Arquivo de 11/2003

O amor custa caro, mas dá lucro

30/11/03

Filmes sobre romances aparecem todos os dias aos montes. É a venda de uma fantasia de fogo perpétuo, de felicidade que não se acaba, de que há a alma gêmea. Eu não sou cínico o suficiente para dizer que isso não é verdade e pronto, mas sei que a despeito de ser vardadeiro ou só uma ilusão sentimentalóide, vende muito, muito bem.

Então, não é surpresa que surjam filminhos românticos de todos os jeitos. Cacimba, criaram até a comédia romântica, que vai te arrancando risos enquanto não mostra o beijinho apaixonado no final.

Há as formuletas. O cara que conhece a garota, faz alguma besteira e a perde e precisa reconquistá-la. O cara que gosta de uma menina gostosona e pede ajuda a uma menos bem dotada que, no processo de ajudá-lo, se apaixona por ele e acaba roubando seu coração. As fórmulas vão se acumulando e não há comédia romântica ou simplesmente um drama romântico que não seja previsível com cinco minutos de projeção.

Embora eu seja um cara durão, que come prego no café da manhã e coisa e tal, não resisto a um filminho romântico. Pior, adoro as convenções do gênero e, fora alguns filmes muito desastrados, tenho uma alta tolerância às bobagens que são lançadas a granel.

Então fui ver Simplesmente Amor, aquele filme com o Hugh Grant e com o Rodrigo Santoro e confesso que em algum momento eu já estava desesperado pra ir embora. Perdi a conta de quantos personagens se espalhavam pelas diversas tramas e comecei a ficar muito entediado. Com tantas histórias paralelas, você meio que se esquecia dos personagens e nem sabia mais em que suas histórias estavam. Estou exagerando, claro, mas o princípio é mais ou menos este. Eu cheguei ao absurdo de, depois de não ver o Hugh Grant no filme por uns bons -o quê?- dez minutos, me surpreender quando ele finalmente apareceu: “ah, nossa, ele está no filme, é mesmo”.

Para completar, o filme é limpinho demais. No meio de tantos amores, de adultos, de casais de meia idade, de 20 e poucos e 30 e poucos, faltou alguém gay sem que isso fosse engraçado. Definitivamente, se o filme foi calculado pra atingir uma fatia expressiva do público, eu não estou nela. Saí achando a coisa toda muito mais ou menos.

Para fazer o contraponto, vi Alex e Emma, um filminho bonitinho com o Luke Wilson e a Kate Hudson, que caminha a passos largos pra virar uma nova musa. Ela está tão adorável quanto em “Quase Famosos”, em que já era difícil não sair do cinema fã de carteirinha da carinha de boneca da moça.

“Alex e Emma” mostra um escritor que deve dinheiro e precisa da ajuda de uma estenógrafa para terminar seu livro a tempo de pagar a dívida. Claro que a estenógrafa é linda e adorável e que eles dois vão ficar juntos no final. Mas a graça está na forma como eles vão se apaixonando enquanto ele cria a história e vai ouvindo as opiniões dela. Filme pra ver com a namorada sem medo de ser feliz e se dar bem depois. :)

Carinho abreviado

30/11/03

Pode me mandar SDS (saudações), mas nunca bjs (beijos) ou abs (abraços). Cumprimentos desse tipo exprimem carinho e isso não cabe abreviação.

bjs é um daqueles beijinhos em que os rostos não se tocam, uma coisa tímida e impessoal, só pra cumprir tabela. Eu sou do tempo em que a gente beijava as bochechas das meninas e tomava o cuidado de não deixar ninguém babado, que isso é feio.

abs é um daqueles abraços moles, sem nenhuma convicção. Eu gosto de abraçar as pessoas com vontade. Dou até abraços de urso quando é a hora e o lugar. Mas abs nunca. Nem pros meus piores inimigos. Negócio mais frouxo, sem graça nem convicção.

Quando recebo mensagem de gente conhecida com Abs e bjs eu deleto imediatamento. Vai se catar!! :)

O melhor filme de 2003, só chega em 2004

29/11/03

O que me fascina nas pessoas é a forma como elas são cheias de surpresas. Estão sempre prontas para contrariar a imagem que nós fazemos delas.

