São mais ou menos 21h da sexta feira da paixão quando finalmente aporto no Santos Dumont, no Rio. No meu walkman estou ouvindo a todo volume “Californication”, do Red Hot Chilli Peppers. Desembarco e algumas pessoas falam comigo. Me oferecem um táxi sem que eu possa ouvir o som que sai de suas bocas. Como sempre quando você vaga com um walkman tocando a toda, sua vida vira um videoclipe barato, sem edição nem produção. O mundo parece se curvar ao ritmo da música que você ouve. As pessoas parecem seguir a letra, cantar alguns trechos.
Eu nem posso fingir que não estou nervoso. Vou ver minha irmã depois de quase oito longos meses.
Meses atrás, fui ao aeroporto de Guarulhos me despedir da Anna. Passamos um fim de tarde juntos -eu, ela e a Mônica- enquanto ela esperava o avião que a levaria para o Canadá. Eu sentia emoções conflitantes. Felicidade por ela estar embarcando em uma aventura e frustração porque não era eu quem estava levando a minha irmãzinha praquela tal aventura.
Ela estava indo encontrar o Cris, tentar se achar e levar pra ele a felicidade que ele parecia ter esquecido por aqui. Com o coração apertado, vi a minha irmã ir embora. Naquele dia eu tive um medo enorme de não vê-la nunca mais. Um sentimento quase infantil do qual eu não consigo me separar desde pequeno. De que nos meses de separação algo acontecesse com ela ou comigo e não houvesse mais futuro.
Quando eu fui morar fora do Rio, nos primeiros meses, temi que aquela ida pra São Paulo não fosse temporária e que eu nunca mais voltasse a morar com minha família. Pois acabei morando por lá por quase três anos. Voltei por um ano ao Rio e fui de novo a SP. No dia 10 de setembro de 2000, quando desembarquei em SP, senti aquela melancolia de que não voltaria a morar com a mama e com a mana de novo. Agora era uma certeza.
No caso da Anna no Canadá eu estava errado. Como já estive muitas vezes antes e espero estar muitas, muitas vezes no futuro.
Californication dava seus acordes finais quando eu vi o carro piscando os faróis pra mim e o sorriso lindo da minha maninha brilhou de lá de dentro. Nos meses e dias em que eu a vi deprimida, fosse por meio das letrinhas na janela do meu Yahoo Messenger ou nas imagens entrecortadas da minha webcam, eu ficava frustrado de não poder ir lá passar uns dias com ela, de, sei lá, brincar de guerra de bolas de neve, passear com ela e tomar os capuccinos que ela dizia estar tomando aos montes por lá.
Na minha imaginação, a minha irmã que estava sempre sorrindo passeava triste por uma cinzenta Winnipeg. E eu não podia fazer nada por ela. Alguma vezes, em vez de ajudar, fui duro demais e a fiz chorar. E a minha frustração e meus desespero aumentaram. As regras normais não funcionam nessas horas.
Em fevereiro, quando eu fui a Los Angeles, tivemos uma idéia genial: eu pagaria uma passagem Winnipeg-LA e nos encontraríamos nas ruas e praias ensolaradas da Califórnia. Seria o máximo. Ela ficou toda animada, mas não conseguimos concretizar nossos planos porque tirar o visto americano era algo complicado, caro e demorado. Ela nunca conseguiria a tempo de encontrar-me em Los Angeles. Perdemos a chance.
Mas naquele momento faltavam menos de dois meses para o fim do sofrimento. Agüentamos firme e os papos pela Internet já eram sobre o que ela faria quando chegasse aqui.
Hoje, meu tio teve um derrame. Logo o que era um dos mais ativos e brincalhões. Minha mãe, que sempre me espera com ansiedade, tomou um remédio para dormir e estava descansando quando eu cheguei em casa. Ela brigara com uma médica que estava atendendo meu tio e tentara por todo o dia transferi-lo para um hospital melhor. Foi um dia estranho.
De tarde, almocei com a Mônica, e os pais dela lá em São Paulo. Como eu vim pro Rio descansar nas minhas férias, eles foram passar a Páscoa com ela. No caminho para o aeroporto, paramos para tomar um café e jogar conversa fora um pouco.
De noite, quando encontrei a Anna, o Cris e o Cláudio, comemos uma salada em Ipanema e fomos andar no calçadão. Encontramos um engraxate bêbado que tocava um sambinha com a flanela e ficou se exibindo para nós. Tudo trivial, tudo tão bom e significativo, justamente por isso. Eu estava com minha irmã e meus amigos vagando sem rumo. Meu tio tivera um derrame, os pais da Mônica foram ficar com ela em São Paulo, meu cachorrinho se recusava a se alimentar, minha cadelinha latia quando me ouviu chegar no meu apartamento e nem isso acordou minha mãe, que estava dopada e triste.
Ficamos conversando um pouco no lugar que foi o meu quarto. A Anna e o Cris me deram presentes ótimos. Na vida real, as musiquinhas emotivas não tocam nesses momentos. Eu senti uma emoção plena quando ganhei aqueles presentes e tenho certeza de que o obrigadoe os elogios que fiz ao que ganhei não exprimiram direito o que eu sentia. Eu estava feliz e era só.
Em SP, a Mônica tentava descansar no quarto de repouso durante um plantão. Eu posso imaginar seus pais dormindo e mandando o Sagan calar a boca quando ele começa a latir pra um outro cãozinho que ouve no meio dos ruídos da noite. Deixamos o Cláudio em casa e estamos eu, Cris e Anna conversando sobre o nada. Eu vou ao outro quarto e dou um beijo de boa noite na minha mãe cansada e dopada, entristecida pelo que aconteceu ao irmão com quem ela partilhara uma vida. Ela ensaia acordar e eu a impeço. A cadela se levanta e olha pra mim com um ar de reprovação. Aviso que estamos todos em casa, como eu fazia nos velhos tempos, quando chegávamos com o dia quase nascendo. Minha mãe me dá um beijo de boa noite e agora sim parece ser capaz de dormir tranqüila. Depois de tanto tempo, em que tanta coisa aconteceu, em uma sexta da paixão estranha e triste, estamos todos debaixo do mesmo teto outra vez.
Acho que é o suficiente para entendermos que um novo ciclo começou.