estar registrado nas páginas da história.












