Arquivo de 08/2003

A linearidade sempre esteve condenada

29/08/03

O Cris levantou a bola e eu aproveito o ensejo.

Para brincar um pouco, eu imaginei uma história:

Há muito, muito tempo, o filho do chefe da tribo, que adorava ouvir histórias, resolveu que queria tê-las só para ele. Seu pai, o grande líder, destacou um trovador para aprender todas as histórias e contá-las ao seu querido filho. O pobre contador passou pela desgastante tarefa de ouvir todas as histórias que pudesse e, em seguida, contá-las ao menino.

Sabe como é criança. O moleque ficou fascinado com o brinquedo. Ele ouvia uma história e pedia pro trovador repeti-la diversas vezes. Depois, pedia que ele repetisse trechos mais interessantes e coisa e tal.

Os anos foram passando e o pequeno virou o novo grande chefe. O trovador ficou para seus filhos que faziam as mesmas coisas. Mas o pobre homem ficou velho e cansado e um dia adoeceu e morreu. O agora grande chefe escolheu um novo trovador e mandou que ele não só aprendesse todas as histórias (algumas contadas por ele, que era um especialista no assunto) como as registrasse em uma das cavernas ali das imediações. Assim, seria possível que outros trovadores fossem aprendendo histórias e evitaria que essas se perdessem quando um deles morresse. Agora tínhamos uma biblioteca e quem ia ali podia ler as histórias de tras pra frente, repetir trechos e o que mais lhes viesse à mente.

Isso tudo só para dizer que esta busca pelo controle dos conteúdos que você consome vem de muito tempo. Antes você ouvia as histórias. Criaram uma tecnologia chamada escrita e você passou a ler as histórias quando bem quisesse e pudesse. Não precisava mais esperar que alguém contasse aquilo, bastava abrir o livro. Foi um longo caminho, mas o princípio é o mesmo. A digitalização dos conteúds só tornou isso muito, muito fácil. Concretizou esse sonho, essa vocação, esse anseio. Não é à toa que histórias de viagem no tempo são tão populares. Afinal, lá você muda o que aconteceu e destrói a linearidade, a imutabilidade da realidade.

Eu não vejo TV do jeito normal há anos. Fora no jantar, no lanche, no almoço ou quando acontece algum evento importante que exige minha atenção ao vivo, eu não vejo nada na hora em que está acontecendo.

A tecnologia foi avançando e a linearidade das coisas foi se desfazendo. Antes, você só podia ver TV ou ver um filme obedecendo aquela alimentação linear da informação. Depois, veio o Videocassete e tudo mudou.

Você podia ver um filme, parar para ir ao banheiro e voltar do ponto onde havia interrompido a exibição. Com os gravadores em VHS, podia gravar a novela e depois assistir a tudo pulando os comerciais.

Chegaram os gravadores digitais que oferecem até replay em tempo real, ou seja, você está vendo um programa e pede para repetir um segmento e a maquininha não pára de gravar o que está acontecendo no momento enquanto repete o que você pediu.

Mas em geral, havia a limitação dos meios de distribuição do material. Já se vão mais de dois anos em que o P2P de vídeo explodiu. Hoje, você consegue assistir ao que está sendo veiculado nas TVs européias e americanas e até garimpa filmes raros que nunca chegam a ser distribuídos por aqui.

Eu precisei comprar vários filmes em viagem ou mesmo pela Amazon porque eles não eram vendidos pelas distribuidoras brasileiras. Agora, eu faço uma busca, espero alguns dias (menos do que os cerca de 20 que esperava pela minha encomenda) e o vídeo está no meu HD, pronto para ser queimado em um CD. Basta comprar uma placa de vídeo com saída para a TV e voilá, assisto na sala. Tendo uma plaquinha de digitalização, eu posso também gravar meus programas prediletos no meu HD e depois em um CD ou DVD. Com mais qualidade do que o que eu tinha em uma fita VHS.

Na Europa, até as operadoras de TV paga estão lançando serviços em que as caixinhas de decodificação vêm com gravadores digitais que já vão armazenando os conteúdos que você gosta e colocando a sua disposição. Nos EUA, já foi testado um serviço no qual você paga uma assinatura e tem direito tanto aos canais lineares quanto ao pacote de filmes e seriados por demanda.

Um dia, no futuro, os canais vão ser só grifes de distribuição de entretenimento. Provavelmente vamos continuar tendo alguns canais lineares, mas eles vão deixar de ser o padrão. Estou esperando.

Endubidooooo!

