Achar que uma pessoa tem que saber atirar ou tem que ter tentado comprar uma arma para poder discutir o assunto da posse responsável de armas é mais do que uma atitude arrogante, um absurdo conceitual.
Enquanto as motivações da discussão forem levadas para esse tipo de argumento as coisas realmente não evoluem.
O grande problema dessas discussões é que há uma enorme fatia de pessoas que querem ter armas, só querem ter armas e pronto, elas não querem se preocupar com todos os outros problemas causados por isso. Dane-se. Eu quero ter meu revolverzinho, ou minha uzi, ou minha espingarda. Eu sou um cara legal. Os outros que cuidem de si.
Elas acham que a solução das tragédias que viraram cidades como o Rio de Janeiro não é pressionar sua câmara de deputados e seu governador para trazer soluções de segurança pública. Em vez disso, querem ter um revólver para brincar de faroeste com os criminosos que os ameaçarem.
Então, o argumento de salvação virou a história de que “os criminosos estão armados, temos que nos armar também”. Como se isso fosse também resolver o problema. Nada de apoiar políticas efetivas de combate ao crime. É mais fácil contratar um segurança particular, botar uma grade mais forte na frente da casa ou do prédio e comprar um trabuco. Será que não vêem que foi justamente essa política de avestruz (armado, é verdade, mas ainda avestruz) que nos trouxe até aqui?
Eu não consigo imaginar a trama diabólica que essas pessoas imaginam por trás das campanhas de desarmamento. Talvez elas achem que os traficantes controlam a TV Globo e todas as outras emissoras, todos os jornais e revistas e estão querendo desarmar as pessoas para torná-las alvos fáceis.
A minha preocupação começou de verdade quando eu recebi um e-mail dizendo, a grosso modo, que as TVs (ou a mídia em geral) não se preocupam com as pessoas que causam acidentes automobilísticos e matam outras pessoas, mas que estão fazendo massivas campanhas contra o desarmamento.
Aquilo acionou um alarme desesperado na minha cabeça e pela primeira vez em muito tempo eu mandei um e-mail respondendo essa afirmação. Pena que não tenho mais essa mensagem, mas em essência eu não consigo entender a cegueira de uma pessoa ao dizer isso.
E todas as campanhas contra direção perigosa, a criação do novo código de trânsito? Todas as campanhas que diminuíram e muito o número de acidentes nas estradas? Oras, eu já trabalhei em jornais e revistas e sei da preocupação dos editores de monitorar o número de acidentes em grandes feriados para alertar a população.
Como uma pessoa pode ficar tão cega a isso tudo e achar que estão de implicância? Fala sério, meu filho.
O que eu gostaria sinceramente é que as pessoas recuassem às perguntas mais básicas antes de saírem desqualificando quem tem o direito de se sentir inseguro ao saber que há um monte de desconhecidos armados por aí. A prova de que isso não é simples é justamente o fato de que já há uma legislação rígida regulando a posse de armas.
Perguntas básicas. Foi por isso que eu listei perigos do cotidiano no post mais abaixo. Será que todo mundo precisa ter carro? Se todos tivessem carro e saíssem ao mesmo tempo, as grandes cidades dariam um nó. Não é a toa que em alguns lugares há até pedágio para circular no centro da cidade em certos horários. Nos vendem essa idéia de que precisamos ter um carro e todos saem atrás desse sonho. Se em algum momento esse paradigma mudasse e precisássemos discutir o assunto da posse dos carros pelo bem comum de um grupo social, já prevejo o velho “eu tenho o direito”. Dane-se o grupo, o que importa é o meu desejo básico. Quero o meu.
Tudo bem ser proibido fumar em certos lugares, certo? Claro, principalmente se você não fuma. Mas não esqueça que há fumantes desesperados com essa perseguição. O argumento dos anti-tabagistas é o de que, ao fumar, a pessoa me intoxica também. Todo mundo aceitou isso, inclusive nossos amigos que agora nos desqualificam por não sabermos atirar. Tudo bem, tudo bem. Eu posso morrer com uma bala sem nunca ter atirado na vida tanto quanto, ao não ser fumante, posso contrair câncer de pulmão por estar ao lado de um fumante inveterado.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco.