VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

Seja bem-vindo. Este é o blog do jornalista Alexandre Maron. Aqui você vai encontrar textos sobre assuntos que vão de cultura pop a política, de religião a video games. Há também meu histórico profissional e meu portfolio. Conheça meus outros projetos.

Volte sempre!

“Invasões” é bárbaro

Remy, um comunista sonhador, está morrendo de câncer em estado terminal. Suas convicções estão morrendo com ele e esta é sua última chance de rever seu filho, Sébastien (que virou um negociador milionário), sua filha (que saiu pelo mundo navegando), sua mulher e seus amigos. Para diminuir a dor do pai, o rapaz pede ajuda a Nathalie, a filha de uma das ex-amantes de Remy. Ela fornece doses de heroína que o farão suportar a dor da doença. A situação gera um melodrama recheado de boas atuações e que rendeu prêmios de roteiro (ao também diretor Denis Arcand) e de atuação para Marie-Josée Croze, a Nathalie.

Só isso?

Como “Invasões Bárbaras” é uma continuação do brilhante “O Declínio do Império Americano” (1986), do mesmo diretor e com o mesmo elenco, agora envelhecido, claro, o resultado é mais profundo do que a leitura pura e simples do melodrama. Antes de tudo, “Invasões” é uma alegoria política que só mesmo a crítica americana não conseguiu ou não quis entender, por motivos óbvios. (>>>>>)

Archand materializa nos personagens as idéias que já tinha estabelecido em seu outro filme. Remy simboliza os ideais socialistas de sua juventude que agora estão moribundos como ele. Seu filho é o capitalismo avançando sobre tudo e usando o dinheiro para comprar o que julga importante para dar ao pai um fim digno.

Há o momento em que Remy recebe uma mensagem da filha que saiu pelo mundo em um barco. Ela simboliza o espírito livre que ele perdeu em algum lugar de seu passado. E como ele o perdeu, a moça acaba não voltando para ver seu pai. Manda uma mensagem de adeus e, no último momento, como que traída (na verdade, no nível dramático, está sofrendo com a idéia da morte do pai), lhe vira as costas.

Logo em seguida, a cena em que Remy mergulha na escuridão totalmente dopado de Heroína, ministrada pela junkie Nathalie (convocada pelo filho, que, aliás, em nenhum momento suja as mãos), de mãos dadas com Sébastien é algo que mistura o sublime com um soco no estômago. Se você não enxerga as metáforas espalhadas pelo roteirista-diretor, ao menos se emociona com a jornada de Remy. Chorar é inevitável.

Só isso?

Claro que não. (>>>>>)

Há mais seqüências memoráveis como aquela em que a noiva do filho de Remy conversa com um padre que tenta convencê-la a arrematar objetos de uma igreja para vender em leilões de arte. Quando ela diz ao homem que aqueles objetos só têm valor para as pessoas daquela comunidade, que cresceram freqüentando aquela igreja, o padre diz “mas isso não tem valor comercial para o mundo exterior? Então não tem valor nenhum”.

Muitas pessoas enxergam cinismo em “Invasões”. Eu vejo ironia e uma espécie de consistência na mensagem que me dão uma esperança maior de ver obras inteligentes em um cinema que vai se tornando irritantemente literal a cada ano. Então, quando Nathalie, a junkie, chega na biblioteca de Remy e vê os livros que ele reuniu, para mim é a reafirmação do que ele acredita em sua existência como um ateu. A moça vai observando seus livros e parece disposta a fazer alguma coisa com aquilo tudo, como se estivesse fascinada pelas suas idéias. Ela então flerta com o filho de Remy, mas o afasta. Ele volta para sua união convencional e pragmática com sua noiva e ela fica com os livros.

Ainda bem que ainda há filmes assim. Eu não podia terminar o ano sem “Invasões Bárbaras”.

Related posts:

  1. Conan, o (comediante) bárbaro
  2. “A invasão do Iraque é um desastre”, diz o futuro primeiro ministro espanhol


VOLTE PARA A PÁGINA PRINCIPAL

Deixe seu Comentário