29/08/03

Argh. Eu dão aguendo bais ezza garganta doendo e ezze dãdiz endubido!!!

Mas hein?

29/08/03

Fernando Henrique, em quem eu nunca votei, foi sacaneado por dois mandatos por conta da célebre frase “esqueçam o que eu escrevi”.

Agora, Lula, em quem eu votei repetidas vezes, me sai com essa de que nunca gostou de ser rotulado como “de esquerda”. Isso só me leva a fazer uma ironia maldosa e preconceituosa que você não vai ver sair daqui muito mais vezes, mas à qual eu não resisto.

Porque, se Fernando Henrique pediu para esquecerem o que ele escreveu, o Lula, que não escreveu nada, só pede para esquecermos o que ele foi… Aí é fogo.

Reclamação vazia de pequeno burguês….

28/08/03

Alguém me explica por que diabos a Warner fez um trabalhinho tão porco no desenho das embalagens da coleção do Senhor dos Anéis?

Deixa eu explicar uma coisa. Como SdA é uma trilogia, convinha planejar o empacotamento e desenho dos três DVDs para que todos seguissem a mesma linha, Mas o que se vê é um samba do crioulo doido.

1. As caixinhas são diferentes. O primeiro filme vem em uma caixinha daquelas dobráveis bem mais caras e luxuosas, do tipo que se usa para kits de seriados com multiplos CDs e similar a de Harry Potter 1. No dois, a caixa é comum, de plástico, como todos os outros DVDs duplos do mercado. Nem seria problema se eles tivessem feito isso desde o primeiro.

2. Em vez dos caras unificarem o padrão da escrita nas bordas da caixa, eles mudaram do um para o dois. No um, vinha o rosto de Frodo, o nome do filme, o logo da New Line, o código, a marca DVD e o logo da Warner. No dois vem o logo da Warner, a cara do Gollum, o título, a expressão DVD duplo, o código, a marca DVD, o logo da New Line. Parece besteira, mas quando os DVDs ficam lado a lado, dá pra notar isso claramente.

3. E a sobrecapa bate o recorde de amadorismo. Na do 1, o nome do filme é escrito partindo do topo. No dois, o nome vem escrito partindo da área inferior. Parece trabalho de escola malfeito.

Beleza na balança

28/08/03

Tá todo mundo detonando a Preta Gil porque ela posou nua na capa do disco.

Deixem de ser repressores! Deixem a garota posar nua e mostrar o corpo dela. Tem um padrão de beleza que virou a regra e que obriga todo mundo a ser magrinho, saradinho e coisa e tal. Se você não seguir esse padrão, é um babaca, tá fora, é um perdedor. Eu adoro quando veja uma dessas gordinhas se mostrando desse jeito. Não me importo que ela tenha feito isso pra chocar, para conseguir publicidade. Até porque ela sabia que ia enfrentar todos esses olhares e comentários repetindo sem parar o quanto ela é feia e gorda e ridícula.

Tá bom. Só as magrinhas podem estar de bem com seus corpos. Só elas podem agradar aos homens. Palmas para nós, programados para gostar do que nos disseram que é bom.

O Durval é sem noção, não sabe brincar!!!

28/08/03

Entre os filmes que se candidataram a representar o Brasil no Oscar de filme estrangeiro realizado em 2004, está, pasme, “Durval Discos”. Aquele filme infame.

Fala sério. O Durval é que nem o Joselito, não tem nenhuma noção!!!

Os nove filmes são “Carandiru”, “Deus é Brasileiro”, “Desmundo”, “O Homem que Copiava”, “Durval Discos”, “Dois Perdidos numa Noite Suja”, “Lara”, “O Caminho das Nuvens”, “Capital do Medo”.

Não sei não.

“Carandiru” foi ignorado em festivais de peso, “Deus É Brasileiro” é só simpático, mas pode surpreender, “Durval Discos”, bem, nem vou falar. Bom, continuando, “Dois Perdidos…” é um filme cheio de boas idéias e intenções, mas a Débora “Libela” Falabella cantando rap liquida qualquer chance de sucesso do filme. Dos outros, eu só vi “O Homem que Copiava”. Ia ver “Desmundo” hoje, mas uma gripe mortal me manteve em casa vendo os extras de “As Duas Torres”.

Eu ia adorar ver “O Homem que Copiava” indicado. Mas não sei que chances o filme teria. Acho que é uma obra comercial cheia de sutilezas e nuances, mas americano odeia esses finais amorais em que os personagens fazem coisas erradas e não são punidos.