Como é que o cara que ficou popular com frases como “come on, punk, make my day”, que fez um monte de filmes ruins, outro monte de coisas sofríveis e que dirigiu tanto clássicos modernos como “Os Imperdoáveis” quanto um lixão como Rookie (com SOnia Braga e Charlie Sheen) me sai com um filme como Mystic River? (publicado em Uncategorized | deixe o seu comentário »

Morbidez assinada

28/11/03

Caramba. O UOL Música conta que o disco que o John Lennon autografou para Mark David Chapman, o cara que ia matá-lo algumas horas depois na porta do edifício em que o ex-Beatle morava, está sendo vendido por US$ 525 mil!!! :-O

Não há limites para a morbidez… Ridículo.

Mais Michael Jackson

27/11/03

Texto absolutamente brilhante de Contardo Calligaris na Folha de hoje fala sobre o caso Michael Jackson, o moralismo e a falta de ética da mídia. Ele termina com a célebre frase do reverendo Martin Niemoller:

“Primeiro, eles vieram pegar os comunistas, mas eu não era comunista e não falei nada. Depois, vieram pegar os socialistas e os sindicalistas, mas eu não era nenhum dos dois e não falei nada. Logo vieram pegar os judeus, mas eu não sou judeu e não falei nada. E, quando vieram me pegar, não sobrava mais ninguém que pudesse falar por mim”.

Eu estou com vergonha

26/11/03

Eu só costumo ler o Globo de tarde. Então, demorei algumas horas para saber dessa história inacreditável, que eu também vi no site do Cris.

Eu já disse isso 100 vezes e vou repetir de novo: essas distroções ridículas só acontecem porque as pessoas se alienaram politicamente, se desmobilizaram e foram viver suas vidas deixando os outros de lado. O efeito disso é devastador.

É por isso que as escolas são uma porcaria, os hospitais matam gente e os policiais são mal-treinados em todos os sentidos. Quando o fenômeno começou, meu pai e o seu se calaram. Em vez de brigar por algo melhor, foram pagar escola particular, plano de saúde e segurança particular. Deu no que deu. Não falta gente sem dinheiro para pagar escola que, em vez de ir procurar um colégio público, prefere ficar inadimplente e pagar as mensalidades em fiação e material de construção.

A saída é se mobilizar. Chega de imobilidade.

E, como eu não poderia deixar de sublinhar, é claro que os amantes das armas vão dizer que eu tô viajando, mas é sintomático que o cara tenha feito questão de mostrar pra moça que estava “trepado” (armado, amigos, armado).

Então, só para lembrar, esse cara ERA UM POLICIAL. Ele, em tese, tinha o direito de usar uma arma. Não puxou o gatilho, mas usou o efeito moral de seu trabuco para intimidar não só uma professora DESARMADA, mas 30 ADOLESCENTES.

Abaixo, a repdrodução da notícia de O Globo

Rio, 25 de novembro de 2003

Professora reclama de cachorro e acaba presa

Ana Wambier

Uma professora e a dona de um cachorro da raça bull terrier foram parar na delegacia ontem, depois de se agredirem e trocarem acusações e xingamentos no parque do Corte do Cantagalo, na Lagoa. A confusão aconteceu quando a professora Laura Cristina da Cunha levou cerca de 30 alunos da rede municipal para fazer educação física numa quadra pública de vôlei, onde o cachorro estava sendo adestrado. Ao lado da quadra, há um espaço cercado apropriado para a recreação de cães.

Laura foi autuada por desacato a autoridade, lesão corporal e resistência à prisão na 14 DP (Leblon). A técnica judiciária Fabiana Sola, dona do cachorro (que estava sem coleira ou focinheira, segundo testemunhas), foi registrada como vítima. Os alunos da Escola Municipal Henrique Dodsworth, que cursam a 7 série e têm entre 14 e 15 anos, presenciaram o desentendimento entre as duas. De acordo com testemunhas, a briga começou quando a professora pediu a Fabiana que se retirasse da quadra para que os alunos pudessem começar a aula.

Estudantes contam que dona de cão se recusou a sair

Os estudantes disseram que Fabiana estava adestrando o cachorro e teria se negado a sair, alegando que chegara antes ao lugar. No depoimento prestado por Fabiana na delegacia, entretanto, a versão para o início da briga é outra. Ela disse aos policiais que teria aceitado sair, mas que antes daria água ao cachorro. Isso teria irritado a professora, que tomou a iniciativa da agressão, jogando os pertences da dona do cão para longe.