Então, vou dar uma olhada em “Desmundo”, “Lara”, “O Caminho das Nuvens”, “Capital do Medo”. Mas o que me falaram de “Lara” não é muito promissor não…

Piratas chuta traseiros

26/08/03

Tá tarde. Cheguei da sessão agora. Então, vou ser breve.

Lembra quando você era criança e via filmes de ação de aventura? Lembra do quanto eles eram despretensiosos, cheios de personagens bacanas, cenas de combate vertiginosas, uma mocinha linda e cheia de atitude, coisas assim?

Não lembra? Eu lembro. Mas tudo bem, se você não teve a minha sorte, vá ver “Piratas do Caribe”, que estréia nesta sexta e você vai entender.

Se você, como eu, se divertiu com esses filmes malucos e divertidíssimos; se você, como eu, está ansioso para colocar suas mãos na caixinha com os três Indiana Jones que sai em outubro, precisa ver “Piratas”.

Prepare-se para ficar pasmo com a atuação afetadíssima, enlouquecida, afeminada, apaixonada de Johnny Depp, que diz que se inspirou em Keith Richards para compor o amalucado pirata Jack Sparrow. O filme é dele e ninguém tasca.

Quero dizer, em termos de atuação não tem para ninguém, mas quando se fala em beleza, a história é outra. Babar será sua única opção quando você der de cara com a lindíssima Keira Knightley.

E tenho dito.

Meu papel de parede diz tudo

23/08/03

Eu odeio “papéis de parede” prontinhos pra usar. Costumo pegar fotos bacanas, dar um tapa e transformar em papéis de parede. E, claro, mudo todas as semanas. Quando não troco umas duas vezes na mesma semana…

E a Lisbela?

22/08/03

Só hoje eu me toquei de que o texto que eu escrevi sobre “Lisbela e o Prisioneiro” no dia em que vi a cabine para imprensa nunca foi postado aqui! Eu deixei em algum canto do meu HD e esqueci de colocar na página. :(

Mas tudo bem. Eu recomendo muito que você veja. Ignore esse mau humor de alguns críticos dizendo que Guel Arraes usou muito da linguagem da TV no filme. Que nada. Não é que “Lisbela…” seja perfeito. É que o filme é feito para agradar ao grande público sem se esquecer de ter momentos de poesia, de paixão pelo cinema. E faz isso tudo sem esquecer de render sua homenagem ao que o Brasil… Não. Sejamos justos. Ao que a Rede Globo faz de muito, muito bom: teledramaturgia.

A trilha sonora é de arrasar. Outra vez lá estão os críticos mal-humorados reclamando que cada personagem tem sua música, que nem nas novelas. Nem dê ouvidos. A estratégia funciona deliciosamente. A produção musical, de João Falcão, é de primeiríssima qualidade. E quando George Lucas fez isso em “Guerra nas Estrelas” todo mundo achou o máximo…

E, fala sério. Selton Mello, Bruno Garcia e Marco Nanini comandam todos os batatais. A Débora Falabella entra em outra escala. Está linda, adorável, uma bonequinha. Nasceu para ser Lisbela.

Verões eternos em DVD

22/08/03

Se eu te disser que você vai ver uma comédia romântica daquelas de praia, você já imagina um monte de corpos sarados, muito sol, pessoas jogando voleibol na areia com óculos escalafobéticos, protetores solares de cores psicodélicas e surf music, claro.

Então, você dá de cara com o delicioso “Houve uma Vez Dois Verões” e aprende que quando o papo é com Jorge Furtado tudo acaba mais saboroso, mais divertido. O que era batido adquire uma alma lúdica.

Eu acho que é porque ele faz as coisas com tesão. Ele acredita que até em filme comercial há espaço para o algo mais. E ele não se entrega. Não faz as coisas do jeito fácil.

É só para lembrar porque eu odeio tanto esses filminhos horrorosos da Xuxa e congêneres. É para lembrar que filme brasileiro comercial pode acontecer sem que seja preciso ter um grupo de pagode, axé, rock ou algum apresentador de programa de auditório a cada dez minutos sem que exista uma história plausível para costurar tudo isso.

Mas eu já falei de “Houve uma Vez…” aqui antes. E falei bem, claro. Estou repetindo o papo porque o filme bacana rendeu um DVD charmosinho. Ali, além do making of e das entrevistas de praxe eles oferecem todas as músicas da trilha sonora gostosinha com cifras para violão. Por enquanto é para locação, mas logo logo vai estar vendendo, então separe sua grana e em vez de comprar um filme americano ruim, compre o brasileiro legal.