Essa versão foi contestada pelos alunos e pela professora. Eles contaram que Laura teria pedido pela segunda vez que Fabiana se retirasse. Irritada, a dona do cão teria xingado a professora, chamando-a de gorda. As duas começaram a bater boca. Fabiana, então, teria dito ser promotora de Justiça e noiva de um policial civil, que seria chamado ao lugar para resolver a questão.

Pouco tempo depois, chegou à quadra o policial Yan Rebello Dorigo (lotado como inspetor na delegacia de Teresópolis), que seria o noivo de Fabiana. Ele estava acompanhado de dois policiais do 23 BPM (Leblon).

Segundo uma estudante de 14 anos, ao chegar, Dorigo levantou a camisa, mostrando que estava armado.

— Ficamos todos com medo, porque ele estava armado. Claramente ele quis intimidá-la com a atitude — contou.

Os policiais militares disseram que Laura teria que ser encaminhada para a delegacia. Ela argumentou que só iria depois de levar os adolescentes até a escola, porque era a responsável por eles.

Os PMs se negaram a atender ao pedido dela e Laura se recusou a entrar no carro da polícia. O sargento da PM Marcos André Corrêa considerou a reação da professora um desacato a autoridade. Segurando-a pelos braços, ele a obrigou a entrar no veículo. Na confusão, o lábio de Laura se cortou e começou a sangrar, mas ela não sabe se levou um soco no rosto. Os alunos ficaram sozinhos no parque.

Depois de prestar depoimento e ser autuada na delegacia, a professora foi ao Instituto Médico-Legal (IML) para fazer exame de corpo de delito.

O chefe da Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, determinou a abertura de sindicância na Corregedoria da Polícia para apurar a atitude do policial Yan Dorigo

O prefeito César Maia se mostrou revoltado com o caso e disse que o município vai recorrer à Justiça:

— Esta história é inacreditável. Onde chegamos? Vou autorizar a Procuradoria Geral do Município a entrar na Justiça com uma ação reversa contra os que abusaram do poder, além de ações adjuntas pelo risco em que colocaram as crianças e agressões diversas — disse o prefeito.

Leia a notícia no site do Globo

O veredito: “O Juri” é um filminho corriqueiro com elenco de ouro

25/11/03

Ai, cacimba!!! Os caras juntaram Dustin Hoffman, Gene Hackman, John Cusack, Rachel Weisz e ainda assim fizeram um filme meia-boca? Assim não dá, Bionicão!!!

“O Juri” é um thriller de tribunal feio com ansias de ser filme de ação. Mas fica meio que perdido nessa tentativa. Pra piorar, os personagens estão mal aproveitados demais.

Pode crer que, quando você cria uma perseguição absolutamente dispensável no meio da história, é um dos sintomas de que você quer, artificialmente, criar tensão e emoção no seu filme de tribunal.

Pior, você vai introduzindo personagens que parecem ter alguma importância e eles se perdem no meio da história cheia de reviravoltas. É o que acontece com o jovem advogado que se oferece para ajudar Dustin Hoffman.

Pra piorar, Hoffman e Hackman não contracenam o filme todo e só se encontram em uma cena pra lá de piegas no quarto final do filme.

Ainda mais triste é ver a Jennifer Beals, uma sex symbol dos anos 80, quando fez o sucesso “Flashdance”, fazendo uma pontinha praticamente sem falas.

Só serve como um filme que vai contra quem acha que armas são coisas bacanas e muito úteis no dia-a-dia. Mas, cá entre nós, o filme é tão anti-armamentista que não apresenta os argumentos pró-armas. Mas quer saber? Eu acho isso um mal menor. Afinal, para cada “O Juri”, tem uns 50 “SWAT” dizendo pra todo mundo que andar armado e triturar quem sair da linha são as coisas mais bacanas do mundo. Contra tanta gente glorificando armas, um filminho francamento do lado oposto acaba sendo uma coisa boa.

Eu vi Casseta e não gostei

23/11/03

Fui eu quem convenceu a Mônica a me acompanhar ao cinema. Era eu quem estava super-aberto à idéia de rir com uma comédia idiota.

Então, a decepção maior foi minha mesmo. Eu acho que dei umas poucas risadas e alguns sorrisos amarelos, mas “A Taça do Mundo É Nossa” não me divertiu nem um pouco. Ao contrário, me deixou com aquela sensação de otarice, de dinheiro jogado fora.

E, pior, o cinema estava vazio em pleno sábado à noite. Mau sinal…

Três boas reportagens na Wired

23/11/03

Uma outra vez...Na edição de dezembro, a Wired (que anda patinando mais do que o normal) conseguiu juntar reportagens imperdíveis:

1. Usou o gancho do filme “Paycheck”, com Uma Thurman (de novo, mas ela pode aparecer quantas vezes quiser…) e Ben Affleck, dirigido por John Woo, para falar de como Phillip K. Dick se tornou quente em Hollywood.

Dick ecoa forte nas incertezas das duas últimas gerações. Os questionamentos sobre o que é realidade em um mundo feito de simulacros e de verdade fabricadas são mais atuais do que nunca e deixaram os outrora grandes mestres, como Isaac Asimov e Arthur Clarke, datados. Para completar, Dick escrevia melhor que seus pares… Como bônus, traz Paul Verhoeven falando de Total Recall.

2. Conversa com Bill Joy, que virou uma espécie de guru do controle da tecnologia.

Ele fala que usa Mac OS X (”o sistema mais sólido”), que Linux e Windows são desinteressantes, que há muita coisa boa para se fazer com computadores antes da lei de Moore acabar e que, sim, devemos pensar se alguns campos da pesquisa científica não deveriam ser abandonados antes que alguém abra uma Caixa de Pandora.

3. Reportagem sobre as implicações da sensacional iniciativa da Amazon de permitir a busca de palavras dentro de livros.

Quem estava acompanhando a história não tem grandes surpresas quando a Wired explica que o tal projeto da Amazon não é uma biblioteca, mas sim um índice. Mas já dá para curtir ver como os caras fizeram pra arquivar os textos. O artigo aproveita o ensejo para falar de projetos que querem realmente tornar livros disponíveis no formato digital.

É de matar de tão bom

22/11/03

“This is what you get when you fuck around with the Yakuza! Go home to your mother!”

“Those of you lucky enough to have your lives take them with you!
However, leave the limbs you’ve lost. They belong to me now.”

“You might not be able to fight like a samurai, but you can at least die like a samurai.”

“That woman deserves her revenge and we deserve to die.”

Não é a escolha de músicas, nem as cenas de luta coreografadas com carinho, hiperviolentas e regadas a muito muito sangue. Não é a junção de Uma Thurman (linda, longilínea, torturada e maaaagra) com o elenco perfeito perfeito, nem os enquadramentos geniais, as trocas de cor e de textura na hora certa.

É tudo junto que faz de Kill Bill (pelo menos o volume 1) o trabalho de um gênio.

Tarantino não quer fazer cinema sério. QUer fazer cinema. Quer, não. Faz.

Ele sabe exatamente o que ama. Os filmes vagabundos e baratos, feitos sem um décimo da sua genialidade, apenas para garantir uns trocados. Ele os reprocessou, deu-lhes uma roupagem nova, imprimiu seu estilo e criou quatro pequenas pérolas: “Cães de Aluguel”, “PULP FICTION” (que precisa ser escrito sempre em caixa alta, por respeito), “Jackie Brown” e agora “Kill Bill”.

Em Kill Bill não há uma única sequência, nem um único enquadramento, no qual falte elegância e no qual cada movimento não tenha uma função específica.

O safado do Taranta se deu ao trabalho de colocar no filme cacoetes e seqüências de filmes antigos de porradaria, como os closes e os efeitos sonoros exagerados ou as musiquinhas usadas para sublinhar um momento, aquilo que as novelas da Globo fazem tão bem. Ele até manteve a textura mono-sujona de alguns takes de som, pra quem precisar que ele desenhe.

É uma homenagem ao kitsch sem ser kitsch, uma homenagem ao brega com um grau de sofisticação inigualável e embalado em diálogos e cinematografia de primeira.

Sabe o que é engraçado? Quando eu fui para Los Angeles naquele sábado fatídico, só pensava em ver “Revolutions”, “Mystic River” e “Kill Bill”. Assim como “the Bride” fez a lista de quem ela queria matar, para mim agora só falta um.